Gestão pessoal

Oito dicas para mergulhar nos livros que você sempre quis ter tempo para ler

Neil Pasricha
3 de maio de 2019

Você precisa ler mais livros.

Quando digo isso às pessoas, a maioria rebate: “Ah, sim, sem dúvida”. Mas dois segundos depois, dizem “Eu só queria ter tempo”.

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Quer saber de uma coisa? Acho essa desculpa pura balela. Porque a verdade é que temos tempo.  Um estudo da Universidade da Califórnia mostra que hoje consumimos mais informações do que nunca na história – mais de 100.000 palavras por dia. Pense em quantos textos e alertas e notificações e e-mails de trabalho e e-mails pessoais e manchetes e barras de notícias e feeds de blogs e todo o palavrório no Twitter e os comentários no Instagram que você lê todos os dias.

Com toda essa leitura descartável, quem tem tempo para os livros?

Em um artigo anterior da HBR chamado “8 maneiras de ler (muito) mais livros este ano”, eu falei como, durante a maior parte da minha vida adulta, li cinco livros por ano, no máximo. Eu tinha alguns livros que demorava para terminar na mesa de cabeceira e lia mais um par deles nas férias, se dava tempo. Três anos atrás, eu li cinquenta. Cinquenta livros! Em um ano. Eu mal pude acreditar. De repente, senti que os livros se tornavam aquele primeiro dominó, que caía para eu me tornar um marido melhor, um pai melhor e um escritor melhor.

Desde então, busquei dobrar minha carga de leitura. Agora, leio pouco mais de 100 livros por ano. É claro que às vezes engato a marcha lenta, ou puxo o freio de mão, e até caio nos buracos negros das redes sociais. Mas aqui eu revelo as oito coisas que faço para voltar nos trilhos:

