Negócios internacionais

O nível de inglês dos executivos pode prejudicar as teleconferências de resultados

François Brochet, Gwen Yu e Patricia Naranjo
10 de setembro de 2019

Os investimentos se tornaram globais. Obviamente, isso não é novidade, mas a extensão desse fenômeno pode surpreender. Atualmente, fundos estrangeiros contam com uma participação oito vezes maior em empresas listadas do que no ano 2000.

Para chegar até esse crescente grupo internacional de investidores e a análise que acompanha este mercado, muitas empresas estão migrando para a realização de teleconferências de resultados em tempo real. Os riscos são grandes: essas teleconferências normalmente geram grandes volumes de negociação e causam oscilações no valor da ação. Como consequência, os gestores, normalmente, fazem coaching para saber como conduzi-las, mas mesmo assim, muitos não entendem os fatores culturais essenciais que implicam na maneira como atendem às ligações, dando a entender que os números falam por si. No entanto, nosso trabalho mostra que isso não acontece.

Em dois estudos recentes, analisamos como os gestores discutem as notícias sobre finanças ao longo das teleconferências de resultados, especialmente durante a improvisada sessão de perguntas e respostas, e reconhecemos uma característica importante: mesmo quando as notícias realçadas são transmitidas , o que é um procedimento corriqueiro, os mercados costumam reagir de maneiras diferentes dependendo do idioma nativo e da cultura da pessoa que as repassa. A verdade é que o que importa nessas teleconferências não é o que está sendo transmitido, mas como.

As barreiras do idioma e o valor da empresa

De maneira irônica, a globalização requer uma padronização. Quer você queira ou não, quando o assunto é a comunicação no mundo dos negócios, o inglês ainda é o idioma padrão. Os executivos do mundo inteiro têm de falar inglês ao conversar com investidores, e um número crescente desses executivos não tem o inglês de um nativo da língua. O quão bem eles falem inglês é o que repercutirá de maneira significativa nas consequências no mercado de capitais.

Demostramos essa conclusão em um dos nossos estudos, ao analisar as transcrições de teleconferências feitas por mais de 4.500 empresas fora dos Estados Unidos, que as realizaram em inglês entre os anos de 2002 e 2010. Não analisamos a fase de apresentação das teleconferências uma vez que elas normalmente são criptografadas, mas nos concentramos nas respostas espontâneas dos gestores durante a sessão de perguntas e respostas.

Ao avaliar a clareza com a qual os gestores falavam durante as teleconferências, demos atenção especial a dois procedimentos.

O primeiro foi a complexidade linguística, a qual não se refere a uma linguagem sofisticada, mas sim, à frequência com que o orador transgrede os princípios do inglês fácil, conforme previsto na iniciativa Plain English (inglês fácil) de 1998 pela SEC (Securities and Exchange Commission, órgão similar à CVM no Brasil). Assumimos que os oradores se comunicariam de maneira clara se utilizassem frases e palavras relativamente curtas; se evitassem a voz passiva, expressões negativas, palavras supérfluas e os pronomes nós, nosso(s), você(s) e seu(s). Quando eles transgrediam esses princípios com frequência, classificávamos seu vocabulário como complexo.

O segundo que utilizamos foram expressões erradas, que mostravam quando os oradores cometiam erros gramaticais, usavam a voz passiva incorretamente e utilizavam artigos de maneira não usual. Esses dois fatores representam erros típicos de falantes não-nativos, conforme descrito na literatura. Falantes de países onde o inglês não é comumente utilizado tendem a cometer um número maior de erros como esses.

Quando analisamos os dados através de um modelo de regressão, vimos que a não utilização do inglês simples e o uso de expressões erradas – que classificamos como opacidade da linguagem – tiveram consequências reais. Ao analisar as notícias sobre os verdadeiros resultados, observamos que os executivos que tinham dificuldade para se comunicar sofreram várias consequências no mercado de capitais, como um volume de negociação inferior, restrições nas variações de preços e previsões inconsistentes dos analistas.

Para avaliar a importância desses efeitos na esfera econômica, nós os usamos como referência na criação de um guia de gestão de teleconferências, um outro fato importante para empresas. Com isso, o que descobrimos foi digno de nota: se você reduzir o nível de complexidade do idioma para um nível inferior ao padrão, é possível conseguir um aumento no volume de negociação se comparado ao lançamento de um guia de gestão de conferências para gestores.

Se isso faz você pensar em contratar um intérprete, pense melhor. Os intérpretes raramente têm o mesmo nível de entendimento sobre os princípios fundamentais de um negócio como os executivos têm, e grande parte das informações divulgadas numa teleconferência é transmitida com erros de tradução. Os dados abaixo comprovam: as teleconferências que usaram intérpretes mostraram níveis mais altos de complexidade linguística do que aquelas que não o fizeram. Essa é, provavelmente, a razão pela qual as empresas dificilmente têm intérpretes em suas teleconferências.

A barreira cultural e o valor da empresa

Atualmente as empresas levantam um montante considerável de capital em mercados internacionais. Consequentemente, é cada vez mais necessário que gestores e investidores de diferentes culturas precisem se comunicar de maneira eficaz.

