Gestão pessoal

O que acontece quando sua carreira se torna a sua identidade

Janna Koretz
19 de fevereiro de 2020

Dan*, sócio de um escritório de advocacia renomado em Boston, estava atrasado para o trabalho, mas, em vez de estar lá, estava sentado no chão do seu banheiro, curvado, com a barba por fazer, de pijamas, chorando com uma toalha no rosto.

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Tudo começou devagar, numa reunião com um cliente especialmente exigente, quando um pensamento surgiu em sua mente: “Por que eu ainda estou aqui?” A partir daquele momento, ele se deu conta de que sua impaciência, infelicidade e frustração com o trabalho estavam mais intensas, até que, de repente, percebeu que não tinha prazer, nem satisfação no trabalho – e talvez nunca tivesse tido.

Para alguém que construíra sua imagem em torno da carreira, esse pensamento levou Dan a uma crise existencial. Quem era ele, se não um advogado poderoso? Tinha ele desperdiçado muitos anos trabalhando por nada? Teria ele mais amigos e uma família mais feliz se não tivesse passado todas aquelas noites no escritório?

A história de Dan não é incomum. Muitas pessoas que têm empregos de alto nível de pressão se veem insatisfeitas com a carreira apesar de trabalharem arduamente durante a vida toda para chegar à posição atual. Odiar o trabalho é uma coisa, mas o que acontece se você se identifica tanto com ele, que odiá-lo significa odiar a si próprio?

Psicólogos utilizam o termo “trauma de enredamento” para descrever uma situação onde o limite entre as pessoas se torna nebuloso, e a identidade pessoal perde sua importância. O trauma de enredamento inibe o desenvolvimento de um senso próprio estável e independente. Dan – como muitos em empregos de alto nível de pressão – se tornou enredado e, não só com outra pessoa, mas com sua carreira.

Como psicóloga, especializei-me em desafios à saúde mental associada a carreiras de alto nível de pressão. Pessoas como Dan aparecem em meu consultório todos os dias – é tão frequente, na verdade, que tive de abrir uma empresa – Azimuth Psychological – para me concentrar em atender às necessidades dessas pessoas. Uma convergência específica de grandes realizações, competitividade intensa e uma cultura de trabalho em excesso afetaram muitos numa tempestade de trauma de enredamento e síndrome de Burnout. Ao longo dos anos, verificamos que essas questões estão interligadas de maneiras tão complexas com a identidade, personalidade e as emoções das pessoas, que normalmente exigem terapia intensa para tratá-las com êxito.

Sendo assim, o que existe nas carreiras de alta pressão que, com bastante frequência, levam a situações de doença mental como as que Dan enfrentou?

A cultura de trabalho em muitas áreas de alta pressão frequentemente oferece recompensas pelas horas extras, como aumentos salariais, prestígio e promoções. Dan viu que passar cada vez mais tempo no escritório (ou conectado ao seu Iphone corporativo) era o preço que tinha de pagar para a sua rápida ascensão na firma. Entretanto, quando você se envolve numa atividade intensa que ocupa grande parte do seu tempo, essa atividade tende a se tornar cada vez mais o cerne da sua identidade – isto porque você deixa de lado outras atividades e relacionamentos com os quais você poderia se identificar.

Certas carreiras ou realizações profissionais são geralmente muito valorizadas na família ou na comunidade de uma pessoa. Os pais de Dan eram advogados e, apesar de nunca o terem forçado , explicitamente, para que seguisse uma carreira em Direito, eles tinham altas expectativas em relação ao seu êxito profissional e financeiro. Quando o sucesso na carreira é visto como o objetivo fundamental de vida, as pessoas podem se sentir desconectadas da família e dos colegas se não conseguirem (ou simplesmente não quererem) atingir um determinado nível de sucesso profissional. Esse receio de fracasso e isolamento levam as pessoas a concentrar a vida na realização daquilo que os outros esperam delas. O foco intenso e a perseverança, no entanto, forçam sua identidade a se tornarem, em última instância, sinônimos de seus trabalhos.

Quando os empregos de alta pressão vêm junto com um alto salário, as pessoas podem se ver fazendo parte de uma nova classe socioeconômica. Não era somente da casa, do carro, das férias e dos dispositivos que, repentinamente, Dan não podia abrir mão – eram os amigos, os jantares, e os eventos beneficentes. A nossa identidade é fortemente influenciada pela maneira como nos apresentamos às pessoas. Quando as pessoas constroem sua identidade baseada em riqueza, realizações e influência, elas se prendem àquela carreira de alto salário que os levou até lá.

Até para aqueles que não se desgastam em demasia, construir sua identidade muito próxima de sua carreira é um movimento arriscado. Empresas e setores inteiros lutam e fracassam. A discriminação etária pode tornar ainda mais difícil para aqueles que estão na metade ou no final de carreira, encontrar um cargo adequado na sua área de atuação após um desligamento. Independentemente da forma como acontece, não estar conectado à carreira na qual sua identidade se baseou pode desencadear problemas maiores, como depressão, ansiedade, abuso de substâncias e solidão.

