Economia

O Brexit já está afetando os negócios no Reino Unido – veja como:

Nicholas Bloom, Philip Bunn, Scarlet Chen, Paul Mizen, Pawel Smietanka e Gregory Thwaites
25 de março de 2019

Os “choques de incerteza” ao longo da história – como os ataques em 11 de setembro, o aumento do preço do petróleo pela OPEP, ou o assassinato do Presidente John F. Kennedy – deram origem a um aumento de incertezas que enfraquecem rapidamente. Os mercados ficam sabendo do que aconteceu e normalmente ganham mais confiança com o tempo.

Leia também:

Prospere na “economia sob demanda”

As cidades costeiras estão cada vez mais vulneráveis, assim como a economia que depende delas

Com o Brexit tem sido diferente. O nível de incerteza aumentou significativamente depois de o Reino Unido votar a favor de sua saída da União Europeia, em junho de 2016. Tal incerteza persistiu e, quanto mais tempo passava sem um acordo versando as condições sob as quais o Reino Unido se retirava, as empresas continuavam sem saber se um acordo realmente iria vigorar, sob quais condições e se haveria um segundo referendo público. A analogia histórica mais nítida que desencadeou num longo período de incertezas foi a Grande Depressão, que começou com a queda da Bolsa de Valores em 1929 e gerou uma incerteza contínua até 1932.

O Brexit foi, primeiramente, um choque político contra um choque econômico – totalmente inesperado. Como foi amplamente debatido, durante as semanas que antecediam a eleição, oponentes diziam que a probabilidade de o Brexit acontecer estava em torno de 30%, mas nunca acima de 40% (Bell(2016)).

Um terceiro exemplo de que o Brexit é um tipo raro de choque de incertezas é que há inúmeros fatores difíceis para as empresas enumerarem. Por exemplo, há incertezas relacionadas às formas de como o Reino Unido sairá da União Europeia, como ficará a relação com à UE em longo prazo, como será a transição do Reino Unido, os significados de tudo isso para fins de acesso ao mercado, a disponibilidade de trabalho para imigrantes, regulamentação de produtos e, por fim, no que tudo isso implica para o futuro das empresas individuais.

As métricas para incertezas que são comumente utilizadas apresentam mensagens conflitantes com relação às incertezas desde o referendo da UE. A quantidade de medidas baseadas na mídia atingiram altos níveis sem precedentes, ao passo que houve pouca elevação de outras métricas, como a volatilidade da bolsa de valores. Este fato, aliado à natureza do choque de incerteza do Brexit, mostra que novas medidas serão necessárias.

Para entender melhor as incertezas geradas pelo Brexit, nossa equipe do Bank of England, University of Nottingham e Stanford University está conduzindo o Decision Maker Panel (Painel para Tomada de Decisões, em tradução livre), um levantamento com cerca de 7.500 executivos no Reino Unido, coletando  dados sobre de que forma as empresas dizem estarem sendo impactadas pelo Brexit e em variáveis como vendas, preços, investimentos e empregabilidade. Esse levantamento é feito mensalmente para auxiliar as empresas em tempo real e pode ser utilizado para avaliar o impacto do Brexit e a incerteza a ele atrelada ao comparar o desempenho das empresas que são mais e menos afetadas.

Chegamos à conclusão de que o Brexit tem se mostrado uma fonte importante de incertezas para muitas empresas do Reino Unido. Temos a estimativa de que tal fato reduziu investimentos em 6% nos dois primeiros anos depois do referendo, com redução na taxa de empregabilidade em 1.5%. É provável que o Brexit reduza a produção no Reino Unido em aproximadamente 0,5% como efeito do desempenho da produção sendo realocado da alta produtividade para a baixa produtividade. A maioria das empresas prevê que o Brexit irá reduzir o volume de vendas e aumentar os custos em longo prazo.

Respostas obtidas de um levantamento feito pelo Decision Making Panel nos apresentam quatro resultados de como o Brexit está afetando os negócios no Reino Unido.

Ele é uma importante e crescente fonte de incertezas para empresas.

Em agosto de 2016, em resposta à pergunta “Até que ponto o resultado do referendo da UE impactou o nível de incertezas para seu negócio?”, 36% dos CEOs e CFOs mencionaram o Brexit como uma das três maiores fontes de incertezas atuais. Na época, 9% disseram que o Brexit era o fator mais relevante e 27% afirmaram ser a segunda ou a terceira causa da incerteza, mas não a principal.

