Carreira

Os maiores obstáculos que os recém-formados enfrentam ao ingressar no mercado de trabalho

Andy Molinsky e Sheila Pisman
2 de maio de 2019

“Exausto.” “Perdido.” “Ansioso.” “Tudo é uma luta.”

Essas são apenas algumas das descrições fornecidas por 54 recém-formados que entrevistamos recentemente sobre suas experiências na transição da universidade para o mundo profissional. Embora tenham sido aconselhados a começar a todo vapor, muitos jovens com quem conversamos sentiam-se desorientados, confusos, insatisfeitos e, em muitos casos, sufocados pelo “mundo real”. Além de impactar os próprios jovens e seu bem-estar, essa experiência intensa e desafiadora afeta as empresas, que investem tempo e dinheiro para recrutar e treinar jovens para se juntarem a elas e contribuir imediatamente com a organização.

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Alguns atribuem essas dificuldades aos millennials, afirmando que os jovens dessa geração em particular tendem a enfrentá-las por serem tão egocêntricos e convictos do próprio direito a regalias. Porém, nossa visão, com base em entrevistas com recém-formados e em nosso trabalho com esses jovens durante sua transição da universidade para o mundo profissional, é que existe outro fator em pauta.

Em nossa opinião, a principal razão das dificuldades dos jovens não é “geracional”, e sim cultural – especificamente, a transição cultural entre a universidade e o mundo profissional, que, apesar de muito significativa, tipicamente é pouco enfatizada. Descobrimos em nossa pesquisa que essa mudança cultural se revela em ao menos três dimensões essenciais: feedback, relacionamentos e prestação de contas.

Feedback

“A vida inteira, desde que entrei na escola, tudo valia nota. A gente recebia feedback imediato sobre o nosso desempenho. Porém, no trabalho, o feedback não é imediato, e eu acho que esse foi um dos maiores desafios dessa transição.” – Candra, 23 anos, assistente de pesquisa em saúde.

Na faculdade, o feedback é claro e coerente. Os alunos recebem o cronograma das matérias, que detalha as exigências para o semestre e os padrões de avaliação e, após isso, recebem feedback do professor sobre cada trabalho entregue. Não é necessário pedir o feedback – ele é dado aos alunos de forma direta e, tipicamente, sem muitas explicações pessoais. Além disso, pelo fato de as notas serem padronizadas, é bem fácil para o aluno entender seu nível pessoal de desempenho em relação ao dos colegas, ou em relação a si próprio nas matérias ou nos semestres anteriores.

Como se pode imaginar, o paradigma do feedback muda completamente após a entrada do aluno no mundo profissional. Para começar, o feedback recebido no trabalho muitas vezes é menos coerente e menos fácil de decifrar do que o recebido na faculdade. Dependendo do gestor e da organização, pode-se receber feedbacks muito claros, detalhados e coerentes a respeito das tarefas; ou talvez os feedbacks sejam recebidos de um modo intermitente e difícil de decifrar, através de comentários ocasionais, até que chegue aquela tão rara avaliação oficial de desempenho. Porém, seja qual for o caso, muitas vezes o feedback recebido é mais qualitativo que quantitativo, o que pode ser confuso para alunos acostumados a focar na nota específica que receberam e no ponto em que estão localizados na curva geral de desempenho da classe.

Como resultado dessas diferenças culturais, os profissionais jovens podem vivenciar um vácuo de feedback no mundo profissional, imaginando como melhorar, se precisam melhorar e como podem desenvolver as habilidades necessárias para melhorar na empresa e na carreira.

Os recém-formados também precisam aprender uma nova habilidade em relação ao feedback no mundo do trabalho que não era uma parte comum do paradigma da faculdade: como receber feedback, tanto positivo quanto negativo, de maneira bem-composta e profissional. É bem verdade que, em alguns casos raros, como teatro ou criação literária, é muito possível que os estudantes adquiram uma experiência proveitosa ao aprender a dar e receber feedback com profissionalismo. Porém, esse simplesmente não é o caso da grande maioria das disciplinas dos cursos universitários, em que o feedback muitas vezes é dado de forma impessoal, por escrito e sem muita oportunidade para troca de ideias, nem interação e discussão “ao vivo”.

Relacionamentos

“De repente você começa a conviver com pessoas de todos os tipos, cada uma com a sua história de vida, e na verdade você não sabe nada sobre nenhuma delas.” – David, 26 anos, consultor de estratégias de negócios.

Os relacionamentos no mundo profissional também são muito diferentes dos da faculdade, onde construímos relacionamentos com as pessoas que queremos – na maior parte, pessoas com idade próxima à nossa. Esses relacionamentos evoluem naturalmente por meio de interações em aula, nas atividades extracurriculares no campus, através de amigos dos nossos amigos. Além disso, tipicamente existe muito pouca pressão para manter relacionamentos de que não gostamos.

Porém, após entrarem no mundo profissional, os estudantes veem-se enredados em uma experiência de construção de relacionamentos muito diferente, em que não se trata mais apenas de criar um grupo de pessoas divertidas e simpáticas com quem se reunir; agora, tudo é mais estratégico. A construção de relacionamentos em um ambiente profissional tem a ver com o desenvolvimento de amizades, naturalmente, mas também com a construção de uma rede robusta de colegas que podem nos ajudar a sermos bem-sucedidos no trabalho e a progredir na carreira. Isso significa interagir regularmente com pessoas de idades diversas e com diferentes histórias de vida e interesses, e significa, também, desenvolver uma ligação com o supervisor – uma nova figura de autoridade que não apenas diz a alguém o que fazer, mas também tem muito poder sobre o desenvolvimento futuro da carreira.

