Trabalho

Como se candidatar a uma vaga para a qual você é qualificado demais

Rebecca Knight
21 de fevereiro de 2018

Uma vaga de trabalho chama a sua atenção, mas a experiência exigida é de apenas 8 anos — e você está neste setor há 15. Ainda assim você deve se candidatar? E se for chamado para uma entrevista, deve admitir que talvez seja qualificado demais? O que você deve levar em conta antes de assumir o cargo?

O que dizem os especialistas
Existem muitas razões para você aceitar um trabalho que não condiz com seu nível de experiência. Você pode estar mudando de área ou tentando entrar em uma determinada empresa. Pode estar de mudança para outra cidade ou buscando maximizar a flexibilidade em sua vida pessoal. Ou talvez você simplesmente precise de um novo emprego. Mas não parta do pressuposto de que seu currículo impressionante lhe garantirá uma oferta, afirma Berrin Erdogan, professora de administração na Portland State University e principal autora de um recente estudo sobre o assunto. “Existe preconceito”, explica ela. “Gerentes de RH nem sempre estão dispostos a trazer alguém que seja qualificado demais”. Eles podem ficar preocupados que você ficará enfadado no cargo, diz Claudio Fernández-Aráoz, consultor sênior da Egon Zehnder International e autor de “It’s Not the How or the What but the Who“. “O gerente pode pensar que você não vai ficar na empresa, então seria perda de tempo e de esforço. Ou o gerente de RH pode vê-lo como uma ameaça”. Assim, seu objetivo é “certificar-se de que os entrevistadores não fiquem intimidados com sua presença”. A seguir estão algumas dicas para ajudá-lo a trazê-los para seu lado.

Preste atenção à sua atitude
Antes de mais nada, não seja arrogante. “É contraproducente pensar que a empresa vai ter sorte por contar com você”, afirma Erdogan. “A empresa quer alguém que seja adequado para a função. As capacidades que você acha que tem em excesso podem ser irrelevantes para aquele determinado contratante”. Assegure-se de que você não está dando a impressão de certa autoimportância ou pomposidade. “Nenhum candidato deve dizer que se acha qualificado demais. Se outra pessoa diz isso sobre você, é lisonjeiro. Quando você diz, é desagradável”. Se o gerente de RH fizer menção a isso, seja humilde. Erdogan sugere que se responda: “Sei que tenho mais experiência do que está sendo pedido, mas estou empolgado com a empresa e com o cargo, e ansioso para ajudar da melhor maneira possível”.

Seja honesto (até certo ponto)
Até que ponto você deve ser sincero sobre os motivos que levaram você a se candidatar àquela vaga? “Depende de suas razões e de até que ponto elas são socialmente aceitáveis”, diz Erdogan. Ela recomenda que você explique seu interesse com base em seus objetivos para sua carreira. Por exemplo, fale que você está interessado no trabalho porque tem crianças pequenas em casa e gostaria de ter um pouco mais de flexibilidade. Erdogan recomenda dizer algo como: “Gostaria de ter um trabalho que não seja imprevisível e que exija poucas viagens” (isso pressupõe que você sabe que o cargo oferece essas coisas). Ou talvez esteja interessado na função porque está há meses procurando um emprego e está ficando desesperado. Neste caso, Erdogan propõe que se diga: “Venho trabalhando sob contratos e uma posição mais permanente me interessa”. Pense bem como vai responder as perguntas sobre por que você quer o cargo e os motivos que fazem você querer trabalhar neste setor, afirma Fernández-Aráoz. “Nada convence mais do que convicção”, continua ele. “Mostra integridade”.

Refute suposições universais
É provável que o gerente de RH esteja “fazendo determinadas suposições” sobre você e sua candidatura, por isso é importante “entender essas preocupações e suposições”, bem como “refutá-las”, afirma Erdogan. O gerente pode pressupor, por exemplo, que você é caro. Para refutar isso deixe de lado a questão do salário dizendo: “O salário não será problema e estou disposto a trabalhar dentro da pretensão salarial do cargo”. O gerente pode imaginar que você se sentirá enfadado e não ficará no cargo por muito tempo. Erdogan sugere que essa ideia seja refutada “demonstrando empolgação sobre a empresa” e “chamando a atenção para trabalhos anteriores em que você permaneceu bastante tempo”. O gerente pode pressupor que você está desesperado ou “que há alguma coisa errada com você”. Nesse caso, é útil usar alguém conhecido como referência para dizer algumas palavras em seu favor; pode ser um antigo colega ou chefe, diz Erdogan, ou “alguém de dentro da empresa, talvez um conhecido em comum que possa falar com a pessoa que está contratando [confirmando] que você é um ótimo colega, bastante interessado no cargo”.

