Gênero

Todos os funcionários devem ter acesso à licença-parental remunerada

Alison Beard
6 de dezembro de 2019

Alexis Ohanian, cofundador da Reddit, fala sobre a luta pela licença-paternidade — e como foi tirar a sua.

Alexis Ohanian é cofundador da Reddit e agora lidera a empresa de investimentos Initialized Capital como cofundador e sócio-gestor. Mas ele diz que suas funções mais importantes na vida são como marido da campeã de tênis Serena Williams e pai de Olympia, com dois anos. Depois de tirar sua própria licença-paternidade e aprender a ser um pai que trabalha, tornou-se defensor da licença-parental remunerada obrigatória nos Estados Unidos. Esta é uma versão editada da nossa conversa em meados de agosto.

Por que você decidiu fazer da licença-parental a sua causa?
Sinceramente, não pensava muito nisso até minha filha nascer. Na Reddit, oferecíamos 16 semanas de licença e, ao usá-la, percebi em primeira mão quão importante ela é. Minha esposa e eu temos muitas vantagens — ajuda em casa, famílias que nos apoiam e outros recursos. Mas com as complicações e risco de vida que ela enfrentou após o parto, não podia imaginar ficar longe de minha família ou ter de escolher um dos dois. Isso ficou muito claro para mim. Vi que isso não deveria ser um privilégio concedido apenas a pessoas com a sorte de trabalhar em empresas com boas políticas. Deveria ser obrigatório.

Por que você já havia decidido oferecer uma licença relativamente generosa na Reddit?
Em 2014, quando voltei para a empresa depois de me afastar por vários anos de um cargo executivo em tempo integral, não tínhamos RH. Katelin Holloway estava disposta a assumir a liderança de pessoal e cultura e trouxe consigo um plano que incluía férias remuneradas, e isso me pareceu razoável. Dentro do setor de tecnologia, 16 semanas de licença é o mínimo. Mas isso reflete uma questão importante. As empresas de tecnologia têm esses benefícios porque estamos em uma guerra por talentos. A razão pela qual as empresas de tecnologia conseguem aumentar a receita em centenas de milhões de dólares e crescer bilhões de dólares nas avaliações é porque atraem e retêm pessoas de alto desempenho. Tenho orgulho do
fato de que a tecnologia esteja na linha de frente do apoio à licença remunerada. Ela deve servir como modelo para outros setores que desejam grandes talentos, especialmente com habilidade em tecnologia. Para atraí-los, você precisará oferecer algo semelhante ou melhor.

Como você demonstra o retorno do investimento?
Bem, sabemos que quando a Google expandiu suas férias remuneradas [de 12 para 18 semanas], a taxa de desligamento caiu 50%. Claro, isso é correlação, não causalidade, mas é uma mudança concreta. E se você considerar as despesas de recrutamento e treinamento de novos funcionários, isso equivaleria a uma fantástica economia de custos. Em uma pesquisa da Paid Leave for the United States, uma organização de defesa da causa, 77% dos entrevistados disseram que a duração da licença remunerada oferecida pelos empregadores afetaria sua escolha por uma empresa em detrimento de outra. Repito, é algo que o ajudará a conquistar talentos. Mas também devemos perceber que isso cria valor que nem sempre será refletido nos números de curto prazo.

O que você diria a líderes de startups, pequenas empresas ou empresas fora da área de tecnologia que argumentam não poder se dar o luxo de pagar as pessoas para ficar longe do trabalho por vários meses?
Eu mencionaria uma empresa como a rede de saladas Sweetgreen. Certamente, o ramo de saladas não é o de software, mas fizeram a conta fechar com cinco meses de licença-parental totalmente paga — ainda mais do que a nossa na Initialized Capital. E acho que é porque eles e outros empregadores, como eu, percebem que obterão mais lealdade e produtividade dos funcionários como resultado. Os seres humanos, sejam engenheiros de software ou pessoas que preparam alimento, só dão o melhor de si se estiverem tranquilos de que sua casa e sua família estão seguras. Se estão distraídos, estressados ​​ou frustrados, haverá custos nisso. Eu trabalho com muitos empreendedores e não conheço nenhum que considere a política de licença remunerada uma má ideia.

Além de oferecer vários meses de folga após o nascimento ou a adoção de um filho, o que contribui para uma boa política corporativa de licença remunerada?
Calendário flexível. Eu não sabia que a Reddit tinha isso até Katelin Holloway me explicar que você pode alocar essas 16 semanas de acordo com a necessidade de sua família. Então, como pai no primeiro mês, é ótimo estar em casa para dar todo o apoio. Mas talvez você planeje estar no escritório de segunda a quarta-feira e em casa quinta e sexta-feira para esticar esse período e dar a você e sua família tempo para se adaptar.

