Tecnologia

O que a tecnologia Blockchain não faz

Catherine Tucker e Christian Catalini
4 de outubro de 2018

A tecnologia blockchain tem o potencial para fazer coisas incríveis. Ela pode fornecer um registro de monitoramento digital e imutável de transações; ser usada para validar a baixo custo a integridade dos dados; e ajudar empresas e pessoas físicas a concordarem, em nível mundial, com a real situação do mercado sem depender de um intermediário caro.

Isso é alcançado por meio de uma inteligente combinação de incentivos econômicos e criptografia, e garante que, a qualquer momento, registros digitais revelem o verdadeiro “consenso” entre as principais partes envolvidas. Quando se trata de compartilhar os registros e meios financeiros digitais, o blockchain pode substituir a necessidade de confiança entre as partes, ou a necessidade de uma autoridade central para validar e assegurar os registros de transações.

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Contudo, ao avaliar os modelos de negócio do blockchain, é interessante entender o que a tecnologia não pode fazer.

Pense no problema de rastrear bebês dentro de uma ala hospitalar ou além dela. Isso é um problema seríssimo. As consequências de um bebê ser confundido com outro podem ser muito graves. Portanto, uma grande finalidade da tecnologia blockchain é a possibilidade de armazenar os registros com a localização atual de um bebê de forma que esses dados sejam imutáveis e validados.

Porém, há um grande problema ao utilizar o blockchain para resolver esse tipo de questão. Os registros digitais podem ser imutáveis e validados, mas como alguém sabe qual registro digital está ligado a qual bebê? Para vincular uma entrada no blockchain a um bebê de verdade, precisamos fornecer-lhe um identificador físico com uma etiqueta física ou, em um mundo mais futurista, um pequeno chip ou registro de genoma digital que ligue o bebê ao seu registro digital. E é nesse ponto que o blockchain falha. Ela não consegue ajudar nesse processo, e não consegue validar se o passo mais importante da verificação está acontecendo corretamente.

Na interface entre o mundo off-line e sua representação digital, a utilidade da tecnologia ainda depende fortemente de intermediários confiáveis para que a “última milha” seja de fato vencida entre um registo digital e uma pessoa física, empresa, dispositivo ou evento. Em nosso exemplo, a tecnologia teria que confiar nos seres humanos para fazer a correta e inequívoca correspondência entre o bebê e o registro digital. Se eles errarem ou manipularem os dados inseridos em um sistema em que se acredita que os registros são íntegros a posteriori, isso pode ter consequências muito graves.

Por um lado, se a relação entre uma pessoa e seu prontuário médico é estabelecida com sucesso e o problema da última milha é resolvido, então o blockchain pode não apenas ser usado para assegurar a integridade dos dados, mas também para dar controle às pessoas sobre como suas informações médicas são utilizadas (para uma pesquisa acadêmica, um aplicativo de atividades físicas ou o desenvolvimento de medicamentos, por exemplo).

Há outros exemplos semelhantes. Dentro do marketing, uma questão que muitas vezes surge é a de um teste de mercado pago por um anunciante que pode não combinar com o público alvo a que se destina. O anunciante pode pensar que está pagando para exibir um anúncio de uma Lamborghini para um homem de trinta anos, mas, na verdade, o anúncio pode ser exibido para um professor universitário que dirige uma minivan e que não pretende comprar outro carro para os filhos destruírem, mas que gosta de sonhar com um carro novo. Ou, até pior, o anúncio pode ser visto por um robô. A tecnologia blockchain pode rastrear qual identificador digital está associado aos espectadores de um anúncio, mas não consegue verificar se é de fato uma pessoa ou se é genuína a intenção de compra. Conferir quem realmente está por trás do identificador digital requer uma validação off-line. Conferir a seriedade de aparentes intenções de compra talvez esteja além de qualquer tecnologia que possuímos hoje.

Mas, pelo lado positivo, a tecnologia blockchain pode ser usada para mudar o relacionamento entre criadores de conteúdo digital, anunciantes e consumidores. Anunciantes podem recompensar os usuários por sua atenção, dando-lhes acesso a conteúdo online exclusivo pelo qual teriam que pagar. Criadores de conteúdo podem explorar novos modelos de monetização usando recursos do blockchain para realizar transações melhores a baixo custo. Embora os consumidores odeiem micropagamentos por causa da dor de cabeça que eles causam — micropagamentos são como um detestável “taxímetro” na cabeça do consumidor — isso poderia reformular como os paywalls e as assinaturas funcionam nos bastidores de diferentes domínios digitais. Além disso, se não estamos preocupados com a validação humana no teste de mercado, mas, em vez disso, queremos garantir o domínio dos registros digitais, como os dados de navegação, então o blockchain pode funcionar perfeitamente. Uma das questões que enfrentamos constantemente para definir os aspectos econômicos da vida privada é o problema de direitos de propriedade sobre os dados. E o blockchain está perfeitamente posicionada para defini-los.

À medida que o ecossistema em torno da tecnologia blockchain se desenvolve, surgem novos tipos de intermediários que transformam o problema da última milha, de manter os registros digitais em sincronia com seus equivalentes off-line, em oportunidades reais de negócio. Enquanto a tecnologia está em fase inicial, à medida que esses complementos principais são aperfeiçoados, o blockchain tem o potencial de reformular as bases do domínio dos dados digitais e das plataformas digitais que usamos diariamente.


Catherine Tucker é professora emérita da Management Science na MIT Sloan School of Management.


Christian Catalini é o professor Fred Kayne (1960) de Desenvolvimento de Carreira de Empreendedorismo e Professor Assistente de Inovação Tecnológica, Empreendedorismo e Gestão Estratégica na MIT Sloan School of Management. Christian é um dos principais pesquisadores do MIT Digital Currencies Research Study, que, em 2014, deu acesso ao Bitcoin a todos os estudantes de graduação da MIT.


Tradução: Ana Luiza Treichel Vianna

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