Criatividade

Os benefícios inesperados de buscar uma paixão fora do trabalho

Jon M. Jachimowicz, Joyce He e Julián Arango
24 de janeiro de 2020

Parece que estamos constantemente ouvindo para buscarmos um trabalho pelo qual temos paixão. Pelo menos nos Estados Unidos, esse conselho acompanha as pessoas da escola até a carreira profissional. Como o investidor bilionário Ray Dalio aconselha em seu livro “Principles: make your passion and your work the same thing.” Dizem que fazer isso é o caminho para o sucesso.

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Isso se dá porque um estudo recente descobriu que jovens classificam o fato de alcançar a paixão na carreira como a mais alta prioridade – acima de fazer dinheiro ou se casar. De acordo com os adolescentes entrevistados, encontrar um emprego gratificante foi considerado quase três vezes mais importante do que ter uma família.

No entanto, para muitas pessoas isso simplesmente não é viável. Nem todos os empregos oferecem a possibilidade de encontrar uma paixão. E a maioria das pessoas se preocupa profundamente com muitas coisas diferentes – nem todas incluem como essas pessoas querem ganhar seu sustento. Um conjunto de pesquisas sugere que buscar sua paixão realmente melhora seu bem-estar, mas que onde você faz isso é muito menos relevante. Na verdade, vários estudos demonstram que fazer alguma coisa que você adora fora do trabalho – e não nele – beneficia sua carreira e sua vida pessoal.

Por que devemos buscar nossa paixão fora do trabalho

Embora buscar a paixão no trabalho seja algo conhecido por aumentar o engajamento e o desempenho no emprego, é fora da realidade e arriscado confiar no trabalho como o único meio para se obter isso. Alguns empregos não permitem que os funcionários se concentrem em seus interesses e os empregos que permitem nem sempre são financeiramente viáveis. Em alguns aspectos, seguir e encontrar paixão no trabalho pode ser visto como um luxo para poucos privilegiados – aqueles que podem se dar ao luxo de escolher exatamente as profissões certas.

Associar o trabalho à sua paixão também pode ser prejudicial em longo prazo. Quando você aposta toda a sua autoestima em seu trabalho, você fica menos resistente a eventos adversos, como demissões ou avaliações negativas de desempenho. Você também pode ter maior dificuldade em se desligar após horas de trabalho e ter o descanso necessário para repor as energias para o próximo dia. Além disso, isso nos priva dos muitos benefícios advindos do envolvimento em atividades e hobbies externos – por exemplo, redução do estresse, mais energia e níveis crescentes de criatividade, os quais podem aumentar o envolvimento e a retenção no trabalho. Um estudo recente também mostrou que pessoas obtiveram mais benefícios quando suas paixões pessoais e seus trabalhos reais eram bem diferentes.

É importante ter consciência de que o desejo em buscar paixão no trabalho é um fenômeno moderno, e relativamente único nos Estados Unidos. Em outros países, especialmente na Europa, as pessoas encontram mais comumente prazer fora do trabalho. Por exemplo, quase metade dos alemães são membros de pelo menos uma associação fora do trabalho, que lhes permite engajamento em atividades preferidas, como esportes ou jardinagem, em seu tempo livre. Em contrapartida, nos EUA, apenas poucos americanos têm hobbies ou atividades extracurriculares que buscam de forma ativa.

Por que isso? Uma hipótese é que estar ocupado no trabalho tornou-se um símbolo de status nos EUA. Também estamos mais que nunca conectados com nossos empregos por causa dos smartphones. Os trabalhadores americanos parecem estar competindo sobre quem dedica mais horas, que pode explicar a razão pela qual passam mais tempo no trabalho do que a maioria dos europeus. Outra razão para nosso atual estado de excesso de trabalho é a insegurança financeira. Uma em cada três famílias de classe média luta para sobreviver, fazendo com que as pessoas deem mais atenção ao trabalho. Brigid Schulte, autora de Overwhelmed, descreve em seu livro a cultura das longas horas e a dificuldade de se desligar do trabalho: “Isso é tão indicativo do ponto onde estamos em nossa cultura agora, que você pode realmente esquecer do que você gosta de fazer que não esteja a) ligado ao trabalho e b) produtivo”.

Lições para funcionários e gerentes

Convidamos os funcionários a repensar a busca por paixão, lembrando que eles podem fazer isso no trabalho ou fora dele. Também aconselhamos os gerentes a ajudarem seus funcionários nessa empreitada.

