Carreira

Três motivos por que é tão difícil “seguir sua paixão”

Jon M. Jachimowicz
13 de novembro de 2019

Quantas vezes já lhe aconselharam a “seguir sua paixão”? Essa é uma mensagem que aparece em toda parte, de discursos de formatura até anúncios de emprego. Nós mesmos a utilizamos. Quando fiz uma pesquisa recentemente com uma classe de estudantes de MBA da Columbia Business School, mais de 90% deles escolheram “buscar sua paixão” como uma meta importante em seus futuros empregos.

Leia também:

A contratação de trabalhadores mais velhos

O que acontece quando perdemos nosso mentor

Entretanto, de acordo com um levantamento recente da Deloitte com 3 mil trabalhadores em tempo integral nos EUA, em todos os níveis de emprego e setores, apenas 20% dizem que são realmente apaixonados pelo trabalho. Pesquisas que eu e outras pessoas realizamos mostram que muitos – senão a maioria – de nós não sabemos como seguir nossa paixão e, portanto, não o fazemos. Como resolver esse enigma? Pesquisas sobre a paixão sugerem que precisamos entender três elementos essenciais: (1) a paixão não é algo que se encontra, mas que deve ser desenvolvido; (2) é um desafio buscar sua paixão, especialmente porque ela diminui com o tempo; e (3) a paixão também pode nos desviar e, portanto, é importante reconhecer seus limites.

Não espere para encontrar sua paixão

Um equívoco comum sobre a paixão é considerá-la algo fixo: ou você tem paixão por alguma coisa, ou não. O problema dessa convicção é que ela é limitadora, e nos leva a pensar na paixão como algo que descobrimos ou com que nos deparamos. Consequentemente, podemos experimentar diferentes empregos em busca daquilo que se “encaixa” perfeitamente, a função que acende instantaneamente o interruptor da paixão, e talvez não levemos em conta o fato de que costuma levar tempo para desenvolvermos a paixão por um emprego, juntamente com as habilidades, a confiança e as relações que nos permitem experimentar a paixão pelo trabalho.

De fato, pesquisas apontam que acreditar que a paixão é fixa pode tornar as pessoas menos propensas a explorar novos interesses – novas fontes potenciais de paixão. Essa convicção também leva as pessoas a desistirem de novas atividades mais rapidamente quando elas parecem difíceis.

Para melhor descobrir sua paixão, desafie sua crença de que a paixão é algo a ser descoberto.Concentre-se, ao contrário, em desenvolver ativamente uma paixão. Por exemplo, no trabalho, você pode passar mais tempo explorando as tarefas pelas quais é mais apaixonado (ou simplesmente aquelas que despertam sua curiosidade) e trabalhando com pessoas que lhe inspiram. Também é útil conhecer colegas de trabalho, pelo que são apaixonados e como encaram o trabalho. Isso pode gerar oportunidades para a ajuda mútua em seguir suas paixões. Finalmente, você não precisa necessariamente encontrar sua paixão no trabalho. Se ele não lhe permite isso, ou se não quiser fazê-lo no ambiente profissional, você poderá encontrar tempo e espaço para realizar atividades pelas quais tem paixão fora do trabalho.

Concentre-se no que você gosta, não no que é divertido

Uma das maneiras mais comuns de tentarmos seguir nossa paixão é ir atrás do que nos deixa mais felizes ou o que é mais divertido. Em um estudo, meus coautores e eu analisamos todos os discursos de formatura proferidos nos últimos dez anos nas 100 melhores universidades dos EUA, e identificamos casos em que os palestrantes aconselhavam os alunos sobre como seguir sua paixão. Muitos dos conselhos giravam em torno de “concentrar-se no que você ama” como o caminho para seguir sua paixão. No entanto, alguns palestrantes descreveram a busca da paixão como “concentrar-se no que mais lhe interessa”. A distinção é sutil, mas significativa: concentrar-se no que você ama associa a paixão ao que você gosta e o que lhe faz feliz, enquanto o foco no que lhe interessa alinha a paixão aos seus valores e ao impacto que você deseja produzir.

Em um estudo subsequente com algumas centenas de funcionários, descobrimos que aqueles que acreditavam que seguir a paixão significava seguir o que lhe trazia alegria eram menos propensos a ter sucesso em sua busca pela paixão e mais propensos a deixar o emprego depois de nove meses, em relação àqueles que acreditavam que seguir a paixão significava se concentrar no que mais lhe interessava.

