Gênero

Como eliminar a desigualdade de gênero

Nicole Torres
6 de dezembro de 2019

Thasunda Brown Duckett, CEO do Chase Consumer Banking, fala sobre o empoderamento feminino por meio da saúde financeira.

Nos Estados Unidos, as mulheres que trabalham o ano todo ganham algo em torno de 82 centavos de dólar para cada dólar ganho pelos homens — mas possuem apenas 32 centavos de riqueza para cada dólar que pertence a seus colegas homens. Ambas as diferenças são muito maiores para mulheres negras e latinas.

Estas estatísticas não são novas, mas a maneira como falamos sobre elas e os projetos para resolver o problema precisam de uma nova abordagem, diz Thasunda Brown Duckett, CEO do Chase Consumer Banking e uma das mulheres negras de cargo mais alto na área de finanças. Ela trabalha para melhorar a alfabetização financeira e a saúde de milhões de pessoas, especialmente aquelas em comunidades carentes. Um exemplo é uma iniciativa recente focada na expansão de oportunidades econômicas para mulheres negras.

“Quando começamos a discutir diferenças de gênero ou riqueza racial com ‘é difícil’, estamos, implicitamente, dizendo que temos permissão para falhar”, diz ela. “Não usamos esta frase com nenhuma outra métrica de negócios. Se algo é difícil, então você vai trabalhar até meia-noite ou investir para entender o problema. Se eliminarmos o ‘é difícil’ quando pensamos em como eliminar diferenças, começaremos a adotar novas abordagens.”

Duckett e eu conversamos sobre algumas dessas abordagens, desde mudar a maneira como falamos sobre dinheiro até o papel das finanças para acelerar o poder e a influência das mulheres. Esta é uma versão editada da nossa conversa.

Por que é importante abordar a desigualdade de gênero?
Não devemos falar apenas sobre o quanto as mulheres estão ganhando, mas sobre quanto elas estão guardando. Não se trata apenas de alugar uma casa, mas de possuir uma, de como transferir riqueza para os filhos. É fundamental discutir se o dinheiro está ou não funcionando para as mulheres e para qual fim, de modo que, ao iniciarem um negócio e ao começarem a aumentar a renda, criem riqueza a longo prazo. Com o aumento de mães solteiras, de mulheres que são chefes de família e que esperam mais tempo para se casar, temos que garantir que elas criem riqueza para elas mesmas, em vez de se apoiar em outra pessoa para ter conhecimento e gerenciar essas decisões.

Quais são as maiores barreiras?
O dinheiro é estressante para a maioria das pessoas, especialmente para mulheres e pessoas negras. A riqueza mediana de americanos negros solteiros é de US$ 200 a US$ 300, ante US$ 15 mil a US$ 28 mil para americanos solteiros brancos. E as mulheres negras enfrentam mais obstáculos ao sucesso financeiro do que qualquer outro grupo nos EUA. Para mim, o principal problema a ser resolvido é a mentalidade que temos em relação ao dinheiro. É a ideia de que nosso patrimônio [no original, “não”] define nossa autoestima. Temos que mudar essa mentalidade.

Por exemplo, o Chase lançou uma nova iniciativa chamada Currency Conversations, focada em ajudar mulheres negras a economizar dinheiro, reduzir dívidas e construir riqueza. Reunimos as mulheres e começamos a tratar dessa mentalidade. Procuramos assegurar que todas entendam que são boas o suficiente e que a insegurança financeira não define quem elas
são. Eu acho que essa é a coisa mais importante, porque se as pessoas não mudarem essa mentalidade, não darão o próximo passo para melhorar sua saúde financeira.

Esta é uma questão muito pessoal para mim. Meu pai trabalhou em
uma empresa da Fortune 500 por muitos anos e, embora oferecessem ótimos benefícios, inclusive um plano de pensão, meu pai não achava que isso era para ele. O benefício estava disponível. A informação estava disponível. Mas ele não se via como alguém digno ou capaz de tirar proveito desses benefícios.

Levo isso comigo quando converso com as mulheres. A linguagem sobre dinheiro e finanças pode ser realmente sofisticada, mas devemos partir de onde estamos, e aprender a falar sobre pequenas medidas para nos sentirmos mais no controle. Agora, no Chase, temos mais de 13 mil mulheres que se comprometem a economizar para alcançar seus objetivos. E o mais importante é que, por se sentirem seguras e porque tiveram a chance de contar sua história, são mais propensas a sentir que podem dar o próximo passo — não necessariamente economizar US$ 1 mil no mês seguinte, mas economizar US$ 10 ou US$ 30. É aí que acontece um real avanço, quando temos a chance de mudar a narrativa e os resultados da riqueza.