Sendo assim, como saber se a sua identidade se imiscuiu na sua carreira? Vejamos as seguintes perguntas:

  1. Com que intensidade você pensa no seu emprego fora da empresa? A sua mente está frequentemente repleta de pensamentos relacionados ao trabalho? É difícil para você participar de conversas não relacionadas ao trabalho com outras pessoas?
  2. Como você se descreve? Qual percentual dessa descrição está ligado ao seu trabalho, ao seu cargo ou à empresa? Há alguma outra maneira de você se descrever? Você conversa sobre seu trabalho com as pessoas que acabou de conhecer?
  3. Onde você passa a maior parte do seu tempo? Alguém já reclamou sobre você passar muito tempo no escritório?
  4. Você tem algum hobby fora do trabalho que não envolva suas competências e habilidades relacionadas ao trabalho? Você consegue passar tempo exercitando outras partes do seu cérebro de maneira sistemática?
  5. Como você se sentiria se não pudesse mais continuar na profissão? Quão angustiante isso seria para você?

Se essas perguntas deixam você preocupado com o grau de influência que o seu trabalho exerce sobre sua identidade, há coisas que você pode fazer para começar a mudar. Você pode conseguir fazer isso sozinho ou com a ajuda de um terapeuta que entenda os desafios que as pessoas enfrentam em carreiras de alta pressão.

Libere seu tempo. Delegue tarefas no trabalho para liberar seu tempo e (de extrema importância) preencha esse tempo com atividades que não sejam relacionadas ao trabalho. Isso significa confiar mais em seus colegas, contratar um assistente virtual ou solicitar um estagiário ou um colega adicional para ajudar nas tarefas. Uma delegação eficaz requer deixar de controlar como o trabalho deve exatamente ser executado, o que é, por si só, um exercício saudável de comunicação e aceitação.

Comece aos poucos. Para as suas atividades fora do trabalho, comece aos poucos a fazer algum hobby que você tem interesse. Não é preciso se comprometer com algo em longo prazo; a ideia é começar a explorar coisas novas que você gostaria de agregar à sua vida e à sua identidade. Por exemplo, se você quer fazer mais exercício, não se inscreva numa maratona – comece indo para o trabalho a pé ou fazendo ginástica no horário do almoço uma ou duas vezes por semana. Pequenas mudanças como essas são fáceis de se manter, e com o tempo, podem resultar num ciclo virtuoso de melhoria e comprometimento.

Refaça o seu network. Faça contato com amigos e a família para revigorar seu círculo social. Você vai acabar se divertindo enquanto constrói uma rede de apoio para si mesmo. Mesmo que o contato seja por texto, e-mail ou telefone para conversar com as pessoas com quem você não tem falado há um certo tempo, pode ajudar no fortalecimento desses relacionamentos. Isso não exige muito; uma pesquisa recente sobre a amizade entre adultos mostrou que ter somente de três a cinco amigos está associado aos mais altos níveis de satisfação com a vida.

Decida o que é importante para você. Estabeleça e reavalie seus princípios e valores. O que é mais importante para você? Pense no que é importante na sua vida, e deixe que essas prioridades norteiem o caminho para a próxima etapa. Os terapeutas costumam lançar mão de um processo chamado “Clarificação de Valores” para ajudar os pacientes a refletir sobre o que é mais importante para eles. Esse processo implica em refletir na direção desejada em áreas como relacionamentos, comunidade, carreira e filhos, e classificá-los quanto ao seu grau de importância. Uma planilha formal pode ajudar, mas você pode começar por criar e atualizar uma lista já em andamento no seu telefone na medida em que você reflete sobre o que lhe é mais importante.

Vá além da titulação do seu cargo. Pense na reestruturação do seu relacionamento com sua carreira, não somente sobre a empresa ou o seu cargo, mas também sobre as habilidades que você poderia usar em diferentes cenários. Por exemplo, muitos psicoterapeutas que se desgastaram por seus clientes percebem que suas habilidades são claras para a gestão de recursos humanos ou para a orientação profissional.

A identificação nítida com sua carreira não é algo necessariamente ruim, mas ela torna você mais vulnerável a uma crise de identidade dolorosa caso você tenha um burnout, seja desligado ou se aposente. Pessoas nessas situações normalmente sofrem de ansiedade, depressão e desespero. Ao optar por ter um tempo para si mesmo e diversificar suas atividades e seus relacionamentos, você pode construir uma identidade mais equilibrada e sólida, em sincronia com os seus valores.

*Nome alterado para proteção da identidade


Janna Koretz é doutora em psicologia e fundadora da Azimuth, que realiza terapia com foco nos desafios singulares das pessoas em carreiras de alta pressão.

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