  1. Viva cercado de livros.  A maioria das pessoas tem uma estante “lá do outro lado”, onde os livros moram. Mas um dia, no ano passado, minha esposa despejou uma pilha de uns dez livros ilustrados em cima da nossa mesa de centro. O que aconteceu? Nossos filhos passaram a folheá-los o tempo todo. Por isso resolvemos apenas alternar os títulos e os deixarmos lá. É o princípio do caminho de menor resistência, parecido com o jeito como a Google deixa lanches saudáveis sobre o balcão para os funcionários, enquanto os chocolates ficam escondidos em potes de biscoito. Colocamos a TV no porão, instalamos uma estante próxima da entrada e colocamos livros nas bolsas dos bancos do carro e em vários cantos espalhados pela casa. O escritor argentino Jorge Luis Borges disse: “Só consigo dormir cercado de livros”. É assim que escolhemos viver agora. (Mesmo que você esteja tentando limpar as tralhas ou não tiver muito espaço para armazenar livros, sempre poderá visitar a biblioteca do seu bairro para emprestar livros e devolvê-los quando terminar).
  2. Para repousar, prefira o vermelho.  Minha esposa costuma pegar no sono antes de mim. Nesse momento, eu coloco minha luz de leitura vermelha na testa. Por que vermelha? Michael Breus, autor de The Power of When explica que, segundo teorias, a luz vermelha ajuda na produção de melatonina. E luzes fortes têm o efeito oposto, de acordo com a Sleep Health Foundation, da Austrália. Luzes claras demais, ou uma tela com muito brilho, podem deixar você mais alerta. A leitura na hora de dormir deve ajudá-lo a relaxar, não a despertar.
  3. Deixe seu telefone menos viciante.  Os telefones celulares são uma máquina de distração. Nossos celulares são projetados para serem lisos, sedutores e irresistíveis. Não acredita em mim? O livro Irresistible, de Adam Alter, professor adjunto da Stern School of Business, rapidamente o conscientizará sobre os designs viciantes utilizados nos smartphones. Eles são como máquinas caça-níqueis de bolso. Então como resistir ao desejo de tocá-los? Deixando-os menos atraentes. Remova todos os aplicativos da tela inicial, para que você veja apenas um vazio ao desbloqueá-lo. Não conserte a tela rachada. Deixe o carregador no porão, para dar passos a mais nos momentos noturnos e matutinos, em que há maior propensão a utilizar o celular. Se você precisar ficar com seu telefone no quarto enquanto dorme, ative o modo “Não perturbe” para bloquear automaticamente chamadas e as mensagens após às 19h. Lentamente, devagar, aos poucos, você pode evitar que o telefone seja sedutor demais.
  4. Use o sistema decimal de Dewey. Como você organiza seus livros? Por cor? Por data de compra? Ou por pilhas grandes e aleatórias por toda a parte? Existe um porquê para cada biblioteca utilizar o sistema decimal de Dewey. E ele faz sentido. Os livros se encaixam com perfeição em categorias cada vez mais específicas em torno de psicologia e religião e ciência e arte e… tudo. Qual é a vantagem? Você cria conexões. Você enxerga onde estão suas grandes lacunas. Passei um sábado inteiro organizando meus livros de acordo com o sistema decimal de Dewey e, além de satisfazer a um desejo de organização incrivelmente intenso, agora encontro meus livros mais rapidamente, sinto que minha leitura segue um objetivo e me envolvo mais com o que leio porque consigo até mesmo sentir como tudo se encaixa no meu cérebro. Quais ferramentas você precisa para isso? Apenas duas. Eu adicionei aos meus favoritos o endereço classify.oclc.org para procurar o número decimal de Dewey para qualquer livro que não tenha um código CDD na capa interna, e eu utilizo o aplicativo Decimator para procurar o significado desse número. Ah, e eu uso um lápis para escrever o código decimal de Dewey e a categoria na capa interna de cada livro antes de colocá-lo na prateleira.
  5. Consulte podcasts e BookTubers para resolver o dilema do “próximo livro”.  À medida que você aumentar a sua taxa de leitura, o maior problema logo aparece: o que devo ler a seguir? Para ir além das pilhas das livrarias de aeroportos e das tendências em listas de bestsellers é preciso mergulhar em catálogos de editoras e as prateleiras mais escondidas nas livrarias para conseguir encontrar os livros que mudam sua vida de verdade. Na era das escolhas infinitas, o valor da curadoria dispara. Podcasts e BookTubers (um subconjunto de YouTubers especialistas em livros) são agora a máquina de curadoria dos sonhos do leitor. Por onde começar? Nos podcasts, “What Should I Read Next?”, da Modern Mrs. Darcy, aborda o problema de frente e o “Get Booked”, de Amanda Nelson, do site BookRiot oferece recomendações personalizadas de livros. Eu também tenho meu próprio programa, “3 Books”, em que pedimos a convidados como Chris Anderson, do TED, Judy Blume ou Chip Wilson, que compartilhem os três livros que mais definiram sua vida. E… BookTube? Sim, BookTube. Você encontrará um excelente panorama aqui, e alguns canais para começar a ficar viciado são Ariel Bissett e polandbananasBOOKS.
  6. Deixe de seguir todos os canais de notícias.  Certo, certo, eu já preguei antes a respeito de como cancelei a assinatura de cinco revistas e dois jornais para focar apenas nos livros. Mas você sabe onde as notícias me seguiram? Na internet. É aí que você precisa tomar medidas extremas: Deixe de seguir todos os sites de notícias nas mídias sociais e remova todos os sites de notícias dos favoritos (remova todas as senhas também). Lembre-se do que o cientista político Herbert Simon disse: “O que a informação consome é bastante óbvio: a atenção de seus receptores. Portanto, a riqueza de informações cria uma pobreza de atenção e a necessidade de alocar essa atenção, com eficiência, entre o excesso de fontes de informação que poderiam consumi-la”. (Quer ir mais fundo nessa questão? Eu recomendo a leitura de “Por que você deveria parar de ler notícias”, no site Farnam Street, e “Cinco coisas que você começa a perceber quando para de ler notícias”, no site Raptitude).
  7. Leia em alguma coisa que não tenha mais nenhuma outra função. Como o autor Seth Godin me disse em uma entrevista: “Raramente se lê um livro no iBooks, porque você está a um clique de conferir se chegou algum e-mail”. Se pudermos ser interrompidos, alertados ou notificados, é isso que faremos. Isso não é bom para mergulhar em novos mundos. Então, o que eu sugiro? Livros de verdade. Páginas de verdade. Em papel de verdade. Sim, eu aceito que árvores sejam cortadas, desde que isso nos dê a capacidade de desaparecer dentro da própria mente. Afinal de contas, apenas livros de verdade permitem que você assuma a direção geral do programa. Não há voz que substitua sua voz mental, não há formatação ou tela que afete as intenções artísticas do escritor. Claro, eu entendo que, se você precisa de fontes maiores, ou se você dirige o dia todo e prefere audiolivros, mas eu estou apenas dizendo que se você quer ser um verdadeiro leitor esnobe para o resto da vida, como eu, nada se compara aos livros de verdade. E, se você tiver que usar um leitor digital, apenas tenha a certeza que o aparelho não possa receber mensagens.
  8. Converse com vendedores de livros locais. Minha livreira preferida no mundo inteiro é Sarah Ramsey, da Another Story Books, em Toronto. Eu entro, começo a tagarelar, confesso alguns deslizes, falo sobre alguma dificuldade que estou enfrentando, ela solta alguns “hmms” e “hahas” e avalia minha situação enquanto perambulamos e conversamos pela loja durante meia hora. Ela encontra: um bom livro para depois do meu divórcio, um bom livro antes da minha viagem à Austrália e um bom livro para as dificuldades com meus filhos. E eu saio de lá cheio de livros que se alinham perfeitamente ao meu estado emocional, onde eu quero ou preciso crescer, e que refletem minha personalidade em um nível mais profundo. Se você, como eu, acredita que os humanos ainda são o melhor algoritmo, visite uma livraria independente, dê uma olhada na estante com as Sugestões dos Vendedores para ver quais recomendações combinam melhor com você, e então peça sugestões personalizadas. Essa é uma maneira mais eficiente de encontrar os livros que você vai amar. (Esta é uma lista com algumas livrarias independentes nos EUA, caso não saiba por onde começar).

