Conflito

O que fazer quando você é pego na mentira (mesmo não-intencional)

Ron Carucci
12 de agosto de 2019

As pessoas mentem, em média, de uma a duas vezes por dia. Tanto o número de mentiras, as razões pelas quais mentimos e o nível em que as verdades se alastram, variam muito – às vezes, todos nós mentimos. Dada a predominância das mentiras, parece inevitável que sejamos pegos em algum momento.

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Muitas pessoas, entretanto, não pensam assim. Muitos de nós acreditamos que nossas mentiras funcionam porque poucas são as pessoas que nos confrontam. No entanto, se estivermos dispostos a prestar atenção, há pistas que mostram ceticismo, ou até mesmo descrença na fisionomia daqueles para quem mentimos.

Recentemente, notei essa característica durante uma reunião. Um executivo – vamos chamá-lo de Greg – estava fazendo uma apresentação sobre a situação financeira da sua empresa. À medida que Greg explicava as razões do déficit do período anterior e sua previsão para o período seguinte, alguns na sala começaram a se sentir desconfortáveis e até incomodados. Os olhares que permeavam ao redor da mesa e as insinuações presentes nos questionamentos mostravam que não estavam acreditando nas explicações dele. Algum tempo depois, chamei-o de lado e disse que algumas pessoas estavam céticas. Entretanto, existem formas para reparar os danos causados.

Caso você perceba que distorcer informações, embelezá-las, negar erros ou que exagerar nas falas não tenha surtido efeito, pense que as coisas não estão bem, especialmente depois do doloroso silêncio ou das sobrancelhas franzidas voltarem ao seu estado normal. Agora, sua reputação está na berlinda. Eis como você pode tentar reconquistar um pouco da sua credibilidade.

Primeiramente, pense por que você mentiu. Quando perguntei ao Greg por que ele havia manipulado os dados, ele me disse que não tinha outra opção. “Eu era o profissional de vendas mais novo na época”, afirmou. “Todos desejavam que eu fracassasse, e acabei por me sentir um estranho.” A sua necessidade de fazer parte do grupo fez com ele optasse por comprar sua própria aceitação.

A desonestidade nunca acontece por acaso. Por trás das mentiras estão as necessidades não supridas, e achamos que a mentira poderá saná-las. Identificar essas necessidades é o primeiro passo para encontrar maneiras mais saudáveis de satisfazê-las.

Pense na última vez que você mentiu no trabalho. Você se sentiu ignorado ou injustamente julgado pelo seu chefe? Você achou que seu erro seria criticado severamente, mais do que justificado? Você acha que o slogan da sua empresa, que diz “nós aprendemos com os erros” é somente destinado aos “queridinhos”, e não a você? Ou você estava reagindo a um problema organizacional de maior proporção? Minha pesquisa sobre a desonestidade, um estudo longitudinal de 15 anos sobre as condições que preveem por que as pessoas mentem nas organizações – revela que algumas empresas podem, involuntariamente, estar criando situações que, na verdade, nos incentivam a mentir. Por exemplo, quando temos a sensação de que nosso trabalho está sendo avaliado de maneira injusta, a probabilidade de sermos desonestos aumenta quatro vezes.

Independentemente de sua motivação, lembre-se de que identificar a razão pela qual você mentiu não justifica a ação de maneira alguma. Para começar, é provável que você esteja tentando sufocar um sentimento de vergonha usando uma justificativa por ter mentido. “Não é justo…,”, “Eu mereço…” e “Por que eu preciso…” são mecanismos de defesa que usamos para racionalizar a decepção. Se você se vê defendendo suas mentiras, é um sinal claro de que você está evitando algo muito mais sério. Em vez de agir dessa forma, pergunte-se: “Quais medos escondidos estou tentando proteger?” Lembre-se que só o que a desonestidade pode oferecer não é nada mais do que de um pouco de falsa consideração no olhar dos outros.

Avalie o dano à credibilidade. Embora não seja fácil, é importante medir o grau de confiança que as pessoas deixaram de ter em você. Preste atenção em como as pessoas lhe atendem. A sua opinião é menos solicitada? O que você diz tem um envolvimento diferente de antes? Nos projetos onde sua credibilidade desgastou-se ao longo do tempo, você pode notar que há reuniões para as quais você não é chamado ou projetos para os quais você não é convidado a participar – embora sua expertise se encaixe neles.

Quando você percebe que a credibilidade está em declínio, você pode ser estimulado a mentir ainda mais para recuperá-la. Resista ao seu instinto natural, para diminuir a extensão do dano e para não dar continuidade ao ciclo de enganações. Em contrapartida, avalie a lacuna entre a reputação que você deseja ter e a que você tem. Você quer ser conhecido como alguém que tem ótimas ideias e que honra seus compromissos? Ou como o líder a quem recorrer para a resolução dos problemas mais sérios? Uma vez que tenha isso muito claro, você pode avaliar com mais precisão o nível de incerteza que você gerou ao tentar construir a sua reputação de forma desonesta.

Compreender isso o ajudará a identificar as diferentes escolhas que você poderá fazer no futuro – escolhas estas que mostrarão quem você quer ser no âmbito profissional e que diminuirão sua compulsão para “enganar”.

Procure maneiras de mostrar sua honestidade. É duvidoso que seus colegas estejam se perguntando por que você mentiu ou que estejam procurando maneiras de lhe conceder o benefício da dúvida. É bem mais provável que eles estejam pensando sobre sua capacidade de ser honesto.

Em alguns casos, eles também podem estar se questionando sobre outros aspectos de seu caráter. Se, por exemplo, você extrapolou na contribuição para um projeto ou se você escondeu um erro, é provável que estejam duvidando de sua capacidade de ser humilde e honesto. Pode ser que você não tenha a oportunidade de imediatamente confessar por que mentiu. Dependendo da política da empresa, fazer confissões desse teor pode ser um tanto arriscado. (Contudo, se você está seguro, assuma a responsabilidade por suas atitudes em todos os aspectos). Entretanto, se você souber a quais conclusões as pessoas chegaram a seu respeito, é possível demonstrar sua honestidade de maneira a refutá-las.

Seguindo o exemplo acima, se a sua humildade está sendo questionada, as expressões  sinceras ao duvidar de suas próprias ideias,  reconhecimento autodepreciativo de que você não é bom em certas coisas e afirmações de que outros podem ter uma maior competência, podem fazer com que as pessoas se lembrem de que você não possui somente qualidades negativas, e que algumas características de sua integridade ainda estão intactas.

Nas situações em que você se sente aliviado por não ter sido pego mentindo, não pense que você fez com que as pessoas acreditassem em coisas a seu respeito e ao seu trabalho, que não fossem verdadeiras. Agora você tem a duvidosa tarefa de manter a percepção dos outros, o que pode levar a mais mentiras. Liberte-se desse comportamento autodestrutivo. Examine as situações em que você se sente tentado a mentir. Seja honesto sobre quais necessidades legítimas você quer ver supridas e qual reputação verdadeira você quer construir. Ao fazer isso, você encontrará mais maneiras legítimas de fazer ambas as coisas.


Ron Carucci é cofundador e sócio-diretor da Navalent e trabalha ao lado de CEOs e executivos que procuram mudanças e transformações para a empresa, seus líderes e o ramo de atuação. Ron é autor de oito bestsellers, inclusive o livro Rising to Power, classificado como número 1 pela Amazon.

 

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