Gestão pessoal

O equilíbrio entre o trabalho e os cuidados com os idosos em meio à crise do Coronavírus

Liz O'Donnell
1 de abril de 2020

Amy Carrier é diretora de uma fundação e casada à distância. Sua mãe, de 74 anos, mora com ela e tem Alzheimer.

Mesmo em dias normais, sua vida é complicada. Amy emprega duas cuidadoras para ajudar sua mãe enquanto ela está no trabalho na Oregon State University Foundation, onde supervisiona uma equipe de dez pessoas. Quando chega em casa, ela assume as tarefas: faz o jantar, controla a medicação e ajuda a mãe a lidar com as roupas e controlar a televisão. Seu marido mora e trabalha em New Rochelle, no estado de Nova York.

Em meio à crise do Coronavírus, sua vida se tornou muito mais complexa.

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Como muitas pessoas, Amy está trabalhando em casa, pelo menos até o final de abril e, talvez por mais tempo. Seu marido está em auto quarentena em Nova York. Uma das cuidadoras da sua mãe tem um filho doente e, por isso, não pode vir. Não é de se surpreender que Amy se sinta sobrecarregada.

“Este é um grande desafio”, diz Amy, sobre como trabalhar de casa enquanto cuida de sua mãe, preocupa-se com o seu marido, e administra auxílios externos.

Enquanto muita atenção vem sendo dada nos últimos dias às dificuldades dos pais para tentar lidar com suas responsabilidades profissionais e as aulas dos filhos – cujas escolas foram fechadas – em casa, há também milhões de pessoas que tentam conciliar o trabalho e o cuidado com as pessoas idosas em meio ao surto do Covid-19.

Algumas pessoas, como Amy, tentam trabalhar de casa com o pai ou a mãe doente, que requerem atenção. Outras deixaram de permitir que auxiliares e profissionais da saúde entrassem em sua residência por medo da exposição ao Coronavírus. Muitas pessoas estão na ativa sob um estresse constante, impossibilitadas de se comunicar com pais que estão em quarentena em casas de saúde e em locais de moradia supervisionada.

Para os filhos que trabalham, estabelecer limites, utilizar a tecnologia e estabelecer rotinas, pedir flexibilidade (e um pouco de complacência) e administrar o seu bem-estar será indispensável. Enquanto muitas dessas recomendações são similares ao que os pais trabalhadores conseguem e devem fazer, outras são exclusivas para os filhos trabalhadores.

Primeiramente, prepare seus pais para se sentirem bem. Seus pais idosos provavelmente estão tão tensos quanto você nesse momento. Mesmo que não estejam assistindo ou escutando a enxurrada de más notícias, muito provavelmente percebem seu estado de espírito e o dos outros à sua volta. Eles podem estar preocupados com o seu bem-estar – afinal de contas, são seus pais – e não querem ser um fardo para você! Faça o possível para não só se comunicar com eles, mas também criar um dia calmo e previsível a fim de que você possa gerar tempo para realizar seu trabalho.

Se eles não conseguem entender exatamente o que está acontecendo, explique de maneira simples. Se você mora com eles, encontre um tempo para estabelecer uma conexão antes de começar a trabalhar. Se eles moram em outro lugar e você não pode visitá-los por medo de espalhar o vírus, ou porque o local de moradia deles não permite visitas, pense na utilização de tecnologias alternativas – como chamadas por voz ou vídeo – para se manterem em contato. Para alguns, o telefone é um desafio por conta do declínio cognitivo, problemas relativos à destreza, ou perda de audição ou visão. No entanto, produtos como o Grandpad – da Consumer Cellular – ou o Echo, da Amazon, podem ajudar, pois você ou a equipe de suporte do fabricante podem, de maneira remota, auxiliar na configuração e na operação.

As rotinas também são importantes. Da mesma maneira que muitos pais e mães que trabalham estão tentando estabelecer de casa horários de acordo com o calendário da escola, os filhos que trabalham devem, também, fazer o possível para criar uma estrutura para seus pais idosos. Aqueles que estão em casas de saúde já devem dispor disso. Entretanto, você também pode elaborar uma agenda diária em sua casa. Se seu pai ou mãe sabem a hora em que irão se vestir, tomar os remédios, se alimentar e realizar algumas atividades – como assistir à TV ou fazer exercícios – eles provavelmente ficarão menos preocupados e não irão interromper seu trabalho.

Além da rotina, tente observar as atividades pelo ponto de vista de seus pais. A Amy descobriu que tem de trabalhar sem ser avistada para não interromper a rotina da mãe. “Houve ocasiões em que tive de me sentar à mesa da sala de jantar para atender a ligações, o que distraía muito a mamãe”, afirma. “Ela acha que está me incomodando; então, desliga a televisão e vai se esconder no quarto.”

Se seus pais vão assistir a um programa enquanto você trabalha, o volume está adequado para que eles possam ouvir? O controle remoto está próximo? Eles têm água ou um lanche à disposição? Se eles gostam de ler e sabem mexer nos aparelhos, você pode dar um tablet a eles para que tenham uma gama de opções para escolher? O mais importante: eles têm como pedir socorro a você caso precisem?

