Gênero

Os fatores que levam as mulheres a abandonar a engenharia

M. Teresa Cardador e Brianna Caza
19 de março de 2019

Manter mulheres na engenharia continua sendo um problema pertinente. Mesmo depois de superar obstáculos para entrar na profissão, mulheres a abandonam a taxas muito mais altas do que os homens, muitas vezes por causa do estresse que acompanha o fato de serem mulheres em um campo dominado por homens. Esse estresse pode ser bastante evidente, como quando as mulheres enfrentam casos de discriminação ou assédio de gênero; no entanto, nossa pesquisa mostra que ele também pode ser sutil, como quando as mulheres sentem que suas contribuições são menos valorizadas do que as de seus colegas do sexo masculino porque as tarefas e os papeis foram determinados por gênero. Quando sentido diariamente, esse tipo sutil de estresse pode se tornar extenuante.

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Para termos uma compreensão mais profunda dessas experiências e como as mulheres lidam com elas, entrevistamos mais de 330 engenheiros nos EUA (43% mulheres e 57% homens) de 2013 a 2017, e conversamos com mais de 20 engenheiras em conferências nos EUA e Canadá. Essas profissionais tinham entre 22 e 50 anos de idade e trabalhavam em diferentes subcampos da engenharia.

Nossos dados fornecem informações sobre a identidade profissional e as experiências de trabalho das engenheiras – suas abordagens para com o trabalho, decisões de carreira, fatores de estresse no trabalho e intenções de deixar o campo. Nossas descobertas, combinadas com as nossas outras pesquisas sobre identidade e resiliência, revelam que as engenheiras sentem o estresse a partir de alusões sutis – e outras não tão sutis – de que suas habilidades e seu trabalho não são valorizados dentro da profissão. Esse estresse aumenta o sentimento de não fazer parte, tornando-as mais propensas a pensar em deixar a profissão. Mas também identificamos importantes estratégias de resiliência que elas podem usar para superá-lo.

Estresse que advém das tarefas separadas por gênero e das escolhas de carreira

No início da formação, os engenheiros aprendem que há dois conjuntos de habilidades exigidos na engenharia: habilidades de engenharia “pesadas” (como capacidade técnica e resolução de problemas) e habilidades “profissionais” mais leves (como comunicação, criação de relações e trabalho em equipe). Eles também aprendem que essas habilidades são diferenciadas por gênero, com a primeira vista como mais masculina, mais reverenciada e com status mais elevado; e a última vista como mais feminina e de menor status.

Nossa pesquisa mostra que muitas engenheiras se sentiram atraídas por tarefas que não eram puramente técnicas. De fato, muitas das engenheiras com quem falamos disseram gostar e se destacar em tarefas que envolvem pessoas, comunicação e habilidades organizacionais, além de habilidades técnicas. Como uma engenheira observou:

“Eu sabia que não queria sentar à frente de um computador e executar um modelo e fazer cálculos o dia todo. Essa não é minha personalidade, embora eu tenha essa formação como engenheira. Além disso, gosto de me relacionar com outras pessoas, e isso muitas vezes me levou a trabalhar com outras pessoas, em vez de ser uma colaboradora individual e apenas finalizar tarefas, encaminhá-las para alguém e ficar isolada o dia todo, todos os dias.”

Enquanto algumas mulheres gravitam em torno dessas tarefas com base em seus interesses, os mentores também as incentivam a assumir tarefas e funções compatíveis com o lado “profissional” da engenharia. Um engenheiro descreveu como ele presenciou isso acontecendo com uma colega:

“Eles a designavam para tarefas não técnicas, como organização, preparação e representação da equipe em reuniões. Ela se saía muito bem nisso, e admito que, estando presente, ela tinha grandes habilidades de comunicação nas discussões. E, como resultado, a empresa queria colocá-la em um cargo em tempo integral porque ela se saiu muito bem.”

No entanto, como observou uma mulher, os outros tendiam a considerar esses conjuntos de habilidades menos alinhados com o que significa ser um “engenheiro de verdade”. Como há uma tendência em definir engenheiros “de verdade” em termos de habilidades técnicas e valores ligados à condição de especialista técnico, muitas mulheres acham que suas habilidades singulares nem sempre são valorizadas ou reconhecidas. Por exemplo, uma engenheira nos disse:

“Parece que essas habilidades, essas características que há muito tempo venho aperfeiçoando – que até podem ser rotuladas como habilidades leves – não são as habilidades mais valorizadas no dia a dia. E nem estão sendo reconhecidas.”

