Inteligência emocional

Quatro caminhos para controlar suas emoções em momentos de tensão

Joseph Grenny
30 de janeiro de 2017

Há 23 anos um de meus funcionários – vou chamá-lo de Dale – pediu para falar comigo em particular. Dale era sério, inteligente e de opiniões bem formadas. Seu trabalho era meticuloso. Ele raramente se socializava com os colegas, mas era impecável em seus compromissos com os outros. E era muito competente em seu trabalho.

No momento em que fechei a porta da sala para nossa reunião, ele foi direto ao ponto: “Joseph, eu gostaria de lhe dar um feedback”.

Eu esperava uma agenda diferente. Apesar da minha experiência com a cultura da franqueza na empresa, de certa forma caí numa armadilha. “Por favor, faça isso”, eu disse cautelosamente.

“Joseph, você é arrogante, e é difícil trabalhar com você. Seu primeiro impulso é sempre descarregar críticas a mim e aos outros. E para mim é praticamente impossível executar meu trabalho como editor. ” Com isso ele encerrou o assunto e me olhou tranquilamente.

Eu comprimi o equivalente de uma hora em emoções e pensamentos em meros segundos. Senti ondas de vergonha, ressentimento e raiva. Em minha mente, surgiu freneticamente uma lista de defeitos de Dale – como se eu me preparasse para enfrentar um promotor agressivo. Por um breve instante, tive vontade de despedi-lo. Senti opressão no peito. Minha respiração se tornou ofegante. Apesar de tudo, fiz o melhor que pude para manter a serenidade, que claramente não sentia. Minha lógica tácita foi que confessar que fiquei ofendido seria o mesmo que enviar uma mensagem de fraqueza.

A esmagadora maioria das decisões erradas que tomei na vida foi impulsiva. Não foram erros de falta de lógica ou deliberação ineficiente. Foram erros evitáveis em situações em que faltou vontade, ou fui incapaz de controlar fortes emoções negativas. Da mesma forma, o maior avanço significativo de minha vida como líder não foi de natureza profissional, mas emocional.

Os hábitos limitadores da carreira com que ingressei em minha profissão foram diretamente resultantes de minha incapacidade de lidar com emoções como ansiedade, constrangimento e medo. Eu procrastinava tarefas que provocavam ansiedade e falta de confiança. Reagia defensivamente quando constrangido por críticas. E defendia veementemente meus pontos de vista quando eram contrários aos de colegas poderosos.

A capacidade de reconhecer, confessar e moldar as próprias emoções é a principal habilidade para formar laços mais profundos com pessoas queridas, ampliar o âmbito de influências no local de trabalho e aumentar a capacidade de transformar ideias em resultados. Meus sucessos e fracassos despertaram a predominância dessa habilidade mais que qualquer outra.

É possível fortalecer esse músculo central de sua anatomia emocional? Se seus impulsos predominam sobre suas intenções em áreas preciosas da vida, é possível contrariar a norma?

Quatro práticas fizeram uma enorme diferença para mim em momentos importantes de minha carreira como essa, quando me defrontei com Dale.

Reconheça a emoção.
A responsabilidade emocional é uma precondição da influência emocional. Você não pode mudar uma emoção que não identifica. A primeira coisa que faço quando sou atingido por um sentimento ou impulso incontrolável é aceitar a responsabilidade por esse sentimento. Meu roteiro mental é: “Isso tem a ver comigo, não com aquela pessoa ou com eles”. As emoções vêm pré-empacotadas com uma tácita atribuição externa. Como o fato externo precede sempre a emoção, é fácil assumir que o fato a provocou. Mas no momento em que acredito que foi provocado por forças externas, estou fadado a ser vítima de minhas emoções.

A raiva que senti depois das críticas de Dale, por exemplo, não tinha nada a ver com as críticas dele. Suas acusações poderiam ter correspondido a sentimentos de curiosidade, surpresa ou compaixão, tanto quanto de ressentimento e raiva. O fato de eu ter sentido os últimos e não os primeiros era problema meu, não dele.

