Inovação

Quando indivíduos inovam mais que as equipes

Tian Heong, Chan Jürgen Mihm e Manuel Sosa
11 de março de 2020

É um fato bastante aceito que há maior probabilidade de uma invenção inovadora ser criada dentro de uma equipe. Pesquisas demonstraram que equipes geralmente superam indivíduos nas tentativas de criação de inovações impactantes, como patentes tecnológicas ou publicações científicas altamente citadas.

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No entanto, nossa pesquisa descobriu um fator que desempenha um papel fundamental para determinar se os resultados de equipes serão superiores aos dos inventores individuais: a estrutura da invenção – isto é, até que ponto ela pode ser dividida em componentes separados ou “módulos”.

Analisamos 1.603.970 patentes de utilidade (concedidas pela inovação em termos de função, como produto, processo ou maquinário) e 198.265 patentes de design (inovação em termos de forma, como configuração visual distinta ou ornamentação de um produto), registradas entre 1985 e 2009 no Escritório de Marcas e Patentes dos Estados Unidos.

Registramos o número de invenções “inovadoras”, definidas como aquelas cujo número de citações está entre os 5% principais de sua classe de produtos. (O sucesso de uma invenção costuma ser medido pela frequência com que é citado em patentes por inventores subsequentes.) Em seguida, testamos se um determinado inventor tinha maior probabilidade de obter uma patente de uma invenção inovadora ao desenvolvê-la dentro de uma equipe de inventores ou como um inventor individual.

Semelhante a pesquisas anteriores, descobrimos que uma patente de utilidade tem maior probabilidade de ser inovadora quando criada por uma equipe de inventores. Entretanto, também observamos que essa vantagem da equipe desaparece completamente nas patentes de design. Um inventor individual tem a mesma probabilidade que uma equipe de produzir patentes de design inovadoras.

Por que as equipes perdem essa vantagem ao criar invenções de design?

Considere designs icônicos, como a garrafa curvilínea da Coca-Cola ou o iPhone, e como nossa percepção desses produtos é fundamentalmente holística, ou seja, percebemos a totalidade de seu design, e não seus componentes individuais, como a abertura da garrafa ou a curvatura das bordas do iPhone. Todos os elementos andam juntos – eles são altamente interdependentes –, portanto é impossível isolar imediatamente a contribuição exata de cada uma das peças para todo o design.

Acreditamos que essa interdependência entre as partes de uma invenção exerce grande influência na dinâmica desse processo de criação. É provável que uma equipe que trabalha com o design tenha dificuldades se tentar a abordagem de dividir o processo em partes menores para encontrar uma solução holística.

Imagine uma equipe tentando criar uma nova pintura. É possível, mas o esforço necessário para coordenar e comunicar ideias entre os membros da equipe consome muito tempo e recursos. Por outro lado, o inventor individual pode avaliar mentalmente, criar modelos e descartar possibilidades com facilidade porque não enfrenta as exigências de comunicação e coordenação de uma equipe. Essas atividades extras superariam os benefícios de trabalhar em colaboração quando a invenção em questão é holística, como é o caso da maioria das patentes de design.

Nossa teoria sugere que a eficácia de equipes e inventores individuais é fortemente afetada por um aspecto fundamental da invenção: seu nível de modularidade, isto é, a facilidade com que ela pode ser fragmentada em seus diferentes componentes. As invenções tecnológicas variam em termos de modularidade. Algumas invenções são muito modulares, e por isso podem ser particionadas em componentes bem definidos. Por exemplo, os PCs da Dell são configurados para aceitar diversas possibilidades de componentes independentes e intercambiáveis, que podem ser facilmente conectados sem afetar a funcionalidade geral. Se uma equipe trabalha em uma invenção tecnológica modular, os membros da equipe podem ser incentivados a operar de forma autônoma, permitindo que tirem proveito da diversidade de conhecimento e recursos compartilhados com custos mínimos de coordenação.

Outras invenções tecnológicas, porém, englobam muitos elementos interdependentes que são difíceis de separar em partes individuais. O confiável motor de combustão interna a dois tempos, inventado por Karl Benz, é um exemplo desse tipo de invenção integral. Cada componente foi projetado especificamente para se encaixar em uma estrutura estreitamente integrada e complexa. Esses recursos não podiam ser facilmente adaptados ou trocados, pois os componentes dependiam um do outro decisivamente para produzir o efeito desejado.

De forma similar às invenções de design, supomos que é provável que o inventor individual tenha um progresso mais célere nas invenções integrais, já que uma equipe pode perder o ritmo por conta dos desafios de comunicação e coordenação. Por outro lado, invenções modulares inovadoras podem ser realizadas com mais frequência por meio do trabalho em equipe. Ao examinar todas as patentes de utilidade em nossa amostra, observamos que a vantagem na probabilidade de uma equipe de inventores criar uma invenção inovadora diminuiria significativamente se a invenção fosse menos modular. Além disso, a vantagem das equipes desapareceria completamente quando a patente de utilidade fosse altamente integral (ou não modular).

Isso significa que a colaboração não possui valor inerente para as inovações holísticas? Muito pelo contrário: concluímos que a colaboração melhora o desenvolvimento dos inventores. A ampla colaboração permite que os inventores assimilem as habilidades de seus colegas e desenvolvam recursos em rede que funcionam como canais com informações valiosas. Colaboradores anteriores podem oferecer feedback sobre ideias e identificar outros recursos importantes, fornecendo ao inventor individual alguns benefícios que são remetidos à equipe, sem impor custos de coordenação gerados pelo grupo.

Assim, descobrimos que inventores individuais que nunca colaboram tendem a ter um desempenho inferior, enquanto aqueles que colaboraram com frequência no passado têm maior probabilidade de criar avanços ao lidar com invenções holísticas.

Portanto, para aumentar suas chances de criar uma invenção inovadora, alinhe a estrutura de colaboração com a invenção e seu nível de modularidade – e não deixe de considerar o histórico de colaboração dos inovadores. O trade-off do custo-benefício para as equipes pode mudar radicalmente, a depender do grau em que a invenção pode ser particionada em componentes independentes. Supor de forma automática que as equipes são a melhor maneira de trabalhar pode invalidar seus esforços de inovação. Inventores individuais, particularmente aqueles que construíram uma extensa rede colaborativa, precisam ser reconhecidos como um recurso eficaz para invenções de design e integrais.


Tian Heong Chan é professor assistente de sistemas de informação e gestão de operações na Goizueta Business School – Emory University.


Jürgen Mihm é professor de tecnologia e gestão de operações no INSEAD.


Manuel Sosa é professor de tecnologia e gestão de operações no INSEAD.

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