Várias rodadas de perguntas mostram que as empresas colocam o Brexit em primeiro lugar na lista da origem das incertezas, e que os resultados mostrados desde 2018 indicam um aumento dessa incerteza oriunda dele. A parcela de empresas afirmando que o Brexit é um dos três causadores de incertezas aumentou de 36% em agosto de 2016 para 54% no período entre novembro de 2018 e janeiro de 2019, incluindo a parcela que achava que ele era a origem principal de incertezas, subindo de 9% para 23%.


 

 

Legenda:

O sentimento de incerteza das empresas para com o Brexit está aumentando

Mais de 50% dos executivos entrevistados no Reino Unido atualmente dizem que esta é a primeira incerteza numa lista de três.

Horizontal:

  • Fonte de incerteza principal
  • 2ª ou 3ª fonte de incerteza
  • Uma fonte em várias
  • Irrelevante

Vertical:

% dos executivos entrevistados

Origem: Respostas obtidas pelo estudo realizado pelo Decision Maker Panel com 3 mil executivos britânicos, por Nicholas Bloom et al.

 

As empresas acreditam que, com o tempo, o Brexit cause diminuição nas vendas dentro e fora do Reino Unido, gerando um aumento nos custos.

O gráfico abaixo mostra os efeitos que as empresas acreditam sofrer – por conta do Brexit – nas vendas, nas exportações e nos custos. Em média, elas imaginam que o Brexit irá impactar na redução de suas vendas em cerca de 3% em longo prazo. Era esperado que os efeitos nas exportações seriam negativos e esperava-se um aumento nos custos por unidade, de mão de obra e de financiamento.

 

Legenda:

Impacto do Brexit previsto nas empresas britânicas

Executivos britânicos preveem menos vendas e exportações e custo mais altos

Vertical:

  • Vendas
  • Exportações
  • Custo por unidade
  • Mão de obra
  • Custos de financiamentoHorizontal
  • Impacto esperado (%)

Nota: os participantes responderam sobre o impacto do Brexit previsto em longo prazo nas exportações, bem como na mão de obra, preço por unidade, e custos de financiamento em 2020 ao fazerem estudos de probabilidades para as variáveis pré-definidas. As estimativas acima foram calculadas com o uso de médias dessas variações, multiplicadas pelas probabilidades correspondentes.

Fonte: Análise das respostas de 3 mil executivos britânicos dadas num levantamento recente feito pelo Decision Making Panel, por Nicholas Bloom et al.

 

O Brexit já causou redução nos investimentos e impactou a geração de empregos.

Para calcular o impacto, estudamos as mudanças nos investimentos e na empregabilidade nas empresas que estão mais – ou menos – ameaçadas pelo Brexit, seja por conta das incertezas, seja pelo impacto previsto nas vendas. Pode haver outros fatores originados de ambos os canais mencionados acima, mas até o ponto em que é possível diferenciá-los através da pesquisa de dados, verificamos que os efeitos mais significativos até o presente momento vieram da incerteza. O próximo gráfico mostra as empresas que enxergam o Brexit como uma importante fonte de incertezas têm tido investimentos inferiores desde o referendo, se comparadas àquelas que veem a incerteza perante o Brexit com menor importância.

Utilizamos um estudo de Regressão diferenças em diferenças sobre os dados do levantamento pós-referendo em conjunto com dados obtidos de anos anteriores para mensurar o efeito que a incerteza do Brexit causou no aumento de investimentos e na empregabilidade nas empresas. Com base nisso, avaliamos que a incerteza para com o Brexit estava atrelada ao investimento mais baixo de cerca de 6% no primeiro ano depois do referendo (entre julho de 2016 e junho de 2017). Também avaliamos que a taxa de empregabilidade diminuiu cerca de 1,5%, causando um efeito maior no segundo ano após o Brexit (julho de 2017 e junho de 2018) do que no primeiro.

A influência do Brexit no aumento dos investimentos nas empresas britânicas

Executivo que afirmam que o Brexit está entre as três principais fontes de incertezas já viram investimentos menores, se comparados aos executivos que dizem que o Brexit não tem tanta relevância.

