Diversidade

Use seu privilégio comum para ajudar outros

Dolly Chugh
29 de outubro de 2018
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Muitas vezes esqueço que sou hétero. Não penso muito sobre isso. Quando me perguntam o que fiz no final de semana, ou quando coloco fotos de família em minha mesa no trabalho, não tenho razão para me questionar se o que eu digo deixará alguém desconfortável, ou levará a uma piada às minhas custas, ou levará um colega de trabalho a pensar que estou atraída por ele. Nossa cultura é programada para que heterossexuais como eu sejamos apenas nós mesmos sem nenhum esforço. Mas para alguns colegas gays, uma simples pergunta sobre o final de semana ou decisão sobre como decorar sua mesa de trabalho traz um estresse significativo – como agir, em quem confiar, o que compartilhar. Um estudo recente descobriu que 46% dos funcionários LGBTQ são reservados em relação à sua orientação sexual no local de trabalho, por razões que vão desde o medo de perder o emprego até serem estereotipados. Ao contrário de mim, uma pessoa que não é hétero não tem o privilégio de passar o dia inteiro sem se lembrar de sua orientação sexual.

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Esse privilégio de poder esquecer parte de quem você é não é exclusivo dos heterossexuais. Cada um de nós tem alguma parte da nossa identidade que requer pouca atenção para proteger-se do perigo, discriminação ou piadas sem graça. Nos Estados Unidos por exemplo, se você é branco, cristão, saudável, heterossexual, falante de língua inglesa, essas particularidades são fáceis de esquecer. É apenas um jeito comum de ser. O privilégio comum é comum porque se mistura bem aos padrões e às pessoas ao nosso redor e, portanto, é facilmente esquecido.

Quase toda pessoa nos Estados Unidos tem um ou outro tipo desse privilégio comum. Isso não é nada para se envergonhar ou negar, mesmo que muitas vezes pareça uma acusação. O privilégio comum é, na verdade, uma oportunidade. Pesquisas repetidamente confirmam que aqueles com privilégio comum têm o poder de falar em nome daqueles que não o detêm e têm uma influência particularmente eficaz quando o fazem. Para muitos de nós que procuram uma oportunidade para combater a intolerância e o preconceito no local de trabalho ou em nossa cultura mais ampla, podemos estar perdendo uma oportunidade que está na cara: usar a natureza comum de quem somos como uma fonte de poder extraordinário.

Por exemplo, os psicólogos Heather Rasinski e Alexander Czopp analisaram como as pessoas reconhecem o confronto sobre um comentário racialmente tendencioso. Eles descobriram que observadores brancos eram mais persuadidos por confrontadores brancos do que por confrontadores negros e taxavam os confrontadores negros de serem mais rudes. A cor branca dava à pessoa mais legitimidade do que a negra quando se falava sobre preconceito racial.

De maneira similar, os estudiosos David Hekman, Stefanie Johnson, Maw-Der Foo e Wei Yang estudaram o que acontece com as pessoas que tentam defender a diversidade no local de trabalho. As mulheres e os negros que defendiam a diversidade eram menos considerados pelos chefes do que as mulheres e os negros que não defendiam a diversidade. Executivos brancos não viram qualquer diferença nas suas classificações, quer eles defendessem ou não a diversidade. Eles encontraram o mesmo padrão nas decisões de contratação. Se um gerente branco contratasse alguém que se parecia com ele (ou alguém que fosse diferente dele), isso não tinha nenhum impacto sobre suas avaliações de desempenho. Mas, se um gerente negro contratasse alguém que se parecesse com ele, ele seria censurado por isso. Em outras palavras, o privilégio comum – a parte de nossas identidades sobre as quais nós menos pensamos – é também o lugar onde exercemos grande influência em favor de outros.

Essa influência existe até online, como o cientista político Kevin Munger mostrou por meio de uma experiência inteligente no Twitter focada nas pessoas que utilizavam a palavra “preto” de uma forma preconceituosa em relação a outras pessoas online. Usando bots com identidades brancas ou negras, ele twittou para os assediadores: “Ei, cara, apenas lembre-se que algumas pessoas realmente ficam ofendidas quando você as molesta com este tipo de linguagem”. Esse tweet leve de um bot branco que parecia ter 500 seguidores levou a uma redução no assédio racista online no período de sete dias após o tweet, enquanto que o mesmo tweet de um bot negro com o mesmo número de seguidores teve pouco efeito (curiosamente, apenas os usuários anônimos que utilizaram a palavra “preto” foram afetados; aqueles que aparentavam usar seus nomes e fotos reais não foram afetados pelo confronto). Se este é o efeito que um leve tweet de um estranho pode ter, temos que pensar sobre o impacto potencial de nosso próprio privilégio comum.

Para usar o seu privilégio comum de uma forma que ajude outros, aqui estão algumas coisas que você pode fazer:

• Primeiro, descubra as partes da sua identidade nas quais você menos pensa. Uma vez identificadas, você encontrou seu privilégio comum.

• Segundo, comece a aprender o que as pessoas que não têm esse privilégio comum encontram como desafios no trabalho, na escola e em suas comunidades. Você pode usar a Internet como um bom ponto de partida para relatos em primeira pessoa.

• Terceiro, procure oportunidades para falar e agir. Confrontar pessoas é apenas uma das muitas maneiras de você utilizar seu privilégio comum. Em vez disso, podemos fazer perguntas, levantar questões e adicionar perspectivas que não estão emergindo de forma orgânica nas discussões no trabalho. Podemos apresentar dados, convidar pessoas para discussões e criar um agito em torno de ideias. Podemos amplificar as opiniões de pessoas que não são ouvidas em reuniões e retomar conversas quando alguém é interrompido. Podemos dar crédito pelo trabalho das pessoas e divulgar seu talento. Podemos notar quando o preconceito está ocorrendo à nossa volta e apontá-lo quando isso acontece.

• Quarto, tenha em mente os momentos em que você possa inadvertidamente falar em nome do grupo que você apoia. Não é incomum nos concentrarmos em nós mesmos em vez de nas pessoas às quais estamos tentando nos aliar, mas isso custa caro. Quando acontece, afaste-se ou recue e aprenda com aqueles cujas vidas são diretamente afetadas pela questão, ao invés de nos apresentarmos como especialistas no assunto. Aceite a orientação deles enquanto usa seu próprio privilégio comum.

É a partir desse aspecto sobre o qual nós menos pensamos que podemos fazer o maior bem. Cada um de nós tem algum tipo de privilégio comum e isso é uma boa notícia, porque significa que quase todos nós temos mais influência do que podemos imaginar.


Dolly Chugh é professora associada na New York University Stern School of Business e autora do livro The Person You Mean To Be: How Good People Fight Bias (Harper Business, 2018).


Traduzido por Kelly Xavier

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