Tecnologia

Quando a IA fizer parte do nosso cotidiano

Theodora Lau
11 de julho de 2019

Com o aumento da nossa expectativa de vida e da velocidade do desenvolvimento da tecnologia, podemos imaginar um futuro em que as máquinas ampliarão nossas habilidades humanas e nos ajudarão a fazer melhores escolhas de vida – dos cuidados com a saúde à gestão do patrimônio. Em vez de trocar uma série de perguntas e respostas com um dispositivo instalado sobre um móvel, poderemos conversar naturalmente com o nosso assistente virtual, totalmente integrado ao nosso ambiente físico e que, através desse diálogo e de migalhas digitais, entenderá nossos objetivos de vida, aspirações, obrigações e limitações. De forma ininterrupta e automática, nosso assistente virtual nos ajudará a orçar e economizar para os diversos acontecimentos da vida, de forma que possamos passar mais tempo desfrutando os momentos dela.

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Embora possamos imaginar esse futuro, a tecnologia em si não deixa de apresentar desafios – ao menos por enquanto. A capacidade da inteligência artificial para entender as complexidades e nuances da conversação humana é um dos obstáculos. Existem hoje mais de 7.111 idiomas vivos conhecidos no mundo, segundo a Ethnologue. Soma-se a essas complexidades a diversidade com que as palavras são compartilhadas e utilizadas em diferentes culturas, incluindo a gramática e o nível de escolaridade e de estilo dos falantes. A tecnologia Google Duplex, que dá suporte ao Google Assistant e faz chamadas telefônicas com uma voz humana natural em vez de uma voz robótica, é uma tentativa inicial de enfrentar esses desafios da comunicação humana. Porém, esses são apenas os sussurros iniciais na longa jornada da IA de voz.

Além de fazer reservas e realizar diálogos simples, os assistentes virtuais terão que se tornar bem mais úteis e mais integrados ao tecido do nosso cotidiano; não terão apenas que antever do que precisamos antes de o pedirmos, mas também terão que entender o contexto de nossas conversas e reagir de acordo. Imagine um dia de nevasca, em que as aulas das crianças sejam canceladas. Sabendo que você agora deve ficar em casa com seus filhos, seu telefone o notificaria, perguntando se você quer que suas reuniões sejam reagendadas para o dia seguinte; seu console de entretenimento faria recomendações automáticas de filmes e e-books. O melhor de tudo: sua caixa de som inteligente recomendaria opções de pratos para o almoço enquanto você está lá fora retirando a neve do caminho. Ou imagine como sua volta para casa após uma viagem de negócios seria muito mais agradável se seu telefone pudesse providenciar automaticamente um motorista para esperá-lo no aeroporto com base em seu itinerário de viagem, sua localização e seus hábitos. As possibilidades são infinitas. Além disso, a interação por voz pode iniciar uma conversa com muito mais facilidade que dedos sobre uma tela de vidro.

Considere o exemplo dos bancos. Livres das restrições tradicionais da comunicação, podemos agora reimaginar a vida em um mundo onde o conceito de banco vai além de suas fronteiras tradicionais, ou simplesmente desaparece. Em lugar dos limites físicos que antes definiam as agências bancárias, diversas modalidades – de celulares e notebooks a caixas de som inteligentes e eletrodomésticos conectados – redefinirão o significado do dinheiro, tanto para os consumidores quanto para as instituições. Os consumidores hoje exigem uma experiência digital uniforme e ininterrupta, seja ao fazer compras online, baixar músicas ou transferir dinheiro; os consumidores hoje ditam o que querem e quando querem. Se as instituições financeiras quiserem alavancar a tecnologia de voz para fazer evoluir ainda mais a experiência móvel e aperfeiçoar as atividades financeiras cotidianas, devem aprender as lições do ecossistema digital e tomar cuidado para não simplesmente reproduzir as transações efetuadas nas agências e no celular com diálogos verbais roteirizados. Afinal, um assistente virtual é muito mais que uma voz robótica simplificada. O que poderá acontecer se a IA se tornar mais sensível ao contexto e mais empática? Imagine que, um dia, essa tecnologia ambiente nos conheça tão bem que possa atuar como nosso CFO pessoal e nos ajudar de forma contínua a alcançar os melhores resultados financeiros ao longo do tempo, com base em seu conhecimento de nossa configuração de domicílio, nossas escolhas de vida, nossa saúde e longevidade. Confiaremos nela o bastante para permitir que tome decisões por nós automaticamente? A resposta será, em grande parte, direcionada pela percepção e aceitação das máquinas por parte da sociedade. No Japão, onde a cultura é mais receptiva a humanoides, robôs são utilizados em hospitais e casas de repouso para evitar que os idosos se sintam sós; também são utilizados robôs educacionais para ajudar as crianças a melhorar o aprendizado de inglês. Alguns chegam ao extremo de encontrar amor e companhia junto a robôs, como no caso da personagem holográfica Hikari Azuma, produzida pela gigante japonesa Line, empresa dona do aplicativo de mensagens de texto de nome idêntico.

A IA nos proporciona a oportunidade de reimaginar não apenas a experiência de usuário, mas também o intercâmbio de valor. Ao cotejar uma profusão de fontes de dados, a IA é capaz de estabelecer uma verdadeira visão em 360 graus da vida cotidiana do consumidor com base em seus hábitos e comportamentos anteriores, muito além dos tradicionais silos de dados. A capacidade de aprender, processar e ampliar cria um relacionamento simbiótico entre humanos e máquinas. Embora retratem um mundo que, no momento, parece inalcançável, filmes como Ela e Humans nos permitem exercitar a criatividade para imaginar o que está por vir. Segundo a Amazon, esse futuro pode não ser tão implausível: na verdade, com auxílio da IA e do aprendizado de máquina, a empresa trabalha para chegar a um futuro em que os humanos possam dialogar de forma natural com caixas de som inteligentes e outros dispositivos conectados.

Temos o poder de projetar um mundo em que nossa voz coletiva ajude a criar versões melhores da humanidade, onde os objetivos sejam o ponto central de nossas inovações e direcionem nossas ações cotidianas. Talvez não seja nossa tecnologia o que nos limita, mas nossa capacidade de levar a imaginação além do campo atual de possibilidades, juntamente com nossa disposição para confiar em máquinas.


Theodora (Theo) Lau é fundadora da Unconventional Ventures e coapresentadora do podcast Rhetoriq, que traz matérias com propósito e discussões instigantes sobre longevidade, tecnologia e inovação. Como palestrante, escritora e consultora, busca estimular a inovação para aumentar o bem-estar financeiro do consumidor e melhorar os serviços bancários

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