E às vezes, no mundo profissional, a construção de relacionamentos acontece com pessoas de quem nem mesmo gostamos ou com quem não queremos ter amizade. Diferentemente da faculdade, onde podemos simplesmente evitar pessoas de quem não gostamos – como professores cujas disciplinas podemos optar por não cursar –, o mesmo não é verdadeiro no mundo profissional, onde precisamos encontrar formas de administrar relacionamentos difíceis de maneira produtiva e profissional.

Por fim, o comportamento em relação a um professor em uma disciplina tem pouco ou nenhum impacto sobre a experiência, o desempenho ou a reputação do aluno em outra disciplina ou outro departamento. Porém, naturalmente, no trabalho, as interações com o supervisor podem ter sérias implicações sobre o sucesso do colaborador na empresa atual. Se o supervisor faz reclamações sobre o desempenho ou a ética de trabalho de um colaborador para outros líderes, por exemplo, pode ser difícil para esse colaborador subir na escala hierárquica.

Prestação de contas

“Quando você é jovem, ao sair da faculdade, você não percebe onde está entrando. Seu desempenho é bom ou não é, e você pode perder o emprego a qualquer momento. O estudante acha que tudo é tranquilo como na faculdade, mas não é nada disso. A responsabilidade é muito maior.” – Michael, 27 anos, gerente regional de contas.

O grande objetivo da faculdade – ao menos sob o ponto de vista do aprendizado – é desenvolver a base de conhecimentos e a capacidade de pensamento crítico do aluno. Na escola, o estudante precisa prestar contas principalmente a si próprio. Sim, ocasionalmente existem trabalhos em grupo, ou o aluno pode fazer uma parceria para concluir um trabalho. Porém, ao final, embora o desempenho do grupo tenha importância, a maior responsabilidade do estudante é perante si próprio, por suas realizações, seu sucesso e seu aprendizado.

Em um ambiente profissional, por outro lado, tipicamente existe muito mais em jogo e os erros podem ter consequências graves. O profissional tem que prestar contas não só a si próprio, mas também à equipe, aos colegas, ao supervisor, ao departamento e à organização. Se falhar em uma missão importante, prejudicar o relacionamento com um cliente ou administrar mal uma interação com um fornecedor, não poderá recuperar a nota ou pedir créditos extras. Os erros não são necessariamente nem exclusivamente oportunidades de aprendizado, mas podem ter consequências graves para a reputação e a carreira, o que aumenta o nível de pressão e de responsabilidade pessoal para o profissional jovem.

Esses três temas demonstram que enquanto alguns profissionais jovens fazem a transição da faculdade para a vida profissional com facilidade, outros enfrentam algumas dificuldades. Assim sendo, o que as empresas e os gestores podem fazer para ajudar a facilitar essa transição cultural para os novos profissionais?

Nossa primeira recomendação é tratar essa transição como qualquer outra transição cultural significativa e aplicar as melhores práticas de adaptação cultural à adaptação da faculdade para o mundo profissional. Isso significa ensinar a respeito das normas e regras, e explicar de forma bastante explícita como e por que essas regras e expectativas diferem das que existiam na faculdade.

Mas, além disso, as empresas inteligentes também promovem ativamente uma mentalidade positiva e incentivadora entre os colaboradores mais experientes. Os líderes precisam comunicar o fato de que todas as pessoas já foram jovens e talvez também tenham vivenciado uma transição cultural desafiadora. Se os colaboradores experientes tiverem empatia com o que os recém-formados enfrentam, poderão tornar-se mais propensos a atribuir seu comportamento às transições culturais, e não a algum tipo de “convicção de direito a regalias” – ou, pelo menos, mais abertos a essa explicação alternativa.

Naturalmente, o mentoring é uma parte crucial desse processo, mas precisamos nos lembrar de que os mentores mais experientes não são necessariamente melhores. O essencial é encontrar mentores que possuam experiência nos dois lados da transição – que se lembrem de como eram os desafios e que os tenham enfrentado e superado. Além disso, é útil que os mentores tenham amigos e colegas que também tenham vivenciado experiências semelhantes, pois, desse modo, poderão oferecer aos novos profissionais uma variedade de opções e caminhos para o sucesso.

Finalmente, para serem bem-sucedidos, os próprios profissionais jovens também devem estar dispostos a investir o tempo e o esforço necessários para dominar a transição da escola para o trabalho. Isso poderia se traduzir em pedir ajuda a amigos ou familiares mais experientes para saber o que os ajudou a administrar essa transição, ou também poderia significar reconhecer quais “soft skills” (habilidades humanas ou interpessoais) lhes faltam e desenvolver um plano para aperfeiçoá-las, porque, afinal, o que descobrimos em nossa pesquisa é que o conhecimento proveniente dos livros que os alunos adquirem no curso superior só pode levá-los até certo ponto.


Andy Molinsky é professor de Comportamento Organizacional na Brandeis International Business School e autor do livro Global dexterity and reach. Você pode receber gratuitamente dois guias escritos por ele, Guide to 10 cultural codes from around the world e Guide to stepping outside your comfort zone.


Sheila Pisman possui mestrado em Negócios Internacionais pela Maastricht University e começou recentemente a trabalhar no programa internacional de estágios da empresa farmacêutica alemã Merz. Antes do cargo atual, trabalhou como pesquisadora visitante na International Business School da Brandeis University.

 

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