Responsabilidade Social

Como investidores reagiram à declaração da U.S. Business Roundtable

Karen Firestone
16 de dezembro de 2019

Quando a U.S. Business Roundtable (Rodada de negócios dos EUA) anunciou que iria redefinir o objetivo empresarial, visando incluir um grupo mais amplo de stakeholders –  funcionários, clientes, fornecedores e comunidades – além dos acionistas, o mercado de ações não demonstrou nenhuma reação. Não cheguei a ver nenhum relatório detalhado de estrategistas de mercado que abordasse como esses novos princípios afetariam os lucros das empresas ou os preços das ações, embora relatórios sobre comércio, taxas de juros e gastos do consumidor continuassem a aparecer na minha tela.

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Isso me fez perguntar: o que os acionistas pensam dessa nova orientação? E os investidores profissionais que administram esses ativos?

No que se refere ao acionista, a direção que a Roundtable toma reflete um movimento forte em direção aos princípios ambientais, sociais e de governança, aos quais nos referimos comumente como ESG (meio-ambiente, responsabilidade social, governança) na sigla em inglês. O conceito surgiu em 2004 quando o Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, conclamou as principais instituições financeiras a considerar os fatores ESG na sua alocação de capital, o que ele acreditava iria beneficiar não somente a sociedade e o meio-ambiente, como também as empresas. A Global Sustainable Investment Alliance (GSIA) (Aliança Global para Investimentos Sustentáveis) estima que os investidores já compraram mais de US$ 30 trilhões desse tipo de ações, o que significa que compraram ações de fundos ou ações de empresas com certificação ESG ou SRI (Investimento em Responsabilidade Social), concedida por um sistema de classificação interno ou externo.

O Calpers (California Public Employees’ Retirement System), órgão estadual responsável pelas aposentadorias da Califórnia, que é um dos maiores acionistas norte-americanos, deu início a campanhas ativistas nos últimos anos, visando mudar a política das empresas públicas, como por exemplo,  pressionou a Red Rock Resorts no ano passado para que alterasse suas práticas de governança ou se arriscaria a perder seu voto nas eleições de conselho.

Na Europa, o Fundo Norwegian Sovereign Wealth Fund (Fundo Soberano de Riqueza da Noruega), com mais de US$ 1 trilhão em investimentos, e responsável por 1,4% dos ativos globais, pressiona para que objetivos como a separação das funções de CEO e presidente, mais diversidade nos conselhos de administração e igualdade no pagamento dos salários, independentemente de gênero, sejam alcançados. E o governo do Reino Unido implementou regras no mês passado que exigem que os planos de pensão considerem investimentos regulares em instituições que privilegiam ESG nos seus processos de alocação de recursos.

E os investidores profissionais que administram esses ativos dos clientes? Várias das principais instituições financeiras, como por exemplo, Black Rock, Fidelity, e Capital Group, começaram a oferecer produtos que permitem aos acionistas investir exclusivamente em empresas que são certificadas por seguirem diretrizes de responsabilidade social. No entanto, concorrentes menores não têm a vantagem de escala ou um modelo de negócios construído para lançar novos produtos o tempo todo.

Após a proclamação da Roundtable, fiquei curiosa para saber se meus colegas – aqueles que administram de forma ativa carteiras e fundos de hedging – acreditavam que esse novo modelo de participação poderia afetar suas práticas de investimentos.

Pesquisei 20 investidores institucionais localizados nos EUA, Europa e Ásia, que representavam quase US$ 35 bilhões em ativos sob gestão.

Quase todos os gestores europeus que entrevistei disseram que seus clientes perguntaram sobre os esforços na esfera de ESG. Talvez seja por isso que os dados mostrem que os gestores respondem positivamente. De acordo com a Global Sustainable Investment Alliance (Aliança Global de Investimentos Sustentáveis), 49% dos ativos administrados por profissionais na Europa aderiram às diretrizes sustentáveis contra 26% para os EUA e 18% para o Japão. A maioria dos gestores de investimentos europeus que entrevistei relatou ter tomado alguma ação, como revelar pontuação na carteira de investimentos ESG nos relatórios trimestrais, contratando um consultor ESG e utilizando um programa para seleção de ações ESG. Uma grande gestora europeia explicou que as “políticas de ESG se tornaram absolutamente centrais a quase todas as empresas europeias.”

Se compararmos isso ao que ouvi de gestores norte-americanos e asiáticos, nenhum reconheceu a adoção formal de programa que privilegia as ações relacionadas a ESG. Embora minha amostragem de gestores seja pequena e possa ser atípica em relação a todos os países, um estudo recente revelou que menos de 30% de todos os ativos administrados nos EUA está em conformidade com ESG – bem abaixo do índice encontrado na Europa. (Com exceção do Japão, onde 20% dos ativos têm uma inclinação pela ESG, a maioria das empresas asiáticas está bem atrás de outros países em termos de apresentar relatórios com suas práticas ESG). Um dos gestores dos EUA me disse, “a não ser que as fórmulas para cálculo de remuneração de CEOs mudem nos EUA para que recebam compensação maior do que lucro por ação e valorização do preço das ações, é improvável que levemos a sério a declaração da Roundtable”.

No entanto, algumas empresas, incluindo a minha própria empresa, criaram seus próprios sistemas de triagem ESG ou administram uma versão de sua principal carteira que foca em investimento baseado em responsabilidade social, em geral, eliminando ativos que incluam combustíveis fósseis, tabaco e armamentos. Embora isso seja um passo na direção certa, gestores de fundos menores deverão se esforçar mais nesse sentido, especialmente se um número maior dos principais acionistas exigir que investimentos sejam feitos em empresas, cujo estilo de negócio reflita os compromissos da Roundtable para com os funcionários, o meio-ambiente e a comunidade em geral. Podemos começar por:

  • Decidir quais aspectos de ESG valorizamos mais, selecioná-los e destacá-los para seus clientes. Se, por exemplo, você estiver interessado em transparência e diversidade nos conselhos de administração das empresas, você deverá formalizar e demonstrar essa intenção.
  • Aprender qual a importância de SRI para os clientes atuais e potenciais. Isso significa reunir clientes para avaliar seu interesse e explicar onde seu foco possa se sobrepor. Por exemplo, apresentamos aos clientes potenciais nossa carteira de investimentos que não contempla combustível fóssil com o registro de um período de cinco anos.
  • Investir em ferramentas de filtragem para descobrir como nossa carteira se sai em termos de normas da ONU ou da GSIA. A partir daí, é possível comercializar uma pontuação forte ou mudar algum posicionamento potencial.
  • Pressionando empresas em cujas ações investimos, para melhorar suas práticas a respeito de ESG.

A comunidade de investimentos precisa acompanhar a nova visão da Business Roundtable para atender a um número maior de stakeholders. Embora isso possa tomar tempo e exigir esforço, investidores profissionais podem se inspirar no modelo dos colegas europeus que demonstra como os esforços podem ser bem-sucedidos.


Karen Firestone é Presidente e CEO da Aureus Asset Management, firma de asset management, que é a principal consultoria de serviços financeiros para famílias, indivíduos e instituições sem fins lucrativos. Firestone é cofundadora da Aureus, após ter atuado como gestora de fundo e analista de pesquisa da Fidelity Investments. É autora do livro Even the odds: sensible risk-taking in business, investing, and life (Bibliomotion, abril de 2016).

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