Em um estudo publicado no exemplar mais recente do periódico The Accounting Review, avaliamos até que ponto a bagagem cultural dos gestores influenciava a maneira como se comunicavam com investidores. Baseando-se em pesquisas da cultura psicológica, começamos por supor que os executivos cujos ancestrais são mais individualistas (principalmente os anglo-saxões) usam uma linguagem mais otimista e autorreferencial do que aqueles com um ancestral mais coletivista (sobretudo pessoas do sudeste asiático). A fim de testar nossa hipótese, analisamos mais de 50 mil transcrições de teleconferências de resultados que continham respostas detalhadas de mais de 25 mil executivos – na maioria CEOs e CFOs, cuja etnia conseguimos deduzir pelos nomes, com base em inúmeros algoritmos amplamente utilizados. Contamos também com o trabalho realizado por Geert Hofstede para atribuir uma pontuação ao individualismo cultural para cada executivo.

Para auferir o otimismo (ou “tom”), para o qual várias literaturas constataram ser fortemente associado à contabilidade e ao desempenho da ação, analisamos a frequência com que os oradores fizeram uso de palavras de conotação positiva ou negativa no âmbito de negócios, e calculamos a diferença. Para auferirmos a autorreferência, utilizamos uma forma mais simples: contamos quantas vezes o orador utilizou a palavra “eu”.

Nossa resposta confirmou a hipótese principal. Quanto mais individualista a bagagem cultural dos executivos que estudamos, mais otimistas eram suas respostas aos analistas, e mais frequente era o uso da palavra “eu”. Tal fato se deu depois de analisar uma enorme quantidade de características das teleconferências de resultados realizadas por executivos, empresas, setor ou país – mais notadamente, os números financeiros em discussão.

A variação foi impressionante. Quando um executivo anglo-saxão e um chinês abordavam os mesmos resultados financeiros, a diferença no tom de voz tendia a ser a mesma da que poderia ser notada quando dois executivos com a mesma bagagem cultural discutem dois resultados extremamente diferentes, estando um deles entre os primeiros 10% da distribuição e o outro entre os 10% inferiores. (Isso corresponde a algo como o tom que os executivos eventualmente usam quando alguém está falando sobre a performance que superou a expectativa em vários centavos por ação e ao outro falando sobre a performance que caiu na mesma proporção).

A realização das teleconferências de resultados é novidade para alguns executivos estrangeiros, portanto é provável que a performance deles seja avaliada em algo próximo do que se classifica como falta de preparo. Não pense assim. Nossas constatações com relação a isso prevaleceram, de maneira silenciosa, mesmo quando analisamos empresas americanas e seus executivos: executivos americanos de origens diferentes da anglo-saxônica ainda demonstravam deter algumas marcas de sua ancestralidade cultural na maneira como se comunicavam, ainda assim menor do que se não tivessem sido expostos ao ambiente americano. Não tentamos determinar em que momento os executivos ou seus ancestrais imigraram para os Estados Unidos, mas outros estudos mostraram que a herança cultural persiste ao longo do tempo, sendo de difícil extinção mesmo ao longo de várias gerações.

Os investidores conseguem enxergar além das diferenças culturais? Normalmente não. Se um CEO anglo-saxão e um CEO oriental apresentam resultados que atingem as estimativas das empresas da Wall Street, o CEO anglo-saxão se expressará com uma reação mais positiva ao valor da ação do que os orientais, e o mercado reagirá com otimismo ao tom expressado pelo gestor anglo-saxão. Isso significa que, os executivos provenientes de culturas que fazem uso de poucas palavras de otimismo podem não ganhar votos de confiança para o desempenho mais recente da empresa.

A única exceção foi para com investidores que tinham uma bagagem cultural igual à dos gestores da empresa. Esses investidores foram capazes de interpretar as nuances do tom cultural e alinhar as respostas às teleconferências conforme necessário. Ter um investidor que entenda a sua empresa além dos simples números da performance é importante.

Curiosamente, identificamos diferenças parecidas entre CEOs e CFOS e entre homens e mulheres. Quando não consideramos a etnia, vimos que os CEOs e os gestores utilizam uma linguagem relativamente mais otimista e de autorreferência do que CFOs e gestoras.

Embora diferentes, ambas as análises que discutimos no artigo chegam à mesma conclusão: As teleconferências de resultados são importantes e têm sua importância por razões diferentes daquelas que a maioria das pessoas acreditam. As notícias transmitidas em teleconferências são indubitavelmente importantes – como também é a maneira como as teleconferências são realizadas, principalmente durante a sessão de perguntas e respostas. Dado que a língua inglesa e a conduta anglo-saxônica ditam as regras no mundo corporativo global, os executivos que realizam essas teleconferências precisam ter a certeza de que sabem comunicar as notícias de maneira clara, otimista e autorreferencial.


François Brochet é professor adjunto de contabilidade e aluno do reitor no programa de pesquisas da Questrom School of Business da Boston University.


Gwen Yu é professor adjunto de contabilidade da Arthur Andersen na Ross School of Business da University of Michigan.


Patricia Naranjo é professora adjunta de contabilidade da Jones Graduate School of Business na Rice University.

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