Outra coisa: tratamento igual para pais e mães. Pode ser um período mais longo para as mulheres se houver complicações de saúde relacionadas à gravidez ou ao parto. Mas decidimos chamá-la de “licença familiar”, porque eu e muitos pais acreditamos que temos a mesma responsabilidade na criação dos filhos. E isso define uma situação de mais igualdade no local de trabalho, porque há menos preocupação — o que, infelizmente, acontece — de que as contratadas fiquem grávidas. Se assumirmos que qualquer homem ou mulher que contratamos possa, um dia, ter um filho e tirar uma folga por causa disso, estamos em um lugar melhor.

Quero deixar claro, porém, que nada disso significa prescrever funções e responsabilidades específicas para qualquer pai ou mãe. Tem mais a ver com a liberdade de decidir. A maior crítica que vejo são os tweets de pessoas que dizem: “Não preciso de mais de uma semana depois de ter um filho”. Tudo bem. A escolha é sua. Mas a oportunidade deve ser estendida a todos os pais que vão ter filho.

Em setores ou empresas de ritmo acelerado, de alta pressão e altamente competitivos, como convencer as pessoas — homens e mulheres — de que não há problema em usar todo o tempo disponível a elas?
Para mim, um grande incentivo não é apenas incentivar mais líderes do setor privado a adotar essas políticas, mas também encorajar colegas que são pais, especialmente aqueles em cargos executivos, a tirar proveito delas. Isso dá cobertura às pessoas no resto da empresa, para que possam tirar uma folga sem pensar que isso prejudicará suas carreiras. Pelo contrário, assim elas sabem que essa será a melhor decisão. Acho que as mídias sociais ajudaram a normalizar isso. Homens que se orgulham de ser pais existem desde sempre, mas, historicamente, é algo sobre o qual nem sempre falamos. Isso está mudando. Esta geração é mais capaz de ser franca e aberta. Um bom exemplo é o subreddit “Dad Reflexes” (reflexo de pai), que centenas de milhares de pessoas visitam todos os dias, compartilhando e assistindo a vídeos de coisas como uma criança quase caindo de um sofá e o pai a pegando sem que seu parceiro sequer perceba o que aconteceu. Agora temos maneiras de compartilhar essas pequenas vinhetas de pais protegendo, brincando, alimentando e passando tempo com nossos filhos.

Então, espero que a surpresa comece a desaparecer. Quero ver homens assumindo seriamente suas responsabilidades como pais nas minhas empresas. Quero que todos tenhamos a confiança de dizer “vou sair cedo hoje para buscar meu filho”. Ninguém poder olhar a minha história e me acusar de não ser um empreendedor exigente e orientado para a carreira. Mas eu realmente acredito que essas coisas não são mutuamente exclusivas. E acho que essa mudança é boa para a sociedade.

Por que você também defende mudanças nas políticas públicas?
A América é o último país desenvolvido a obter isso. O fato de que um quarto das mulheres neste país volta ao trabalho duas semanas após o parto, porque não existe uma política pública que garanta que elas possam passar tempo com seu recém-nascido é indesculpável. Isso inclui mulheres que fizeram cesariana e que ainda têm feridas semiabertas. Como nós — enquanto nação que acredita na importância dos valores da família — aceitamos isso? Mas fui encorajado pelas organizações que lutam por isso, pelos dados relacionados com isso e pelo fato de haver tantas vozes no setor privado — empresários, CEOs —, assim como parlamentares de esquerda e direita que também querem que isso aconteça.

Com quais legisladores você está fazendo parceria e que legislação específica você gostaria que fosse aprovada?
Em outubro, minha equipe e eu vamos a DC, e ainda estamos fechando com as pessoas que vamos encontrar, mas são senadores e deputados, republicanos e democratas, como os senadores Joni Ernst e Kirsten Gillibrand, que já tentaram apresentar várias versões dessa legislação — por exemplo, o CRADLE act (ato BERÇO) e o FAMILY act (ato FAMÍLIA). Parece que o maior problema agora será o financiamento — se será realocado de outras políticas, como será subsidiado. Outros países abordaram isso de diferentes maneiras. Também estamos verificando se conseguimos um projeto de lei enxuto, sem nada extra embutido. Gostaria de uma lei federal para licença-parental remunerada de seis meses, pois é
o que cada vez mais pesquisas dizem que é o ideal. 


Alison Beard é editora sênior da Harvard Business Review..

Compartilhe nas redes sociais!

replica rolex