Nossas entrevistas com engenheiros confirmam essas crenças. Os homens disseram que suas colegas de trabalho costumam ser atraídas pelas tarefas “menos valorizadas” no trabalho. Eles apontaram, especificamente, que suas colegas tendiam a se destacar nos aspectos sociais do trabalho (como gestão de relacionamentos e multitarefa), mas que tais aspectos eram meramente “periféricos” em relação ao trabalho técnico em si.

Pesquisas também mostram que há uma probabilidade desproporcional de que as mulheres se afastem das carreiras mais técnicas e de funções que envolvam supervisão técnica ou gestão à medida que suas carreiras progridem. Descobrimos que, enquanto algumas mulheres realizavam essas funções de supervisão técnica ou gerencial com base em suas preferências, algumas também foram conduzidas a exercer esses cargos. Outras evidências mostram que isso pode ser resultado de iniciativas de diversidade e estereótipos sobre as mulheres serem mais qualificadas em comunicação e coordenação do que os homens.

Uma engenheira nos disse que foi incentivada pelo chefe a exercer um cargo gerencial por ser considerada “extrovertida” e “ter boas habilidades interpessoais”. Um engenheiro que entrevistamos ecoou a ideia de que as mulheres são particularmente adequadas para os cargos gerenciais:

As mulheres se saem melhor em cargos gerenciais… muitas delas possuem os atributos para serem boas gestoras, elas se preocupam com os funcionários, se preocupam com a forma como se comunicam, como desenvolvem produtos… se você colocar dez engenheiros da nossa empresa em uma sala, todos serão inteligentes, mas a pessoa capaz de se comunicar bem, aquela que consegue fazer as pessoas concordarem com suas decisões… essas pessoas serão, estereotipicamente, mulheres.

O problema é que os cargos gerenciais são menos valorizados na engenharia. Empresas de engenharia geralmente têm uma hierarquia de prestígio em que as carreiras mais técnicas são consideradas de maior status e são mais valorizadas, e carreiras menos técnicas, entre as quais a gestão de projetos ou de produtos, são vistas como menos essenciais e até mesmo menos desejáveis. De fato, muitos de nossos entrevistados – especialmente homens – descreveram os cargos gerenciais como indesejáveis, alegando: “Eu não gosto de ser chamado de gestor” ou “Talvez para elas seja gratificante, mas eu não me vejo nesse cargo”.

Quando as mulheres ocupam cargos que são menos valorizados ou mesmo indesejados de forma desproporcional, reforçam-se os estereótipos sobre as engenheiras serem menos qualificadas tecnicamente, fazendo-as se sentirem menos respeitadas e criando a ilusão de que elas não são “engenheiras de verdade”. Décadas de pesquisas em psicologia social mostram que a sensação de que você e seu trabalho não são valorizados pelos outros em sua empresa cria um estresse psicológico persistente e crônico. Esse estresse pode minar a capacidade das engenheiras em lidar com outros fatores de estresse, como a alta demanda de trabalho e viés persistente no local de trabalho, levando-as ao esgotamento e a pensarem em deixar o trabalho.

No entanto, embora algumas das engenheiras que entrevistamos tenham relatado a intenção de deixar a profissão, muitas perseveraram diante desses obstáculos e tiveram uma carreira gratificante. Obtivemos uma boa perspectiva sobre como as mulheres lidam efetivamente com esse estresse. Eles realizaram um “trabalho de identidade profissional” para minimizar a divisão entre a identidade de gênero e a identidade profissional; e suas experiências podem ajudar outras mulheres na engenharia a se tornarmais resilientes e a traçar uma carreira autêntica e gratificante.

Como se tornar resiliente através do trabalho de identidade profissional

Pergunte a si mesma o que você quer. Dado o viés, na engenharia, em valorizar as habilidades técnicas e a especialização acima de tudo, é fácil se sentir pressionada a privilegiar as expectativas externas em detrimento de sua própria voz e valores, criando um sentimento de inautenticidade. Muitas mulheres com quem falamos descreveram se sentir “diferentes dos outros engenheiros” ou que precisam ser “uma pessoa diferente no trabalho”. Tente privilegiar sua própria voz interior discordante em vez de lutar para reprogramar suas próprias motivações para se alinhar com a perspectiva da maioria.

Uma maneira de se sentir mais autêntica é refletir sobre seus valores pessoais e profissionais. As engenheiras devem se perguntar: O que é importante para mim e o que não é? Quais experiências são mais atrativas e como posso obtê-las? De que apoio eu preciso e de quem? Quais são meus pontos fortes e fracos e o que eu quero mudar?