Em segundo lugar, estabeleça limites. Avise seus pais que, embora eles saibam que você está em casa e a vida esteja um pouco diferente, suas responsabilidades para com o trabalho não mudaram. A menos que tenham se aposentado recentemente, eles não tiveram acesso a laptops, smartphones, e nem a chamadas por videoconferência quando trabalhavam; portanto, a ideia de realizar trabalho importante fora do escritório pode ser algo confuso.

Se seus pais moram com você, dê sinais que os lembrem de quando você não pode ser interrompido: você está trabalhando com a porta fechada, usando fones de ouvido, ou trabalhando no computador, por exemplo.

Diminua as interrupções, discutindo o que justifica um chamado deles, e o que não justifica. Se seus pais sofrem de incontinência urinária, peça a eles que o chamem, independentemente do que você estiver fazendo caso precisem ir ao banheiro. Se correm risco de queda, você pode optar por pedir que avisem a cada vez que quiserem subir ou descer as escadas. A mãe de Amy não pode realizar tarefas sozinha; então, as cuidadoras fiam com ela durante todo o dia. Entretanto, quando Amy está sem as cuidadoras, ela conta com várias câmeras instaladas em casa, inclusive com uma que fica fora do quarto da sua mãe e envia uma mensagem caso ela saia do quarto. 

Se seus pais não moram com você e sabem manusear um telefone, avise-os que você continua trabalhando durante a crise e os relembre do horário em que você pode atender a ligações, bem como o que seria uma interrupção de emergência, e o que não. Garanta que seus irmãos e as cuidadoras também saibam disso.

É claro que, se seus pais têm demência ou qualquer outra diminuição cognitiva, entenda que é provável que eles não consigam respeitar esses limites. Nesse caso, você pode, de forma sutil, repeti-los conforme necessário.

Terceiro, comunique-se continuamente com colegas e gestores. Embora possa parecer um conselho padrão para qualquer pessoa trabalhando de forma remota, ele é de extrema importância para aqueles que têm responsabilidades para com o cuidado de idosos, pelo fato de essas atividades serem, em geral, invisíveis para seus colegas. É muito mais frequente e confortável que as pessoas falem de seus filhos no trabalho do que conversem a respeito dos pais idosos ou doentes. Portanto, você não pode esperar que seu chefe ou seus colegas conheçam ou entendam sua situação.

Os cuidados para com idosos são altamente imprevisíveis e, portanto, podem causar interrupções no seu dia de trabalho, principalmente se você está cuidando de alguém com demência. Sendo assim, informe seus colegas da sua situação e peça solidariedade durante esse período. Caso você precise ficar offline, perder uma ligação ou sair de uma reunião online, faça-o. Em seguida, procure se atualizar sobre o que você perdeu e informe qualquer novidade relacionada ao seu trabalho assim que possível.

“Eu tenho estado mais aberta do que possivelmente era desde que minha mãe veio morar comigo,” afirma Amy. E por falar nisso, ela descobriu que muitos outros colegas de trabalho têm responsabilidades e preocupações similares, seja para com seus pais ou com os parentes do marido. E eles dão bastante apoio. “Eles dizem, ‘Nossa, que difícil!’, ou “se você precisar de alguma coisa, não se acanhe em pedir.”

Por fim, observe sua saúde. Em tempos normais, as palavras “Você tem de se cuidar” são, provavelmente, as cinco palavras mais irritantes que um cuidador ouve. Você provavelmente sabe que cuidadores têm mais probabilidade do que a população em geral de dizer que mal conseguem controlar o estresse ou dormir o suficiente. O que você provavelmente não consegue descobrir é como ou quando fazer isso. Contudo, especialmente durante essa crise, sua habilidade em continuar ganhando a vida enquanto cuida dos pais idosos é uma condicional para o seu próprio bem-estar. Agora é a hora de limitar a absorção de notícias negativas, hidratar-se, tomar um ar, e acrescentar a meditação, pequenas caminhadas ou yoga à sua rotina. Beber água é a coisa mais simples que você pode fazer para se cuidar. Ela aumenta o nível de energia ao ajudar o sangue a transportar oxigênio e outros nutrientes para as células. E caminhadas, meditação e yoga auxiliam no relaxamento, o que ajuda você a dormir à noite.

A Amy confessa que está inclinada a persistir. “Meu enfoque é atravessar o dia hoje. Amanhã é outro dia.”  Neste último final de semana, num esforço para relaxar, ela ficou duas horas fazendo jardinagem. Sua mãe ficou sentada lá fora com ela, entretida com um livro. 

Saiba que nos dias e semanas que estão por vir, seus esforços para equilibrar os cuidados com os idosos e a carreira não serão perfeitos, mas tudo bem. Saiba, também, que quando sairmos desta crise, a função de cuidador, ao dar atenção na linha de frente não só para as crianças, mas também para os cidadãos mais velhos, não mais será invisível.


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Liz O’Donnell é fundadora da Working Daughter, uma comunidade destinada às pessoas que contrabalanceiam os cuidados com os idosos e a carreira, e é autora do livro Working daughter: a guide to caring for your aging parents while making a living (Rowman & Littlefield, 2019.)

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