Produtividade

Como ser criativo mesmo com as distrações do celular

Brian Solis
19 de junho de 2019

O ataque das distrações causadas pela era digital está afetando seriamente os negócios. Isso os torna um desafio para os trabalhadores millenials e da Geração Z, pois 36% deles disseram que passam duas horas ou mais por dia de trabalho “usando o telefone para tratar assuntos pessoais.”, de acordo com um estudo realizado pela Udemy.

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O estudo também revelou que, com todas as distrações à sua volta e o desperdício de tempo, os colaboradores ficam “estressados, desmotivados, e insatisfeitos consigo mesmo, com o trabalho e com a carreira. ” Em contrapartida, 75% deles, que aprenderam a reduzir a incidência de distração, dizem que se tornaram mais produtivos.

Esse foi o resultado mais recente das várias pesquisas que alertam para o problema: artigos já publicados pela HBR relatam que a enxurrada de informações pode ser o problema central do ambiente corporativo dos dias de hoje, e que só o fato de ter um telefone perto prejudica o desempenho do colaborador.

É imprescindível que algo seja feito para reduzir o nível dessas distrações, como por exemplo, notificações que aparecem na tela do celular a todo momento. No entanto, ao contornar o problema, as empresas também enfrentam o Catch-22 – uma expressão americana que significa ciclo vicioso. A propensão à distração pode, também, ser algo bom, pois a distração tem ajudado no aumento da criatividade. Como a Northwetern University resumiu numa manchete, “A distração conduz os gênios criativos.”

Um estudo revelou que a “atenção dispersiva ” pode ser a base não só dos custos, mas também dos benefícios da criatividade cognitiva; barulhos e outros estímulos podem causar distração às pessoas criativas levando-as a cometer erros em algumas tarefas. Ao mesmo tempo, essa “atenção dispersiva ” pode ajudá–las a juntar as ideias que estão fora das suas esferas de atenção e trazê-las para o processamento da informação atual, levando à uma ideia criativa.” Depois de muito pensar nesse desafio, descobri que existe uma maneira de otimizar o foco e a criatividade; porém, requer trabalho.

Alguns anos atrás, eu estava no meio de uma crise profissional. Eu não conseguia avançar em nenhum dos meus projetos. Ambas minha produtividade e minha criatividade haviam despencado. Foi então quando percebi que eu tinha me viciado em ficar distraído. Eu ficava online no meu telefone praticamente o tempo todo, absorvendo um conteúdo extremamente desnecessário e totalmente despreocupado com a minha vida pessoal e profissional.

Foi aí que pude entender a ironia da situação. Como fiz carreira em análise digital, tenho plena consciência de que muitos aplicativos e plataformas de mídia foram especificamente elaboradas para serem viciantes. Há duas maneiras de facilmente influenciar o comportamento humano: seja por manipulação ou por inspiração. Empresas de tecnologia em grande parte, optaram pela manipulação. Muitos acharam a economia da atenção extremamente lucrativa.

Nunca pensei que eu pudesse ficar tão suscetível a isso.

Então, agora, começo a procurar soluções que deem resultados para mim e para as empresas onde presto consultoria.

A distração produtiva

Descobri que o segredo é aceitar – e até compreender o desejo de ver as notificações, ler sobre vários assuntos, e até assistir a alguns vídeos – para me ensinar a ter paciência para tudo isso.

Comecei a elaborar meu dia de trabalho, inserindo alguns intervalos para dar espaço a “distração produtiva”. Eu os uso para libertar os impulsos, como também tento fazer alguma atividade física nesses espaços ou tiro um momento para uma simples e curta meditação, que me ajuda a limpar a mente a fim de ter uma nova perspectiva para o momento em que eu voltar ao trabalho.

Seguir essas etapas de maneira organizada faz toda a diferença. Pesquisas revelaram que manter o compromisso com esses intervalos aumenta o nível de criatividade.

Já que eu sei que esses intervalos estão próximos, fica muito mais fácil controlar e não ceder a toda e qualquer distração. Eu digo para mim mesmo que terei a chance de seguir o impulso no próximo intervalo.

Levou muitos meses, mas consegui manter o foco e realizar meu trabalho, sem interrupções, por 22 minutos, escolhendo a minha própria maneira de utilizar a Técnica Pomodoro.

Consequentemente, eu me vi muito mais criativo e feliz – da mesma forma que as pessoas analisadas pela Udemy se sentiam. (No levantamento, 75% das pessoas que aprenderam a diminuir o índice de distração afirmaram se sentir mais produtivas, ao passo que 56% afirmaram estar mais felizes no trabalho.)

Assumindo o controle

Para os milhões de pessoas que estão sempre cercadas por inúmeras distrações digitais, tudo isso parece ser mais fácil falar do que de fazer.

É preciso ter a vontade de realizar. A cada dia, temos a escolha de mudar ou não as nossas atitudes, e isso envolve parar com os vícios – como usar as mídias sociais (que já “sequestraram” nossa propensão psicológica para a reciprocidade social). Essa atitude nos leva a redefinir o significado de FOMO , Fear Of Missing Out (em português, o medo de perder oportunidades) para JOMO, Joy Of Missing Out (em português, “ter prazer em ficar de fora”).

Um pesquisador da Copenhagen Business School – que escreveu um artigo para a MIT Sloan Management Review – afirma que a distração produtiva é uma forma de equilibrar a curiosidade e a concentração, otimizando o nível onde você realmente procura informações diversas e se concentra nas tarefas à sua frente.

Sou a prova de que isso pode ser feito.

Brian Solis é analista chefe da Altimeter Group e autor do livro Lifescale: How to Live a More Creative, Productive, and Happy Life.

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