Assumir uma atitude introspectiva em relação a suas aspirações, proficiências e fontes de energia ajuda a silenciar o ruído externo que prejudica a sensação de que seu trabalho é desvalorizado e cria uma sensação consideração para consigo mesma. Isso, por sua vez, ajuda a aumentar a confiança em suas escolhas de carreira e reduz o estresse de se desviar da norma. Isso também pode ajudá-la a reconhecer quando você foi silenciosamente desviada – exercendo tarefas e cargos a que você foi impelida, não aqueles de que gosta – e a se concentrar no que é mais importante para si própria.

Engenheiras também precisam estar confiantes nas decisões de assumir certas tarefas, funções e escolhas de carreira. Quando defrontadas com uma “oportunidade” de carreira ou de tarefa, é fundamental que as mulheres desenvolvam o hábito de se perguntar: “Estou assumindo esse cargo porque gosto e porque se encaixa nos meus objetivos de carreira?” ou “Estou assumindo uma tarefa porque alguém acha que se encaixa no meu conjunto de habilidades?”. Uma engenheira que havia sido incentivada por seu superior a seguir uma carreira de gestora nos contou:

“Eu havia desempenhado, durante um ano, funções gerenciais. Foi algo que meus gestores e os gestores de portfólios da empresa realmente pressionaram porque sentiram que eu tinha as habilidades – sou articulada, boa com pessoas, tenho excelentes habilidades de apresentação – que realmente me permitiriam ter sucesso. Eu odiei isso, mudei para uma função técnica e decepcionei a maioria dos meus incentivadores. Agora sou grata por me conhecer bem o suficiente para que isso não ocorra novamente.”

Isso não significa que você deva recusar cargos sem explorá-los; em vez disso, o melhor a fazer é se conhecer para saber quais tarefas e funções combinam melhor contigo. Outra engenheira com quem conversamos encontrou seu nicho na engenharia por meio de um processo de reflexão sobre seus interesses em gestão. Ela disse:

Eu acho que é uma questão de descobrir o que combina com você… minha sensação atual é que eu sei o que estou fazendo, e eu sou muito boa nisso… descubra o que combina mais com você, o que faz você se apaixonar.

Aceite sua complexidade. As engenheiras também precisam aprender a abraçar sua complexidade identitária – o fato de terem tanto valores femininos quanto científicos – em vez de se forçarem a se encaixar em estereótipos de gênero ou de engenharia socialmente construídas. Essa complexidade lhe permitirá aceitar a singularidade que você traz para a profissão, reduzindo, assim, os sentimentos de dissonância e tensão.

Concentre-se nas sinergias entre suas identidades (gênero, profissão, cargo), e não no conflito. Quais são os benefícios de ser uma mulher na engenharia ou uma gestora? Quais são as vantagens para a empresa de uma profissional que tenha proficiência técnica, organizacional e comunicativa? Como você pode articular essas vantagens? De fato, as qualidades que as mulheres trazem para a engenharia, como habilidades eficazes em comunicação e gestão, além da capacidade de organizar o trabalho das equipes, são consideradas essenciais para o futuro da engenharia.

Aceitar e ajudar os outros a entender os benefícios de sua complexidade pode ajudá-la a expressar sua “marca” única e importante na força de trabalho da engenharia, como uma profissional que possui um amplo conjunto de habilidades, interesses e aptidões. Quando você ocupa um cargo que abarca sua combinação única de qualificações e habilidades, a satisfação aumenta e o estresse diminui. Como uma mulher explicou:

“No momento em que você percebe que meus interesses não são tradicionais e não vêm de um manual de termodinâmica, não há como eu não assumir um papel como esse. [O papel que escolhi] tem mais a ver com uma carreira não tradicional em engenharia, e essa é a parte prazerosa. É uma função bastante técnica, [mas]… é anticonvencional. É criativa. É uma combinação… O equilíbrio entre ter o conhecimento técnico e a compreensão dos negócios me coloca em um lugar único na engenharia e na comunidade técnica… sou uma mulher feliz.”

Nossa pesquisa mostra que as mulheres na engenharia são expostas a um tipo de estresse encoberto, decorrente da diferenciação de gênero de tarefas e funções na engenharia, e subsequentemente, as maneiras pelas quais as engenheiras percebem que seu trabalho e suas funções são desvalorizados dentro da profissão. Ao refletir mais sobre o que essas profissionais querem obter do trabalho, e ao aceitar a complexidade de suas identidades, as mulheres na engenharia podem se tornar mais resilientes diante do estresse para enfim seguir carreiras longas e gratificantes.


Teresa Cardador é professora associada de relações de trabalho e emprego da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. A pesquisa da Dra. Cardador se concentra na identidade, significabilidade e gênero no trabalho; seu interesse recai, em particular, em como essas questões se relacionam às experiências em termos de trabalho e carreira de mulheres em profissões dominadas por homens.


Brianna Caza é professora associada da Faculdade de Administração Asper, da University of Manitoba.

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