Se ainda houver dúvidas em relação à sua adequação à função, o conselho de Fernández-Aráoz é olhar para a situação como se fosse preciso “solucionar um problema” e “ser estratégico” ao mostrar como a empresa pode se beneficiar escolhendo você para o cargo. A seguir estão algumas estratégias — junto com algumas advertências:

Pense grande
“Líderes visionários não contratam para suprir necessidades imediatas; contratam pensando no futuro”, comenta Fernández-Aráoz. Você pode incentivar o gerente de RH a pensar de modo mais amplo sobre a função “compartilhando de maneira entusiasmada ideias que mostrem como o trabalho pode ser grandioso”, continua ele. Talvez você realmente seja qualificado demais para aquele cargo em particular, mas com responsabilidades extras, novos projetos, ou com territórios ou áreas adicionais, pode se adequar perfeitamente a você. “Seja proativo destacando as possibilidades. Prove para o entrevistador que ele precisa contratar um peixe grande, não um vairão”.

Deixe o trabalho sob medida para você
Outra estratégia seria “conversar com o gerente de RH sobre as possibilidades de se adaptar a vaga atual a suas capacidades e interesses”, diz Fernández-Aráoz. “Essa abordagem pode ser um pouco complicada porque demonstra que você está procurando algo mais”, mas pode ser uma boa oportunidade para moldar o trabalho de maneira a ficar mais atraente e mais adequado à sua experiência. O objetivo é “procurar formas que permitam a você agregar valor”.

Ofereça ajuda temporária
Outra possibilidade, segundo Fernández-Aráoz, é se referir ao emprego como uma “missão”, isto é, você vai “oferecer uma especialidade específica” para ajudar a empresa a “atingir um objetivo ou uma meta” por um período determinado, ficando acordado que depois você passará a atuar em uma função mais abrangente e importante seja dentro daquela empresa ou em outra firma. Você pode sugerir ligar este trabalho a uma forma “especial de compensação — um bônus significativo, um adiantamento, ou uma taxa de sucesso” depois de atingir determinada meta. Dessa maneira, o gerente de RH se sentirá melhor acerca da probabilidade de você permanecer “porque você quer o dinheiro”, afirma Fernández-Aráoz.

… Mas não peça muito
Pensar criativamente sobre como se colocar em relação ao cargo é inteligente, mas Erdogan alerta contra a empolgação. “Você vai ter a chance de moldar o trabalho e expandir seu papel quando fizer parte da empresa e tiver uma compreensão de como as coisas funcionam”, ela diz. Erdogan recomenda uma abordagem a longo prazo. “Junte-se à empresaa, tenha um bom desempenho que mostre que você está pronto para mais e, com o tempo, assuma mais responsabilidades”.

Não se sinta desencorajado
“Às vezes, quando pessoas qualificadas demais para uma função não conseguem a vaga, ficam nervosas e chateadas”, comenta Erdogan. Mas você precisa resistir a este impulso. “Lembre-se de que vários fatores são levados em conta em uma contratação — relação interpessoal, por exemplo — e muitos deles não são claros para o candidato”, diz ela. É muito provável que você não tenha sido escolhido porque outro candidato simplesmente era mais adequado para o cargo. “Você não pode levar para o lado pessoal”.

Preceitos que não devem ser esquecidos
Fazer:
Admita que o gerente de RH está fazendo suposições (frequentemente negativas) sobre você e sua candidatura, e demonstre elementos para refutá-las.
Posicione-se estrategicamente sugerindo diferentes maneiras de lidar com o cargo.
Identifique alguém como referência — um antigo colega ou chefe — que fale a seu favor com o gerente de RH.

Não fazer:
Ser pomposo e agir como se você fosse muito bom para o cargo — é contraproducente.
Pensar muito limitadamente sobre o cargo atual que está sendo oferecido; procure formas de deixá-lo de acordo com suas capacidades, especialidade e interesses.
Sentir-se desencorajado se não receber uma oferta. Existem inúmeros fatores que contam na decisão e muitos deles não são claros para o candidato.

Estudo de Caso 1: Seja cuidadoso acerca de como você se posiciona em frente ao gerente de RH.
Em 2008, depois da queda enfrentada pela economia mundial, a empresa para a qual Lauren McAdams trabalhava faliu. Lauren, que tinha vários anos de experiência profissional, uma carreira em projetos e diploma em administração, estava desempregada.

“Fiquei um pouco desesperada e candidatei-me a vagas em bares, restaurantes, e até em uma lanchonete”, recorda-se ela.