Vertical:
Crescimento Anual nos investimentos

No gráfico:
– Menos importantes
– As 3 fontes mais importantes

Fonte: Análise das respostas de 3 mil executivos britânicos a um levantamento recente realizado pelo Decision Making Panel, por Nicholas Bloom et al.

É provável que o Brexit leve a um baixo crescimento na produtividade do Reino Unido no futuro.

As empresas que compõem a economia do Reino Unido e exportam mercadorias e serviços para a UE, importam materiais e empregam mão de obra da UE são as que mostraram mais incertezas e esperam que o Brexit cause, ao longo dos anos, um efeito contrário nas vendas. Estas empresas que estão mais expostas ao mercado internacional tendem a ter maior produção do que a média das empresas. As que têm maior produção calculam que o efeito do Brexit nas vendas, em longo prazo, seja mais negativo do que para aquelas que têm menor produção.

Caso o Brexit afete os resultados das empresas de maior produção em maior escala do que o das empresas de menor produção, tal fato causará uma produção média menor através do efeito do desempenho médio na produção. Nossas previsões indicam que o efeito dessa realocação poderá diminuir o nível de produtividade no Reino Unido em cerca de 0,5%. Considerando o fato de que a economia do Reino Unido teve um baixo crescimento na produtividade nos últimos 10 anos (cerca de 1% nos últimos anos), esse efeito vale por meio ano de crescimento na produtividade.

 

As empresas mais produtivas preveem a maior queda nas vendas em razão do Brexit.

O nível de produção total poderá diminuir no Reino Unido em 0.5%, o que equivale a 6 meses de crescimento

Vertical
Mais <- Impacto previsto nas vendas -> Menos

Cada círculo representa 5% das empresas participantes dessa análise

Horizontal
Baixo – Resultado por colaborador (£ mil, registrado) -> Alto

Nota: Este gráfico foi elaborado através do agrupamento da produção das empresas em 20 contêineres de mesmo tamanho, calculando a média das variáveis dos eixos “x” e “y” em cada contêiner e registrando os valores.

Fonte: Análise das respostas de 3 mil executivos britânicos a um levantamento recente realizado pelo Decision Making Panel e dos dados da Bureau van Diik FAME , por Nicholas Bloom et al.

Há três anos os países vêm acompanhando e têm se questionado se o Brexit realmente vai vigorar e, caso positivo, sob quais condições. Ainda assim, o nível de incerteza tem persistido e, nos últimos meses, aumentou. Nossos estudos indicam o custo dessa incerteza na forma de investimentos que não aconteceram e baixo nível de empregabilidade. Caso o Reino Unido chegue a um acordo, investimentos que foram postergados podem acontecer. Porém, caso o Reino Unido decida não chegar a nenhum acordo relativo ao Brexit, ou opte por um segundo referendo, não só o nível de incerteza poderá aumentar, como também os custos.  Adicionalmente, ao mesmo tempo que os principais efeitos do Brexit parecem ter surgido da incerteza até o presente momento, as empresas preveem que o Brexit causará redução nas vendas em longo prazo, o que provavelmente afetará investimentos, a empregabilidade e a produção.

Bloom e Mizen receberam a quantia padrão no valor de £683.636 do ESRC (Economic and Social Research Council) por “Avaliar o Impacto do Brexit nos investimentos, na produção, nas vendas e na empregabilidade do Reino Unido”. A quantia irá subsidiar um levantamento e uma pesquisa feitos online sobre o impacto do Brexit no Reino Unido por três anos – de 1º de setembro de 2017 a 31 de agosto de 2020. O projeto está sendo executado com a colaboração do Bank of England, the Universities of Nottingham (Reino Unido) e Stanford (EUA).


Nicholas Bloom é professor de Economia da William Eberle da Stanford University e codiretor do programa de Produtividade, Inovação e Empreendedorismo da National Bureau of Economic Research (NBER).


Philip Bunn é economista Sênior no Bank of England.


Scarlet Chen é candidata a PhD em economia na Stanford University.


Paul Mizen é professor de economia na University of Nottingham.


Philip Smietanka é economista e pesquisador no Bank of England.


Gregory Thwaites é diretor de pesquisas na WorldRemit, pesquisador assistente na Resolution Foundation, e Visitante no LSE Center for Macroeconomics.

 

Compartilhe nas redes sociais!