Ética

Trabalhar com finanças também pode ser nobre (sim, é verdade)

Mihir A. Desai
18 de agosto de 2017

Quando pergunto aos alunos que se formam na Harvard Business School qual o próximo passo deles, costumo ouvir algo do tipo “Vou atuar na área de finanças, mas…” daí explicam bem rápido que finanças é um degrau na escada que leva a caminhos mais nobres. Eu raramente, ou talvez nunca, ouvi os estudantes que escolhem empresas de tecnologia ou consultoria se desculpando dessa forma. Recentemente, perguntei a alguns estudantes como as pessoas reagem à escolha deles de ingressar na área de finanças, e eles deram uma gargalhada. Ao insistir para que me explicassem, disseram que a maioria das pessoas pensa que alguém que escolhe a área de finanças só está se preocupando com dinheiro — e pouco se preocupa com os outros ou com a sociedade.

Ao explicarem a opção de carreira para familiares e amigos, os formandos vão se deparar com o conceito de que nossos melhores e mais brilhantes profissionais estão desperdiçando seu talento em um ramo que não faz nada que vale a pena. Isso reflete um preconceito histórico contra finanças, assim como o medo atual de perder empregos “reais” e as preocupações justificáveis sobre o aumento da desigualdade de renda. Mas esse sentimento antifinanças é alheio à realidade da profissão e obscurece a promessa e o risco de uma carreira em finanças.

Os serviços financeiros são uma das fontes mais robustas de emprego nos EUA, com média salarial alta, atraindo jovens talentosos de fora do conjunto restrito das escolas da Ivy League (grupo formado por oito das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos). Por exemplo, em 2016, 18% dos estudantes de graduação de Harvard e 28% dos que faziam MBAs em Harvard foram direto para finanças, e 29% dos estudantes da Fisher College of Business e Ohio State University fizeram o mesmo.

Essa preocupação com os jovens que ingressam na área de finanças também obscurece a realidade de como esses empregos podem ser gratificantes. Conheço muitas pessoas que consideram a área de finanças uma área rica intelectualmente e uma fonte de aprendizagem ao longo da vida. Muitas vezes, elas começam uma carreira em finanças não pelo dinheiro, mas porque sabem que além delas, mais pessoas brilhantes entram na profissão, e querem estar rodeados por elas. Ou, anos mais tarde, muitos migram para finanças — mesmo médicos e advogados — porque descobrem que é fascinante pensar no valor gerado por um negócio.

E é verdadeiramente fascinante. Por que a Amazon vale cerca de meio trilhão de dólares (o dobro do valor da Walmart) se quase não gerou lucros? Um assinante do Snap.com pode ter a mesma importância do usuário do Facebook? Qual é o impacto da impressão 3D escalável ou da inteligência artificial no futuro da indústria? Como a crise dos empréstimos problemáticos dos bancos italianos será resolvida? Estas são perguntas importantes que não podem ser respondidas com uma análise simples. As perguntas em finanças podem ser tão intrigantes e desafiadoras como os problemas diagnósticos enfrentados pelos médicos, os enigmas lógicos enfrentados pelos advogados, as questões não resolvidas enfrentadas pelos cientistas, e os desafios estratégicos enfrentados pelos executivos.

Finalmente, a crise financeira global nos ensinou sobre o dano que as finanças podem causar — e a relevância da indústria financeira para a nossa vida. Nossas trajetórias educacionais, nossas circunstâncias familiares e nossa qualidade de vida são ditadas, em parte, pela lógica financeira. Estou poupando o suficiente? Demais? Esse investimento na minha educação vale a pena? Por que minha esposa e eu sempre brigamos por dinheiro? Como faço para sair dessa montanha de dívidas?

Por mais que nos revoltemos com o poder das finanças na sociedade, a realidade é inevitável: as finanças desempenham um papel importante durante toda a nossa vida, e muitos de nós acham isso extremamente interessante e desafiador.

O verdadeiro dilema imposto pelas carreiras em finanças é por que e como algumas pessoas que seguem essas carreiras — incluindo algumas das melhores e mais brilhantes — acabam tendo um comportamento ruim. Mesmo aqueles que gostam de pensar sobre finanças podem ver que essa prática não existe mais.

