Mercados emergentes

As economias emergentes com melhor desempenho enfatizam a concorrência

Jonathan Woetze, Anu Madgavkar e James Manyika
15 de outubro de 2018
economias emergentes incentivam concorrência

Há muito os economistas especializados em desenvolvimento tentam descobrir por que algumas economias emergentes têm um desempenho melhor do que as outras a longo prazo. Examinamos a mesma questão em nossa última pesquisa e encontramos um elemento que não tem recebido a atenção de outros pesquisadores: a frequente e intensa dinâmica competitiva que pode ser encontrada nas economias emergentes mais bem-sucedidas – uma mentalidade competitiva que criou uma nova geração de empresas produtivas e calejadas que aspiram à liderança global.

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Esse achado pode parecer contraintuitivo: não é verdade que muitas economias emergentes cuidam de seus campeões nacionais e os protegem da concorrência? A resposta mais curta que encontramos em nossa pesquisa seria “Não”. Na verdade, em certa medida, as melhores empresas desses mercados emergentes são mais competitivas do que as de economias avançadas como as dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Para nossa pesquisa, avaliamos 71 economias emergentes; identificamos 18 que conquistaram um crescimento rápido e consistente do PIB nos últimos 50 e 20 anos. Esse grupo inclui não apenas os suspeitos de sempre da Ásia — China, Coreia do Sul e Cingapura —, mas também países menos óbvios, como Etiópia e Vietnã.

Quando examinamos seu histórico mais de perto, descobrimos que esses 18 países “fora da curva” tinham duas vezes mais companhias com faturamento acima de US$ 500 milhões que outros na mesma faixa econômica. Uma quantidade maior de grandes empresas significa que os ganhos são distribuídos de maneira mais ampla do que aconteceria se fossem em menor número, mas indica também que a concorrência interna pode ser feroz. De fato, é muito mais difícil para esses sem-número de empresas em mercados emergentes bem-sucedidos chegar ao topo e ali permanecer. Mais da metade das que alcançaram o primeiro quintil em termos de lucratividade entre 2001 e 2003 foram derrubadas de seu posto dez anos depois, entre 2010 e 2015. Em comparação, 62% das empresas estabelecidas em economias ricas permaneceram no primeiro quintil na mesma década. Nos Estados Unidos, 68% permaneceram na mesma posição; no Reino Unido, o número chega a 76%.

Um levantamento que conduzimos com empresas em sete países também trouxe algumas surpresas. As empresas de mercados emergentes com melhor desempenho inovam de maneira mais agressiva do que suas rivais nas economias avançadas desenvolvidas: 56% de sua receita vem de novos produtos e serviços, contra 48% nos países ricos. Essas empresas também investem quase duas vezes mais do que as de economias desenvolvidas, se medirmos a proporção entre gasto de capital e depreciação. E são mais ágeis: em média, tomam decisões importantes de investimento seis a oito vezes mais rápido ou em 30-40% menos tempo.

Além disso, no que se refere àquela métrica tão prezada pelos analistas e investidores da bolsa de valores, ou seja, rendimentos totais para acionistas, essas empresas também se superaram. Entre 2014 e 2016, o primeiro quartil de empresas nas economias de melhor desempenho geraram rendimentos totais para acionistas de 23%, em média, contra 15% das empresas do primeiro quartil em países com renda alta.

A supremacia de empresas de mercados emergentes é evidente em rankings como o Fortune Global 500; desde 2000, mais de 160 dessas empresas entraram na lista. Além de serem responsáveis por quase 25% do faturamento e do lucro líquido global, empresas de mercados emergentes contribuíram desproporcionalmente com 40% do crescimento da receita e do lucro líquido de todas grandes companhias de capital aberto entre 2005 e 2016.

Há algumas lições evidentes aqui para todas as economias, e não apenas para as emergentes. Permitir e até mesmo incentivar a concorrência interna traz resultados não apenas para as empresas sobreviventes, mas também para a economia como um todo. As corporações de sucesso nas economias emergentes de melhor desempenho atuam como catalisadoras da mudança, por meio de investimentos e capacitação de seus fornecedores. Muitos destes são pequenas e médias empresas que tendem a ser menos produtivas do que as de maior porte, mas mesmo assim são essenciais à geração de empregos. Ao trazê-las para dentro dos seus ecossistemas, as empresas competitivas maiores ajudam a estabelecer as melhores práticas de operação e de gestão, e podem acelerar e incentivar a adoção de tecnologia.

Ao mesmo tempo em que nossa pesquisa descobriu que o nível de inovação das empresas é alto, também percebemos que as políticas públicas desempenham um papel importante. Em economias emergentes que se destacam, os tomadores de decisão trabalham em conjunto com o setor privado para definir uma agenda de desenvolvimento, e também racionalizam regulações e barreiras para o crescimento. Sim, alguns governos dão suporte para novas empresas, inclusive financeiro, com o objetivo de ajudá-las a crescer. Isso ocorreu em países como Coreia do Sul e Cingapura. No entanto, o máximo de êxito obtido foi nos lugares onde o suporte era focado e com prazos determinados. O objetivo maior é tornar as empresas, e a economia como um todo, mais competitivas.

Podemos observar isso com facilidade quando observamos o histórico de produtividade desses países. Separamos em 35 setores, incluindo 15 de manufatura e 20 de serviço, o crescimento total da produtividade na economia entre 1965 e 2012. Para a maioria dos países com ótimo desempenho, observamos que o crescimento de longo prazo era predominantemente gerado pelo aumento da produtividade em setores específicos, e não em um mix de setores. Em outras palavras, o sucesso depende menos de encontrar a combinação certa de setores, e mais de identificar fontes de vantagens competitivas — e estimular, de maneira contínua, melhoras na produtividade desses setores.

A descoberta é mais um sinal de que a dinâmica da concorrência é essencial para as empresas — e de que os países que alcançam essa dinâmica prosperam.


Jonathan Woetzel é um dos diretores do McKinsey Global Institute.


Anu Madgavkar é sócia do McKinsey Global Institute (MGI).


James Manyika é diretor para São Francisco do McKinsey Global Institute (MGI), o braço de negócios e economia da McKinsey & Company.


Tradução: Marisa Adán Gil.

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