Um ano depois, Lauren estava realizando trabalhos temporários para cobrir as despesas quando se candidatou a um trabalho que era basicamente de assistente de marketing. “Era uma posição para iniciantes, mas pensei que podia fazer com que desse certo; só precisava conseguir explicar à gerente de RH que eu seria um bom investimento”.

Quando Lauren foi para a entrevista, a gerente foi direta. “Ela me disse que estava preocupada com o fato de eu ser qualificada demais, achando que eu ficaria entediada com o trabalho”.

Lauren sabia que precisava ser astuta e estratégica na maneira como abordaria aquelas preocupações. Baseando-se em suas pesquisas, ela sabia que a empresa estava começando a vender softwares de planejamento de negócios e consultoria de serviços. “Disse à gerente de RH que possuía um sólido domínio desses produtos”, comenta ela.

Além disso, Lauren também chamou atenção para o fato de que ela era praticamente perfeita para o perfil de clientes que a empresa tinha como alvo. “Expliquei como estava em uma posição em que podia ver as coisas tanto do ponto de vista de clientes em potencial, como da empresa”.

Em determinado ponto da entrevista, Lauren comentou sobre suas ideias acerca de como aquele trabalho podia ser maior. Falou sobre novos projetos que poderia realizar, e destacou novas responsabilidades que poderia assumir.

Ela foi direta ao demonstrar empolgação pela vaga e pela empresa, mas, ao mesmo tempo, foi humilde. “Deixei claro que estava lá para aprender. Mencionei que depois que tivesse aprendido bastante sobre a empresa — seus produtos e sua estratégia de marketing em geral — estaria em uma posição para contribuir com a estratégia de negócios, com novas iniciativas de marketing e com o desenvolvimento dos produtos. Quando a gerente de RH disse que a aquela função parecia mais com a de gerente do que com a de um auxiliar, respondi que, a longo prazo, era exatamente isso que eu estava buscando.

“Acho que ela ficou impressionada tanto com minha confiança como com minha vontade de ser funcionária da empresa por bastante tempo”.
Lauren conseguiu a vaga e rapidamente a adaptou, deixando-a mais alinhada a seus interesses e capacidades. Ela acabou ficando na empresa por mais de três anos. Atualmente, é consultora de carreira e gerente de contratação da resumecompanion.com.

Estudo de Caso 2. Demonstre sua empolgação com a vaga, e como você irá agregar valor.
Há alguns anos, Mehmood Hanif, que havia estudado para ser gestor de marca e tinha mestrado em gestão de marketing, trabalhava em uma empresa na área de educação em Karachi, no Paquistão. Mas Mehmood estava interessado em trabalhar em outros setores, por isso estava aberto a qualquer trabalho que pudesse lhe oferecer isso.

“Queria conhecer diferentes setores que achava interessante”, diz ele. “Também desejava adquirir novas capacidades para [poder usá-las em] campanhas de marketing e trabalhos no futuro”.

Certo dia foi entrevistado para uma vaga de assistente de marketing em uma empresa farmacêutica. “O candidato deveria auxiliar gestores de marca, mas não era uma vaga diretamente ligada ao marketing propriamente dito”, recorda-se ele. “Tomando como base minha formação e experiência, eu era qualificado demais”. Contudo, ele queria a vaga.

Na entrevista, Mehmood destacou sua especialidade específica e explicou como poderia ajudar a empresa. “Disse ao gerente de RH como podia agregar valor. Por exemplo, durante as entrevistas, descobri que a empresa dependia muito de relatórios impressos. Sugeria soluções que diminuiriam a percentagem de papel usado pela empresa”.

Ele certificou-se de que demonstrava seu interesse pelo cargo mas foi sincero sobre seu desejo de subir dentro da empresa. “Disse que achava que podia fazer a diferença e que tinha a esperança de um dia mudar para o departamento de marketing”.

Quando o gerente de RH disse que estava preocupado em contratar alguém qualificado demais e que pudesse achar o trabalho enfadonho e então deixar a empresa, Mehmood mencionou trabalhos anteriores em que havia ficado por longos períodos. “Disse ainda que eu mesmo me motivava, e que adorava fazer coisas novas. Se você tem capacidade, pode sempre encontrar novas forma de fazer seu trabalho de maneira diferente e nunca ficará entediado”.

Mehmood conseguiu a vaga e ficou na empresa por três anos. Hoje em dia, é estrategista sênior de marketing digital na PureVPN, que opera uma rede VPN autônoma. “Era basicamente este o trabalho que eu estava procurando”, diz ele.
————————————————————————————-
Rebecca Knight é jornalista freelance em Boston e professora da Wesleyan University. Seu trabalho foi publicado no New York Times, no USA Today e no The Financial Times.

Compartilhe nas redes sociais!