Liderança

Se você almeja ser um grande líder, esteja presente

Rasmus Hougaard e Jacqueline Carter
22 de fevereiro de 2018
presente

Há alguns anos, trabalhamos com o diretor de uma multinacional farmacêutica que vinha recebendo avaliações ruins em relação à sua efetividade em comprometimento e liderança. Embora tivesse tentado mudar, nada parecia resolver. Conforme sua frustração aumentava, passou a marcar o tempo que passava com cada um de seus subordinados — e todas as vezes que recebia uma avaliação ruim, pegava esses dados e exclamava: “Mas olhe quanto tempo passei com cada um”.

As coisas começaram a melhorar quando ele começou a adotar práticas de mindfulness (atenção plena, em tradução livre) diariamente por dez minutos. Após alguns meses, as pessoas passaram a achá-lo mais atraente, agradável de trabalhar junto e inspirador. Ele ficou surpreso e orgulhoso com os resultados. A verdadeira surpresa? Ao olhar sua planilha de registro de tempo, observou que, em média, estava passando 21% menos tempo com sua equipe. A diferença? Ele realmente estava presente.

Ele passou a entender que embora estivesse na mesma sala com outra pessoa, não estava sempre inteiramente presente; preocupava-se com outras atividades e deixava sua mente desviar-se para outras coisas. E, principalmente, começava a escutar sua voz interior quando alguém estava falando. Por conta de sua falta de atenção, as pessoas sentiam que não estavam sendo ouvidas e ficavam frustradas.

Nossas vozes interiores são os comentários que fazemos durante nossas atividades. Elas normalmente dizem coisas como: “Gostaria que ele parasse de falar”, ou “Sei o que ela vai dizer agora”, ou “Já ouvi isso antes”, ou “Será que o Joe respondeu minha mensagem?”.

Para verdadeiramente envolver outros seres humanos e criar relações significativas, precisamos silenciar nossas vozes interiores e estar completamente presentes — e ser mais plenamente atento pode ajudar.

Como parte da pesquisa para nosso próximo livro, The Mind of the Leader, entrevistamos mais de mil líderes que apontaram que ser mais plenamente atento é a estratégia ideal para cativar sua equipe, criar melhores relações e melhorar o desempenho.

Outras pesquisas corroboram isso. Em um estudo com 2 mil empregados, a Bain & Company descobriu que entre 33 características de liderança — incluindo a criação de objetivos atraentes, expressão de ideias de modo claro e ser aberto a sugestões — a capacidade de ser plenamente atento (também chamado de centeredness) é a mais importante de todas.

Estudos também sugerem que há uma correlação direta entre líderes que se valem da atenção plena e o bem-estar e o desempenho de suas equipes. Em outras palavras, quanto mais presente o líder, melhor será o desempenho dos empregados.

Tomando nosso trabalho como base, apresentamos a seguir algumas dicas e estratégias que podem ajudá-lo em sua busca para ser mais presente no seu dia a dia.

Esteja presente
Como todos CEOs, Dominic Barton, diretor executivo global da McKinsey & Company, tem um cronograma diário de consecutivas reuniões. Todas são importantes, incluem informações complexas e a maioria delas exige a tomada de decisões de grandes repercussões. Sob tais condições, estar presente o tempo todo, reunião após reunião, é um desafio. Mas de acordo com a experiência de Barton, estar atento não é uma escolha — é uma necessidade.

“Quando estou com as pessoas durante o dia, faço o melhor para ficar concentrado, fico atento a eles”, ele nos contou. “Em parte, consigo isso porque estar junto das pessoas é algo que me estimula. Mas outra razão é porque se você não está concentrado, não está presente, isso desencoraja os demais. Eles deixam de ficar motivados. Se você não está atento, acho que nem vale a pena fazer a reunião. Algumas vezes pode ser algo muito difícil de se conseguir, mas é sempre importante”.

A pessoa na sua frente não sabe com o que você estava lidando há um instante, e nem deve; é sua responsabilidade aparecer e estar completamente presente para usar de modo eficiente o tempo limitado que tem com cada pessoa com quem se reúne.

Barton acredita que ser plenamente atento exige disciplina e habilidade. É preciso disciplina para ficar concentrado na tarefa, não se deixando afetar por desafios persistentes e irritantes ou se distrair com as vozes em sua cabeça. E exige habilidade para ter a capacidade mental de ficar altamente focado e presente. Quando ele consegue se mostrar atento ao longo de todo o dia, sente-se profundamente satisfeito. Estar presente torna-se a pedra fundamental para tirar o máximo de cada interação com as pessoas.

