Economia e sociedade

Pesquisa: a quantificação do custo da incerteza gerada pelo Brexit

Walter Frick
15 de outubro de 2019

De acordo com um estudo recente, os CEOs do Reino Unido passam mais de uma hora e meia por semana planejando-se para o Brexit. Os CFOs passam mais de duas horas. Juntos, os executivos do Reino Unido nessas duas funções têm dedicado 200 horas por ano, em média, na preparação para o Brexit. Para os CEOs, isso representa cerca de uma semana e meia de planejamento para o Brexit em um ano. Mas ainda não está claro para que exatamente eles precisam se planejar.

Mais de três anos após o referendo, as empresas ainda não sabem qual será o resultado das negociações do Brexit – o que significa que estão se preparando para uma gama incrivelmente ampla de possibilidades, desde termos de comércio com a Europa, passando por regras de imigração, a regulamentações internas.

A teoria econômica prevê que, quando as empresas se deparam com um futuro muito incerto, elas têm um incentivo para adiar investimentos e contratações, e postergar outras decisões. E dois novos estudos sugerem que é exatamente isso que vem acontecendo no Reino Unido nos últimos três anos, resultando em danos substanciais à sua economia.

Para medir o impacto que o Brexit vem causando na economia do Reino Unido até agora, economistas de Stanford, do Banco da Inglaterra, da University of Nottingham e da London School of Economics perguntaram a mais de 7 mil executivos do Reino Unido como o Brexit afetou suas empresas. A pesquisa incluiu perguntas sobre quanto tempo os executivos estavam gastando na preparação para o Brexit, gerando as estimativas acima. Os pesquisadores também perguntaram aos executivos o grau de incerteza que a escolha pelo Brexit gerou na área de atuação de suas empresas. Registraram a porcentagem de entrevistados que classificaram o Brexit como uma de suas três principais fontes de incerteza nos negócios, e esse total foi utilizado para criar um “índice de incerteza do Brexit”. Em uma análise anterior, os pesquisadores observaram que, nos últimos três anos, a incerteza gerada pelo Brexit apenas aumentou, e não diminuiu.

O documento de trabalho mais recente, publicado em agosto, vincula essas respostas da pesquisa a dados sobre o desempenho das empresas. Os executivos dos escalões mais altos classificaram o Brexit como uma fonte de incerteza, com o menor índice de crescimento de suas empresas. Ao comparar o crescimento da empresa antes e depois do referendo, os pesquisadores puderam estimar os efeitos do Brexit sobre as empresas, que são consideráveis, e usá-los para estimar o impacto total que a escolha pelo Brexit teve na economia do Reino Unido.

“Estima-se que a expectativa pelo Brexit reduziu gradualmente o investimento em cerca de 11% nos três anos após a votação de junho de 2016”, escrevem os pesquisadores. Eles também estimam que a produtividade no Reino Unido diminuiu entre 2% e 5%. (Eles calculam que o Brexit também teve um efeito negativo no emprego, mas esse efeito não foi estatisticamente significativo).

Esses números correspondem às manchetes recentes. No final de 2018, o jornal The Guardian noticiou que o investimento empresarial no Reino Unido estava no ponto mais baixo desde a Grande Recessão e a economia encolheu no segundo trimestre de 2019, resultado que o Financial Times atribuiu parcialmente ao Brexit e a seu efeito nos investimentos.

Seria a incerteza política realmente a responsável por tudo isso? Ou será que deixar a União Europeia será tão ruim para o Reino Unido que as empresas estão recuando em antecipação a isso? É difícil distinguir entre essas duas ideias, tanto na teoria quanto na prática. Mas uma tentativa interessante vem de um estudo que analisa as transcrições das divulgações de receitas, observando que a incerteza teve um papel maior.

Em uma pesquisa, o economista Tarek Hassan e seus colegas da Boston University analisaram transcrições de 85 mil divulgações de receitas de empresas de capital aberto entre 2015 e 2019, para observar como falavam sobre o Brexit. As menções ao Brexit nessas divulgações foram associadas à queda nas vendas, nos investimentos, no emprego e na lucratividade durante os anos analisados. No entanto, esse efeito negativo foi particularmente forte quando as menções ao Brexit foram acompanhadas por palavras sinônimas de risco e incerteza, sugerindo que o dano tenha sido causado não apenas pela perspectiva de queda no comércio, mas também pela própria incerteza.

Tomados em conjunto, esses estudos mostram como a incerteza política pode prejudicar significativamente empresas e economias, gerando implicações para além do território europeu. A incerteza política vem aumentando no mundo todo, de acordo com o índice de Incerteza das Políticas Econômicas, que a acompanha, analisando notícias da imprensa. Esse aumento é impulsionado por vários fatores, principalmente a atual disputa comercial entre EUA e China, que está agitando as relações comerciais em todo o mundo. Nesse sentido, o Brexit é “o canário na mina de carvão dos movimentos anticomércio”, argumenta o economista Nicholas Bloom, da Stanford University, e coautor do primeiro estudo.

É uma lição importante tanto para as empresas, quanto para os políticos. Embora o recuo frente ao comércio global possa causar danos econômicos significativos, incluindo menor produtividade e menores taxas de imigração, a maneira como ele é realizado também é importante. Se os movimentos anticomércio forem conduzidos por um processo caótico e imprevisível, os efeitos serão ainda piores.

Walter Frick é editor adjunto do site HBR.org.

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