E então, preparado para ler? Ansioso para começar? Ou você é uma daquelas pessoas que, primeiro, precisa de um argumento científico bem sólido para mudar de comportamento? Se você precisa de mais uma ou duas razões: Em 2011, o periódico Annual Review of Psychology declarou que ler aciona nossos neurônios-espelho e ativa as partes cerebrais responsáveis pelo desenvolvimento da empatia, compaixão e compreensão. Ler nos ajudar a sermos melhores líderes, professores, pais e irmãos. Outro estudo publicado na Science Magazine descobriu que a leitura de ficção literária ajuda a melhorar nossa empatia e nosso funcionamento social. E, finalmente, um incrível estudo de 2013 da Emory University demonstrou que as ressonâncias magnéticas realizadas na manhã seguinte após testes em que os participantes leram trechos de um romance revelaram um aumento na conectividade do córtex temporal esquerdo, a área do cérebro associada à receptividade linguística. Apenas imagine os benefícios de longo prazo do simples ato de abrir um livro todos os dias.

A maioria entre nós gostaria de ler mais livros. E é totalmente possível conseguir. Você é o que come, mas também o que lê.

Não pare de virar as páginas.


Neil Pasricha pensa e escreve sobre fracasso, resiliência, felicidade, confiança e gratidão. Ele é autor de seis bestsellers do New York Times, entre eles The Happiness Equation e e The Book of Awesome, que já venderam mais de um milhão de cópias e figuraram por mais de 200 semanas nas listas dos mais vendidos. Ele apresenta o premiado podcast 3 Books with Neil Pasricha, onde fala sobre sua busca de quinze anos pelos 1.000 livros mais formativos do mundo. Pasricha apresenta mais de 50 palestras por ano em lugares como TED, SXSW e a Google. Acesse o site e receba as recomendações de Pasricha em Neil.blog.

 

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