Prepare-se para estar presente
Durante a década em que foi CEO da Campbell Soup Company, Doug Conant desenvolveu rituais para se relacionar física e psicologicamente com as pessoas de todos os níveis da empresa, chamados por ele de touchpoints (pontos de contato, em tradução livre).

Todas as manhãs, Conant deixava um longo período de seu tempo para andar pela fábrica cumprimentando as pessoas e os conhecendo. Ele memorizava seus nomes e os nomes dos membros de suas famílias. Interessava-se de fato por suas vidas. Também escreveu, à mão, cartas de agradecimento reconhecendo seus esforços extraordinários. E quando as pessoas na empresa estavam passando por dificuldades, escrevia mensagens pessoais de encorajamento para elas. Durante seu mandato, enviou mais de 30 mil cartas desse tipo.

Para Conant, essas atitudes não eram apenas estratégias para aumentar a produtividades; eram esforços sinceros para auxiliar sua equipe.

Faça menos, seja mais
Gabrielle Thompson, vice-presidente sênior da Cisco, descobriu que quando um empregado vem até ela com um problema, muitas vezes ele exige uma solução simples. Mas frequentemente, só é preciso ouvir o problema. “Muitas situações simplesmente precisam de um ouvido, não de ação. Muitas vezes problemas não precisam de soluções — necessitam de atenção e de tempo”, ela diz. Como líderes, ter a capacidade de se mostrar completamente presente e ouvir com a cabeça aberta é frequentemente a maneira mais poderosa de se resolver problemas.

Sendo líder, seu papel pode ser simplesmente criar o espaço seguro para as pessoas ventilarem suas frustrações e processarem seus problemas. Com a atenção plena você se torna o contêiner no qual eles encontram espaço para processar o problema, sem que você se prontifique para solucioná-lo, resolvê-lo ou controlar a situação. A própria presença pode ajudar a resolver a questão. Esse tipo de presença não apenas soluciona problemas mas também cria maiores conexões e comprometimentos.

Presença materializada
Loren Shuster, CPO do grupo Lego, explica que quando tem reuniões ou apresentações muito importantes, tira cinco minutos para se conectar a seu corpo. Ela se vê ganhando vida em cada célula de seu corpo. “Quando você não está conectado, aterrado ao seu corpo e ao ambiente ao seu redor, não tem uma sensação de direção ou de propósito. Você está simplesmente flutuando. As coisas mais ínfimas podem distraí-lo. Essa técnica de aterramento me ajuda a limpar minha cabeça, recarregar minha energia, fortalecer meus instintos e acalmar meus sentimentos”, nos contou.

Depois dessa atividade de cinco minutos, ela anda de maneira diferente, fala de maneira diferente — com mais seriedade, mais peso, mais vigor; e, como resultado, consegue ser mais inteiramente presente mental e fisicamente com aqueles ao seu redor.

Quando temos uma presença materializada, nossa postura muda. Em vez de estarmos “jogados” na cadeira, de braços cruzados e literalmente fechados em nós mesmos, adotamos uma postura mais equilibrada, animada, aberta e inclusiva. Isso inclui sentar-se reto e com nossos braços abertos.

Essa mudança de postura pode influenciar o modo como pensamos, nos comportamos e nos comunicamos. Da mesma maneira que podemos estimular qualidades como confiança por meio da adoção de uma postura confiante, podemos incentivar qualidades como atenção, foco, inclusão e compaixão com uma postura elevada e digna.

O ato de se sentar reto e de modo exposto tem um efeito positivo na química de nosso cérebro: cultiva nossa capacidade de processos mentais de alto desempenho; oferece-nos acesso a uma sabedoria que advém de uma atenção intensificada, a uma compaixão oriunda do aumento de nossa exposição e a uma confiança vinda da força do alinhamento vertical.
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Rasmus Hougaard é fundador e diretor executivo da Potential Project, empresa global de desenvolvimento organizacional e de liderança que trabalha com a Microsoft, a Accenture, a Cisco e centenas de outras empresas. Ele está publicando seu segundo livro, The Mind of the Leader – How to Lead Yourself, Your People and Your Organization for Extraordinary Results, pela HBR Press em março de 2018.
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Jacqueline Carter é sócia e diretora da Potential Project para a América do Norte. É coautora do livro The Mind of the Leader – How to Lead Yourself, Your People and Your Organization for Extraordinary Results (HBR Press, 2018), assim como foi coautora do primeiro livro publicado por Rasmus Hougaard, One Second Ahead: Enhancing Performance at Work with Mindfulness.

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