Estratégia

O que executivos seniores podem fazer quando o Conselho interfere demais

Constance Dierickx
19 de agosto de 2019

Todo mundo sabe o que um Conselho de Administração bom deve fazer: fornecer aconselhamento estratégico, proteger os interesses dos acionistas, e minimizar os riscos. Entretanto, às vezes, movidos por desconforto, preocupação ou desconfiança, os membros do Conselho de Administração ultrapassam os limites do CEO e adentram a empresa em busca de informações ou para influenciar, o que pode colocar os executivos seniores em uma situação difícil. Ao longo dos meus 25 anos prestando consultoria para Conselhos de Administração e gestões de alto escalão, várias vezes presenciei esse tipo de interferência. Eis cinco estratégias que ajudam você a se proteger dessa situação.

Leia também:

Seus funcionários se sentem respeitados?

Presidente da PwC nos EUA explica como manter jovens executivos engajados

Entenda como o Conselho em empresas similares à sua deve agir. Com base na sua experiência passada, você pode perceber quando o conselho da sua empresa atual está se envolvendo em áreas que não lhe diz respeito. Porém, convém dar um passo para trás e avaliar qual a posição da empresa no seu ciclo de existência. Os membros que têm atitudes diferentes daquelas que você espera não estão necessariamente errados. Por exemplo, imagine que uma empresa, em seu estágio inicial, esteja à procura de membros para o Conselho de Administração que se dediquem e ajudem a equipe a dar o primeiro passo; em casos como este, o envolvimento não é uma interferência, é algo necessário. Quando a empresa pega o ritmo, os membros do Conselho devem deixar a posição de gestão direta.  Uma empresa aberta e madura precisa que o Conselho de Administração cumpra as obrigações legais tenha visão e ofereça uma diretriz estratégica sem dar ordens aos executivos; portanto, se os conselheiros estão extremamente ativos nessa fase, isso pode ser preocupante.

Não tenha conversas sigilosas com os membros do Conselho Inicialmente, pode parecer algo lisonjeador que um membro do Conselho entre em contato e lhe convide para uma reunião particular sem consultar o CEO. Pode ser que haja uma razão válida para a pessoa pedir privacidade. Entretanto, exceto em alguns casos raros, quando há preocupações relacionadas aos líderes superiores, não os informar dessa reunião é uma péssima ideia, que provavelmente será descoberta. Sendo assim, se um membro do Conselho lhe procurar para conversas confidenciais é melhor interromper essa prática o quanto antes. Uma resposta do tipo “Sim, vamos juntos falar com o CEO para abordar suas ideias” é um recado claro. Caso a privacidade seja realmente necessária, o membro do Conselho poderá explicar o porquê.

Não repita acusações infundadas. Você pode achar que uma conversa com um membro do Conselho não deva ser divulgada. Essas coisas, no entanto, têm vida própria. Há alguns anos, o Conselho para o qual eu estava prestando serviços veio falar comigo 24 horas após ter desligado o CEO porque um membro do Conselho soube, por meio de uma conversa especulativa, que o CEO havia realizado furtos. Acabou que o rumor era falso, mas precipitou uma crise. Em caso de dúvida, tenha a certeza de que suas provas são claras antes de levá-las ao conhecimento do Conselho. Caso contrário, causará danos à empresa – e à sua reputação. 

Redirecione a conversa para assuntos de estratégia. Às vezes, independentemente do seu esforço, você pode se encontrar numa situação onde um membro do Conselho lhe faz um interrogatório. Você tem vontade esclarecer todas as dúvidas e entrar em detalhes, mas essa prática irá somente dar impulso a uma dinâmica improdutiva. Em vez disso, você pode redirecionar a conversa com as seguintes sugestões:

  • “Primeiro, vamos rever nosso objetivo.”
  • “Estamos fazendo algo que não está de acordo com seu plano?”
  • “Precisamos mudar algo?”
  • “Quais são os indicadores de melhoria mais úteis?”
  • “Qual informação você precisa, que ainda esteja faltando?”

Essas perguntas têm por objetivo descobrir o que é preciso fazer e os dados de que o Conselho precisa para realizar suas obrigações, além de, também, abrir portas para uma conversa franca sobre o que precisa ser melhorado. Caso as preocupações dos membros do Conselho não possam ser resolvidas, isso logo aparecerá.

Não permita que os membros do Conselho joguem com cartas da transparência. Uma das colocações que um membro do Conselho pode fazer a um executivo sênior, e que causa muita ansiedade é: “Você não está sendo transparente.” Caso alguém diga isso, você pode responder da seguinte maneira: “Por favor, conte-me qual é a sua preocupação. Você me acusou de estar escondendo algo, o que me coloca numa posição de autodefesa. Posso ser mais útil se você me disser com detalhes do que precisa”.

Caso você já tenha tentado todas as estratégias acima e o Conselho ainda interfere, é bastante provável que você esteja correndo perigo. Quando a política da empresa está muito ruim, mesmo que isso não tenha ainda atingido você, é melhor começar a elaborar um plano de saída. Entretanto, na grande maioria dos casos, seguir esses passos fará você se livrar dessas intervenções inapropriadas para, enfim, conseguir dar andamento ao seu trabalho.


Constance Dierickx é especialista em trabalhar em conjunto com empresas que estão passando por situações de alto risco como fusões, aquisições, CEOs, sucessão, mudança estratégica e crise. Ela já prestou consultoria para mais de 500 executivos nos cinco continentes, em mais de 20 setores. É autora do livro High-stakes leadership: Leading through crisis with courage, judgement, and fortitude. 

 

Compartilhe nas redes sociais!