Uma maneira de buscar sua paixão fora do trabalho é desenvolver as lições de “elaboração de emprego”, a noção de que os funcionários podem encontrar maneiras de fazer com que suas funções reflitam mais de perto o que é de seu interesse através, por exemplo, de suas tarefas ou dos parceiros de trabalho. Você também pode elaborar seu emprego permitindo mais tempo para paixões fora do trabalho. Por exemplo, se você tiver algum nível de autonomia sobre as suas horas de trabalho, você pode começar seu dia mais cedo para obter mais horas no final do dia para cultivar seus interesses.

Essas atividades extracurriculares podem ser uma maneira de desenvolver novas habilidades, encontrar novas pessoas e comunidades ou relaxar. Como encontrar os interesses certos para você? Primeiro, pergunte-se sobre o que você se interessa e depois avalie se você encontra ou faz isso no trabalho. Se você tiver uma paixão – ou até mesmo um interesse – que não conseguiu buscar, isso pode ser um ponto de partida. Fora do trabalho, você tem a liberdade de tentar coisas novas: portanto, experimente-as. Lembre-se, também, de que as paixões podem diminuir e sumir com o tempo; portanto, sinta-se à vontade para interromper uma atividade e começar uma nova. Muitas vezes, encontrar outras pessoas que se preocupam muito com o que você está tentando pode ajudar, para que você seja puxado para a órbita dessa paixão e acabar encontrando, assim, um senso de comunidade.

Outra forma de buscar paixões fora do trabalho é através do voluntariado. Muitas empresas já estão estimulando seus funcionários a fazer isso. Por exemplo, a Mars Inc. paga a seus associados até 16 horas por ano para realizarem trabalho voluntário. Esta prática, em geral, tem comprovado que cria conexões mais fortes entre os membros de uma comunidade, intensifica o orgulho coletivo nos participantes e beneficia as organizações, mantendo os funcionários engajados e comprometidos. Segundo indica uma pesquisa, o voluntariado permite que você expresse valores pessoais significativos e que, quanto mais apaixonado você se torna por uma causa, mais benefícios obterá. Você pode verificar se sua empresa possui grupos de voluntariado corporativos ou quais oportunidades externas estão disponíveis em sua área.

Os gerentes desempenham um papel crucial para ajudar os funcionários a obter tudo isso. Embora as pessoas possam querer adotar um novo hobby ou aula ou participar de um clube, geralmente é difícil fazê-lo quando o horário de trabalho é longo ou imprevisível e os chefes esperam uma dedicação completa ao trabalho. Portanto, os líderes devem intervir para incentivar e apoiar os trabalhadores – agendando folgas mais previsíveis (ou seja, permitindo que os funcionários escolham um tempo protegido de possíveis solicitações de trabalho), oferecendo programas voluntários ou extracurriculares ou, simplesmente, encorajando as pessoas a pensar sobre o que as fazem felizes.

Buscar sua paixão proporciona vários benefícios, mas apenas poucos privilegiados podem fazer isso no trabalho. Deveríamos buscar atividades pessoais que estejam ligadas a nossos interesses. Ao assim fazer, podemos ter uma vida mais intensa e levar o melhor de nós para o trabalho.


Jon M. Jachimowicz é professor assistente de Administração de Empresas na Organizational Behavior Unit da Harvard Business School. Sua pesquisa está voltada para dois tópicos. Primeiro, ele estuda a paixão dos funcionários por seu trabalho, destacando que a paixão é um atributo que varia com o tempo. Segundo, ele estuda a desigualdade econômica, explorando como as disparidades de renda são percebidas e como influenciam as emoções e comportamentos do ser humano. O autor concentra-se especialmente em como as pessoas na base da pirâmide da distribuição de renda podem ser apoiadas para obter resultados mais favoráveis em longo prazo. Ele é PhD em Administração da Columbia Business School.


Joyce He é uma candidata a Ph.D. em comportamento organizacional na Rotman School of Management, na Universidade de Toronto. Sua pesquisa enfoca o tópico sobre como as pessoas formam impressões (geralmente imprecisas) sobre os outros e como essas impressões impactam os resultados importantes na empresa. Ela explora esses interesses através das lentes do gênero e das emoções.


Julián Arango é fundador e estrategista comportamental no Aleatoria, uma empresa da ciência do comportamento na Colômbia. Arango também é Pesquisador Assistente do Prof. Jon Jachimowicz. É apaixonado por contribuir com organizações públicas e privadas, aplicando a ciência comportamental na América Latina com potencial para melhorar o desempenho. Ele possui mestrado em Ciência Comportamental e Econômica da Universidade de Warwick.

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