Dê um título à história.
A seguir, você precisa refletir sobre quanto você é conivente com o fato inicial para criar a emoção atual. As emoções resultam tanto do que acontece como da história que você conta a si mesmo sobre o que aconteceu. Uma das práticas mais poderosas que me ajuda a me desconectar e assumir o controle de minhas emoções é dar um nome às histórias que conto. É a história de uma vítima – que enfatiza minhas virtudes e me absolve das responsabilidades do que está acontecendo? É a história de um vilão – que exagera as falhas dos outros e atribui o que está acontecendo a seus motivos maldosos? É uma história de um incapaz – que me convence de que qualquer atitude salutar (como ouvir humildemente, falar honestamente) é ridícula? Dar um título às minhas histórias me ajuda a vê-las pelo que são – uma única, de uma infinidade de maneiras, que podem dar sentido ao que está acontecendo. Assim que me sentei com Dale, percebi que tinha mergulhado numa história de vítima e vilão. Eu só pensava em como ele estava errado, mas não em quanto ele estava certo – e atribuía suas críticas às suas falhas pessoais, e não às suas legítimas frustrações.

Questione a história.
Uma vez identificada a história, você pode assumir o controle fazendo a si mesmo perguntas que o arranquem de suas histórias de vítima, vilão e incapaz. Por exemplo, eu me transformei de vítima em protagonista ao perguntar “o que estou fingindo não saber sobre meu papel nesta situação?”. Transformei Dale de vilão em ser humano ao perguntar “por que uma pessoa tolerante, racional e decente diria isso?”. E me transformei de incapaz em habilidoso ao perguntar “qual o caminho certo a seguir para conseguir o que realmente quero?”.

Enquanto ponderava essas questões da minha interação com Dale, percebi que ele estava me dizendo isso, em grande parte, por causa da minha impaciência e… glup… arrogância. Quando perguntei “qual a coisa certa a fazer?”, senti um alívio imediato do ressentimento e da raiva. Senti aflorar uma humildade tranquilizadora. E comecei a questionar em vez de apresentar minha defesa.

Descubra a origem de sua história.
Ao longo dos anos, eu me perguntei por que as histórias que conto a mim mesmo são tão previsíveis. Em minha pesquisa com centenas de líderes, descobri que a maioria das pessoas tem histórias comuns que elas também contam em circunstâncias previsíveis. Experiências da infância percebidas na época como ameaças à nossa segurança e reputação tornaram-se codificadas em nossas poderosas lembranças.

Por exemplo, talvez você tenha sido vítima de bullying por um colega de classe do ensino fundamental que o persuadiu a ir a um lugar pouco vigiado do pátio da escola e isso resultou numa experiência traumática. Seu pai ou sua mãe pode ter lhe demonstrado menos aprovação que a um irmão. Com base nessas experiências a parte mais primitiva de nosso cérebro codifica certas condições como ameaças – física ou psíquica. Daí em diante você não consegue saber como reagirá quando essas condições estiverem presentes. Quando um colega de trabalho maior que você levanta a voz, seu cérebro pode estabelecer uma conexão com a experiência de bullying. Ou quando Dale o acusa de arrogância, as críticas de seus pais disparam fagulhas. Ao longo dos anos experimentei uma sensação de paz à medida que me conscientizava da origem das histórias que conto – e aprendi a desafiar a percepção de que minha segurança e reputação estão em risco nesses momentos. Quando senti aquele aperto no peito diante de Dale, simplesmente pensar “isso não pode me ferir” e “a humildade é uma força não uma fraqueza” teve efeito tranquilizador imediato. Em momentos de provocação emocional recitar um roteiro específico enfraquece a reação induzida pelo trauma, a qual é irrelevante nessa circunstância.

Dale e eu trabalhamos juntos produtivamente durante anos depois desse episódio. Eu fracassei em vários momentos, mas também consegui me controlar em outros, e trabalhando deliberadamente nesses exercícios simples, meus sucessos são muito mais frequentes.
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Joseph Grenny foi incluído pela quarta vez na lista do New York Time dos autores mais vendidos. É conferencista e destacado cientista social na área de desempenho de negócios. Seus livros foram traduzidos em mais de 28 idiomas, foram publicados em 36 países e geraram resultados para mais de 300 empresas da Fortune 500. Ele é cofundador do VitalSmarts e inovador em treinamento corporativo e desenvolvimento de lideranças.

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