Tecnologia

Cumpriremos a promessa de descentralização da blockchain?

Hanna Halaburda e Christoph Mueller-Bloch
4 de outubro de 2019

Desde a sua criação, a blockchain prometeu tornar redundantes os terceiros confiáveis. Na prática, no entanto, se ela está realmente descentralizada depende do que é governado e como essa governança é aprovada. À medida que mais negócios exploram a blockchain, esta distinção torna-se cada vez mais importante. Há muitos benefícios esperados da descentralização e esses benefícios podem nos iludir se a descentralização falhar na prática.

Como a governança de blockchain é aprovada – o que as pessoas fazem na prática – pode diferir consideravelmente de como a governança de blockchain é prevista – o que as pessoas aspiram fazer. Não existe uma definição comum de blockchain, mas de acordo com uma definição usada frequentemente no discurso comum, uma blockchain é um livro contábil distribuído e compartilhado por várias partes que podem adicionar transações ao livro. Isso implica dizer que as alterações são refletidas consistentemente em todas as partes. Se a reconciliação de livros contraditórios for cara, isso pode ser benéfico. Os defensores da blockchain esperam que ela seja virtualmente imutável sem ser centralizada, o que significa que a blockchain não exigiria um terceiro confiável que decida sobre o conteúdo do livro contábil. O Bitcoin, primeira implementação de blockchain, conseguiu permitir pagamentos digitais sem precisar depender de nenhum terceiro confiável.

Espera-se que essa descentralização traga economia de custos (por meio da desintermediação) e capacitação aos participantes, uma vez que as partes que usam a blockchain não precisam confiar em um terceiro poderoso para agir em seu melhor interesse. No entanto, esses benefícios são realizados apenas através da descentralização. Se a descentralização não conseguir se materializar, retornamos para os problemas de poder e confiança. Podemos entender essa contradição, identificando as diferentes maneiras pelas quais o Bitcoin – como um exemplo prototípico de blockchain – é regido, tanto na forma prevista, quanto na prática.

Quatro dimensões de governança de Bitcoin
Governando novas transações

Milhões de pessoas usam Bitcoin e qualquer pessoa pode apresentar uma transação. Mas, na prática, existem alguns elementos de centralização. Os usuários pagam por vezes altas taxas de transação para estimular uma validação mais rápida das transações. Consequentemente, os usuários que não desejam pagar altas taxas de transação podem optar por não realizar transações ou ter de esperar mais para validar suas transações.

Governando o consenso
Novas transações necessitam ser validadas para tornarem-se parte da blockchain. Um mecanismo de consenso especifica como fazer com que vários nós concordem se uma transação é válida e deva ser adicionada à blockchain. No Bitcoin, está previsto que qualquer pessoa possa validar e adicionar transações. Permite-se que apenas um usuário faça isso por vez.  Os usuários competem por esse direito ao deixar que seus computadores procurem por um número desconhecido. A participação nesse processo, conhecida como mineração, consome muitos recursos e custa caro. Os vencedores recebem bitcoins como recompensa.

Os mecanismos de consenso permitem descentralizar a validação de transações. Eles são cruciais nos argumentos de que o sistema Bitcoin poderia substituir os bancos e funcionar sem que terceiros confiáveis ​​salvaguardassem os registros contábeis da transação.

Apesar da descentralização prevista, o alto custo da mineração levou a uma considerável centralização do consenso na prática. Para compartilhar o risco de gastar os recursos, mas não vencendo a competição, grupos de mineiros formam grupos de mineração. Isso resultou em apenas alguns grupos de mineiros validando grande parte das transações. Ao mesmo tempo, os grupos de mineração cobram dos mineiros pela participação, com grupos maiores de mineração cobrando mais. Portanto, eles atraem menos mineiros e crescem mais lentamente. É improvável que o ambiente acabe totalmente centralizado com apenas um grupo de mineração. Portanto, enquanto na prática, atingir o consenso é mais centralizador do que foi previsto, um centro grau de descentralização ainda existe.

Governando as atualizações
Depois que a blockchain está operando, as atualizações no seu protocolo podem ser necessárias ou desejáveis. No Bitcoin, está previsto que qualquer pessoa possa desenvolver e sugerir atualizações de protocolo. Na prática, no entanto, essas alterações são normalmente propostas por apenas alguns desenvolvedores e as discussões sãoaltamente centralizadas, com um pequeno número de comentaristas fornecendo significativamente mais comentários do que o resto.

Governando o desenho
Antes que a blockchain comece a operar, seu protocolo precisa ser desenhado ou projetado.  Esta dimensão de governança difere de outras dimensões de duas maneiras. A primeira, é que o desenho é aprovado antes das outras três dimensões. A segunda, é que tem havido pouco debate sobre se o desenho inicial deve ser descentralizado ou centralizado – fato surpreendente dado o entusiasmo em torno da descentralização da blockchain. Na prática, o desenvolvimento de protocolo é normalmente altamente centralizado e coordenado. No caso do Bitcoin, o desenho inicial foi proposto por Satoshi Nakamoto, uma entidade desconhecida que poderia ser um indivíduo ou um pequeno grupo de pessoas. Esse mistério em si indica que o processo de elaboração do white paper de 2008 não poderia ter sido muito descentralizado.

Distinção entre previsão e governança de blockchain aprovada

O exemplo do Bitcoin revela como a governança de blockchain na vida real pode diferir significativamente de como ela é prevista. Para envio e validação de transações, bem como atualizações de protocolo, a governança aprovada parece ser consideravelmente mais centralizada do que a governança prevista. Mesmo que a descentralização esteja prevista, ela pode não se concretizar. Observamos que, na prática, as dimensões relacionadas ao desenho (desenvolvimento e atualizações de protocolo) tendem a ser marcadas por uma governança particularmente centralizada, enquanto as relacionadas ao uso real de blockchain (validação e envio de transações) tendem a ser um pouco mais descentralizadas.

Desde a estreia das tecnologias de blockchain, aprendemos que, apesar de como elas foram concebidas, a governança geralmente é mais centralizada na prática, pois o poder de tomada de decisão costuma ser caro para adquirir e exercer. Especialização, reputação, tempo ou dinheiro podem ser necessários para a obtenção do poder de decisão. Quanto mais altos esses custos, menos as pessoas desejam participar, o que contribui para a centralização na prática.

Bitcoin é uma blockchain sem permissão. No caso de blockchains com permissão, como o Hyperledger Fabric da IBM, que restringe quem pode propor atualizações de protocolo, validar transações e enviar transações, a governança de blockchain é considerada mais centralizada do que as blockchains sem permissão, como o caso do Bitcoin.

Avaliando o potencial de descentralização

A promessa da blockchain é uma governança descentralizada. No entanto, os gestores precisam considerar dois itens cuidadosamente. Primeiro, governança descentralizada não é um aspecto necessário de blockchain. Ela precisa ser aprovada. Segundo, os benefícios da governança descentralizada nem sempre valem a pena devido aos custos associados. Os desenvolvedores de protocolo podem conseguir trabalhar com mais eficiência por conta própria ou em pequenas equipes. Mesmo a descentralização da validação de transação nem sempre é um aspecto superior, como demonstra o mecanismo de consenso lento e intensivo em termos de energia do Bitcoin.

Hanna Halaburda é professora adjunta de tecnologia, operações e estatística na NYU Stern School of Business.

Christoph Mueller-Bloch é doutorando em sistemas de informação na IT University of Conpenhagen.

 

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