As reações habituais ao mau comportamento em finanças são a indignação ou a regulamentação. A regulamentação faz parte da solução, mas não é uma panaceia: os instrumentos regulatórios grosseiros trazem consequências indesejadas que podem criar tanto estrago quanto os problemas que deveriam solucionar. Além disso, muitos órgãos reguladores e legisladores são captados pela indústria, por isso não podemos esperar muito deles. A indignação com finanças também pode dar errado. Na verdade, a baixa reputação da profissão significa que as pessoas dessa área adotam um padrão cada vez mais baixo.

O comportamento negativo na área financeira resulta, em parte, da maneira única pela qual os participantes, particularmente os investidores, entendem seu próprio desempenho. A área de finanças é uma área diferente das outras de duas maneiras: os mercados financeiros fornecem feedback imediato, facilmente quantificado, e as consequências das decisões podem ser inflacionadas por alavancagem. As pessoas de todas as áreas, em geral, têm noção do feedback do mundo ao atribuir resultados positivos a si mesmos e resultados ruins a fatores específicos, mas o ramo de finanças cria esses erros de atribuição em maior escala e com mais frequência do que qualquer outro ramo. Como resultado, não é de se surpreender que o ramo de finanças possua mais do que a sua justa parcela de personagens desagradáveis com um senso inflado de autoimportância e invulnerabilidade. E o forte aumento da remuneração baseada nos mercados — incluindo altas comissões para agentes financeiros e políticas de remuneração em ações para CEOs — aumentou a profundidade e a dimensão desses erros.

A ironia dessa situação é que a disciplina de finanças avisa contra esse padrão. Finanças nos ensina que é quase impossível separar os efeitos da sorte e da habilidade nos mercados financeiros. Também nos ensina humildade: o risco é onipresente, difícil de medir e de fixar preço, de modo que, como resultado, é difícil identificar a habilidade verdadeira. Somente a longo prazo, se for o caso, poderemos entender o que é a habilidade — e quem é realmente habilidoso.

Isso faz parte de um padrão mais amplo: a prática de finanças se separou dos conceitos subjacentes. Para a profissão recuperar sua reputação, essa prática precisa ser ancorada novamente nos conceitos subjacentes — e os conceitos principais em finanças são realmente bastante nobres. Seguros, alavancagem, gerenciamento de riscos, geração de valor, informações assimétricas e opções refletem a mesma questão filosófica com a qual muitos de nós estamos preocupados: o que é mais valioso para nós, como criá-lo e medi-lo.

Como resultado, a humanidade e a nobreza estão incorporadas aos conceitos fundamentais em finanças. Faça um seguro. Para a maioria de nós, o seguro é algo banal e desinteressante. Mas o fundador da tradição filosófica do pragmatismo, Charles Sanders Peirce, ficou preocupado com as companhias de seguros. Ele saiu dando palestras dizendo: “Somos todos companhias de seguros”. Ele entendeu que o problema pelo qual as pessoas e as companhias de seguros passam é fundamentalmente o mesmo: vivemos em um mundo cheio de aleatoriedade e caos, e devemos decidir sobre os riscos que assumimos. E a solução que encontrou para as seguradoras e as pessoas era a mesma: sair e coletar dados, experimentar o mundo, provar o que tem para oferecer e entender os padrões do caos para que se possa navegar pela aparente aleatoriedade da vida. O seguro não é apenas fascinante, mas profundo, pensando dessa forma.

Será que o próximo escândalo comercial será evitado com a simples prescrição de que os profissionais devem se manter firmes nos conceitos de finanças? Talvez não. Mas, a longo prazo, somente ao ancorar a prática da profissão em conceitos nobres podemos esperar que as pessoas do ramo se comportem de forma inspiradora.

Então, profissionais que ingressam em finanças, levem isso a sério. Vocês vão combater problemas bem interessantes com pessoas muito brilhantes em sua carreira. Confiamos em vocês com perguntas importantes: como economizamos, como gerenciamos o risco e como nós, como economia, alocamos o capital. Mantenham-se de cabeça erguida — mas reconheçam que a recuperação de uma atividade decadente é sua responsabilidade.
______________________________________________________________
Mihir A. Desai é o autor de The Wisdom of Finance: Discovering Humanity in the World of Risk and Return e professor da Harvard Business School e Harvard Law School.
______________________________________________________________
Tradução: Leonara Manhães

Compartilhe nas redes sociais!