Por que seguir o que lhe interessa traz mais sucesso na busca pela paixão? Parece que essa convicção pode ajudar a enfrentar os desafios que fazem parte dessa busca. Considere que a palavra alemã para paixão, “Leidenschaft”, se traduz literalmente como “capacidade de enfrentar adversidades”. Em outra série de estudos, descobri que a paixão, por si só, relaciona-se de maneira tênue com o desempenho dos funcionários no trabalho. Entretanto, a combinação de paixão e perseverança – isto é, até que ponto os colaboradores permanecem fiéis aos seus objetivos mesmo diante das adversidades – estava relacionada a um desempenho superior.

A realidade é que a paixão diminui com o tempo; portanto, se você focar apenas em buscar a felicidade, poderá não se ater a um projeto como faria se se concentrasse em como isso ajudaria a alcançar o que mais lhe interessa. Quando você está em busca de sua paixão, é importante ter em mente que a resiliência é fundamental, porque essa busca é um processo contínuo – e desafiador.

Supere os limites da paixão

Também é importante entender quando a paixão não será de grande ajuda. Em uma série de estudos, meus coautores e eu descobrimos que a paixão só está ligada a um melhor desempenho quando: (a) outros concordam com qual é sua paixão; e (b) quando a paixão é expressa em um contexto apropriado (já que as pessoas tendem a ver a paixão como mais apropriada em alguns campos – como consultoria – do que em outros – como contabilidade).

O que isso significa? Imagine que você está apresentando um projeto pelo qual é apaixonado no trabalho. Observamos que expressar sua paixão só poderá lhe ajudar se seu público já concorda com o que você está apresentando. Se ele ainda não estiver de acordo, sua paixão pelo assunto pode não ser eficaz em lhe convencer. Da mesma forma, se você é um empreendedor, expressar paixão por sua ideia pode ajudar a atrair investidores, mas expressar paixão ao discutir uma carta de intenções pode não ter o mesmo efeito inspirador, por conta de quem permitimos que demonstre paixão.

Em outra série de estudos, funcionários descritos como apaixonados eram mais propensos a serem explorados por outros por serem vistos como pessoas que curtiam mais o trabalho. Como resultado, outros eram mais propensos a solicitar aos funcionários apaixonados que assumissem tarefas indesejáveis e trabalhassem horas extras. Isso realça um paradoxo desafiador: expressar sua paixão pode ser benéfico, pois outras pessoas o admiram mais e podem ajudá-lo a ter mais sucesso. Ao mesmo tempo, também pode aumentar a probabilidade de elas pedirem que você assuma tarefas que não são da sua alçada, o que lhe traz o risco do esforço exagerado e o perigo do Burnout.

Outro estudo, liderado por Erica Bailey na Columbia Business School, observou que funcionários mais apaixonados também eram mais propensos a ter confiança em excesso. Em algumas situações, isso é benéfico; por exemplo, se os empreendedores levassem em consideração a taxa básica real de sucesso em empresas iniciantes, muitos não continuariam fundando startups. Em muitos locais de trabalho, no entanto, o excesso de confiança pode levar a resultados negativos, de modo que os funcionários apaixonados e com excesso de confiança têm menos probabilidade de se interessar pelo feedback e as informações necessárias para obter sucesso. Se você é apaixonado por seu trabalho, lembre-se de que isso pode levar a uma visão insuflada de suas próprias habilidades e produção no trabalho. Isso pode realçar a importância de procurar um feedback de outras pessoas a fim de obter o esclarecimento de sua posição real; caso contrário, você pode acreditar que sua paixão o impulsiona, sem saber que isso acontece apenas em sua própria cabeça.

Muitos de nós querem seguir nossas paixões, o que costuma ser incentivado pelas empresas. No entanto, o fato é que muitas vezes não sabemos como fazer isso. Ver a paixão como passível de ser desenvolvida, como um processo contínuo e instigante, e como algo que pode nos desviar do caminho, pode nos ajudar a melhor alcançar nossos objetivos.


Jon M. Jachimowicz é Professor Assistente de Administração de Empresas na Unidade de Comportamento Organizacional da Harvard Business School. Sua pesquisa se concentra em dois tópicos. Primeiro, Jachimowicz estuda a paixão dos colaboradores pelo trabalho, destacando que a paixão é um atributo que varia ao longo do tempo. Em seguida, Jachimowicz estuda a desigualdade econômica, explorando como as disparidades de renda são percebidas e como influenciam as emoções e o comportamento dos indivíduos. Ele se concentra particularmente em como as pessoas da parte inferior da distribuição de renda podem ser apoiadas para alcançar resultados mais favoráveis em longo prazo. Ele obteve seu Ph.D. em Administração pela Columbia Business School.

Compartilhe nas redes sociais!

replica rolex