Gênero

Quatro maneiras para mulheres construírem relacionamentos quando se sentem excluídas no trabalho

Brenda F. Wensil e Kathryn Heath
31 de agosto de 2018
como mulheres podem construir relacionamentos no trabalho

Um amigo nosso recentemente teve um insight. Estava andando pelo bar em um clube de golfe particular, procurando por um colega com quem iria jantar. O bar, com painéis escuros, estava repleto de homens e todos pareciam se conhecer. Will não era membro do clube e sentiu-se um pouco deslocado. Quando encontrou seu amigo e foram se sentar, ficou mais à vontade. Então, olhou ao redor e notou que cerca de apenas cinco das 35 pessoas no salão eram mulheres. Mesmo se fossem membros do clube, elas se destacariam no cenário predominantemente masculino. Ele poderia passar despercebido facilmente. As mulheres não tinham esse luxo.

Bem-vindos a nosso mundo. Como mulheres executivas, às vezes, é difícil para nós nos encaixarmos, mas mesmo assim, precisamos estar nessa situação.

Normalmente, existem duas maneiras de realizar o trabalho. Uma delas é explícita, consagrada e formalizada: o processo específico que usamos para fazer nosso trabalho todos os dias. Descrições de cargos, itens de agenda, expertise e hierarquia ditam como esse trabalho é feito e como são tomadas as decisões formais. O outro modo é informal, repleto de nuances e baseado em relacionamentos. Envolve a melhora nas relações humanas, a manobra corporativa, a proximidade física aos tomadores de decisão e a influência pessoal e profissional dentro do escritório e fora dele, em reuniões informais. Embora as duas maneiras sejam importantes, percebemos em nosso trabalho ao orientar mulheres executivas que elas se esforçam extremamente mais do que os homens para aproveitar as situações informais de networking profissional. Parte do problema é sistêmico: quando os homens saem juntos depois do trabalho, as mulheres geralmente não são convidadas. Oitenta e um por cento delas afirmam sentir esse tipo de exclusão social no trabalho. Com base em relatórios publicados, esse problema se intensificou ainda mais à medida que o movimento #MeToo (#EuTambém) cresceu, com os homens dizendo que se sentem mais hesitantes em se relacionar socialmente com colegas do sexo feminino por temerem que seus motivos possam ser questionados. Muitos homens que conhecemos ou com quem trabalhamos revelaram que essa é uma preocupação genuína para eles nos dias de hoje.

A outra questão é que as próprias mulheres, muitas vezes, não podem ou não querem se relacionar socialmente depois do trabalho ou durante o expediente. Mantêm o foco no trabalho para maximizar seus esforços e, então, sentem a pressão de voltar para casa a fim de passar tempo com a família (e, quase sempre, começar o “turno da noite” por cozinhar, lavar roupa, ajudar na lição de casa dos filhos e colocá-los para dormir). Muitas de nossas clientes relataram problemas como: Não tenho tempo para sair com o grupo. De qualquer forma, nada se resolve nessas interações. É tudo política.

Apesar da lógica, o resultado é o mesmo: a construção de menos relacionamentos limita o acesso das mulheres ao apadrinhamento e diminui as chances de progresso na carreira. O desenvolvimento de relacionamentos informais é um dos fatores mais importantes para que as mulheres possam avançar na carreira. Com nosso sustento em jogo, precisamos melhorar essa dinâmica.

Ao nos comprometermos com uma combinação viável de construção de relacionamentos informais dentro e fora do escritório, podemos ampliar nossos esforços e desenvolver uma influência genuína com colegas de cargos mais altos e tomadores de decisão. Veja como:

Promova as normas informais. Seu local de trabalho tem uma cultura do café? As pessoas se reúnem para jogar cartas ou tomar uma bebida depois do expediente? Conhecer os rituais sociais que definem a empresa em que você trabalha torna os relacionamentos mais fáceis de administrar. Não há necessidade de conseguir um almoço na agenda, por exemplo, se você sabe que o vice-presidente executivo está na fila do Starbucks todas as manhãs, às 7h. Não importam os detalhes, aproveite essas oportunidades simples para se relacionar.

Da mesma forma, examine as relações sociais mistas que são a base de sua organização. Talvez você perceba que o pessoal da tecnologia senta-se junto nas reuniões de equipe ou que as mães jovens encontram-se no parque aos domingos. Mesmo que você não se encaixe em nenhum desses grupos, só o fato de saber quem se encaixa em qual pode revelar os funcionários que têm um relacionamento mais próximo. Isso também se aplica às ferramentas de networking que usam. Saber como as pessoas se relacionam permite que você faça contato com elas mais facilmente.

Torne o tempo mais significativo. Limitações reais de tempo constituem a razão mais comum para as mulheres dispensarem o jantar com os colegas ou não comparecerem a eventos de trabalho “opcionais”. Por isso, é crucial maximizar o tempo que temos. Por exemplo, chegue cinco minutos antes das reuniões e inicie uma conversa. Caminhe até o metrô com alguém que você sabe que faz o mesmo caminho que o seu. Uma executiva editorial talentosa que orientamos chega ao escritório dez minutos mais cedo todas as manhãs e caminha pelo prédio. Às vezes, ela tem uma programação; outras vezes, simplesmente para a fim de conversar com quem estiver andando por lá. Sempre encontra alguém pelo caminho e descobre as novidades. Se ela vai apresentar um novo projeto na reunião da semana seguinte, recebe um feedback antecipado e estará mais preparada para a apresentação. O objetivo é tornar seu tempo mais significativo usando-o para formar conexões. O fluxo informal de informações é poderoso.

Fique à vontade. A construção de relacionamentos não precisa ser feita de uma única maneira. Não se force a aprender a jogar tênis, se não é o que você gosta. Pense no que você gosta —  ópera, esportes com bola, degustação de vinhos, restaurantes da moda —  e convide alguns colegas para acompanhá-la na diversão. Se você é introvertida, não faça isso sozinha. Conheça alguns colegas de trabalho e vá à festa da empresa com eles. É bom ter companhia para interagir com as pessoas. O mesmo se aplica à socialização informal. Não precisa ser um evento para o qual você convide apenas uma pessoa. Reunir um grupo para tomar alguns drinques ou jantar facilita a conversa com alguém que você não conhece. Muitas mulheres preferem convidar colegas e seus cônjuges ou parceiros para sua casa, em vez de se reunirem sozinhas ou saírem para jantar em grupo. A maioria de nós fica mais à vontade no próprio território.

Fazê-lo a seu modo deixa você mais à vontade e permite que as pessoas a conheçam de uma forma que pode mudar a percepção que tenham a seu respeito.

Olho no olho. Não são apenas os adolescentes que não conseguem tirar os olhos dos smartphones; as telas nos privam das valiosas interações cara a cara. Essa é fácil: pare de se esconder atrás de seu telefone. Olhe as pessoas nos olhos e fale com elas, seja antes do início da reunião, no caminho para o almoço, nas escadas ou no elevador. O simples fato de estar totalmente presente ajudará você a criar muitas relações importantes.

Como mulheres, precisamos continuar trabalhando juntas a fim de pensar em novas soluções para esse velho problema. Quanto mais alto chegarmos nas organizações, mais importantes se tornarão as interações informais. Independentemente do local ou da atividade, a construção de relacionamentos é apenas outra parte do trabalho.
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Brenda F. Wensil é sócia da Flynn Heath Holt Leadership.
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Kathryn Heath é diretora da Flynn Heath Holt Leadership. É coautora do livro The influence effect: a new path to power for women.
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Tradução: Kelly Xavier

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