Quais outras medidas práticas as mulheres podem tomar para começarem a se tornar mais capacitadas e seguras financeiramente?
Tudo se resume às capacidades e experiências certas. Em termos de capacidade, toda mulher deve conhecer sua pontuação de crédito. Eu costumo dizer que todas nós acertamos 100% ao lidar com a realidade. Mas, no crédito, todas as mulheres devem ficar com 700 pontos ou mais. Isso ajuda as pessoas a entender o que é o sucesso.

Outra ideia é usar ferramentas que ajudam a economizar. Uma delas é o Autosave, que permite que os clientes configurem transferências automáticas da conta-corrente para a conta-poupança, sejam US$ 10 por semana ou US$ 10 por mês. Você determina o valor e depois esquece. O melhor de tudo é que você pode começar pequeno e, depois, relacionar o valor ao que está economizando. Construir hábitos é a melhor maneira de progredir de maneira sustentável. Então, você começa com US$ 5 e vê isso crescer, e percebe que é capaz de colocar mais dinheiro para a viagem de suas filhas ou para os pneus que você precisa trocar. Sabemos pelos dados do Chase que, até agora, em 2019, as mulheres economizaram US$ 588 por meio do Autosave, mas os homens economizaram US$ 727. Eu acho que há um poder real em ajudar as mulheres a economizar, porque quando surge um imprevisto temos a capacidade de lidar com a situação, seja pagando o aumento da escola dos meus filhos ou qualquer outra situação.

Finalmente, quando penso em termos de experiência, falar sobre dinheiro não precisa ser o pior dos assuntos. Deveria fazer parte da conversa entre amigas. Se vamos nos encontrar na casa de alguém para tomar vinho e comer queijo, vamos combinar isso com um papo sobre como manter os 700 pontos ou mais. Vamos falar sobre o quanto estamos economizando, quais objetivos estamos tentando alcançar. Vamos cobrar essa responsabilidade uma das outras.

Como isso ajuda a aumentar o poder e a influência das mulheres?
Isso ajuda as mulheres a se tornarem mais informadas sobre saúde financeira, mais confiantes em fazer perguntas sobre o que promove essa saúde financeira — como a remuneração — sem remorsos pelo que economizam. Tudo isso leva à riqueza. Queremos que as mulheres sejam capazes de ter riqueza neste país para realizar o que é importante para elas, seja fazendo serviço social, trabalhando como voluntárias, defendendo uma causa ou tendo os recursos e a confiança para eliminar parte do estresse da falta de dinheiro que nos impede de estarmos presentes e poderosas. Quanto mais aprendemos e nos encorajamos, mais poderemos gerar impacto e acelerar o progresso.

Qual é o papel das finanças? Não é um setor muito diversificado, especialmente nos níveis seniores.
Penso que ter mais mulheres de poder nas finanças será um catalisador para diminuir a desigualdade de riqueza e de renda. Dado que é um grande setor, esses empregos podem se desdobrar em carreiras importantes, em muitas áreas diferentes de finanças e em outros setores, o que é um ponto crítico. Será difícil diminuir a desigualdade de renda e de riqueza sem que o setor financeiro assuma um papel de liderança nessa área.

O que o setor precisa fazer para assumir essa liderança?
Temos que mudar nossa mentalidade sobre como buscar talentos em certos setores nos quais sabemos que os canais de acesso são escassos. Por exemplo, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, lidera com foco em gestores gerais, em vez de gestores especializados. Eu sou a prova de conceito. Estava na área de financiamento imobiliário. Tornei-me CEO da Autosave. Agora sou a CEO de um banco comercial.

Se focarmos a gestão geral, poderemos transferir líderes que talvez não tenham a expertise tradicional, e acho que criaremos novas oportunidades para as mulheres nos setores com desigualdade de gênero. Haverá mais espaço para migrar de setores em que as mulheres estão super-representadas, como saúde e educação, para setores nos quais temos mais chances de ganhar mais e eliminar a desigualdade.

Por outro lado, também precisamos analisar os dados para identificar setores em que a renda é alta e nos quais não temos o mesmo nível de representação. O que você pode fazer a respeito? Temos que começar a trazer as mulheres mais cedo para o mercado profissional. Isso significa fazer com que escolas e estágios aumentem a exposição das mulheres ao nosso setor. Sabemos que isso realmente faz diferença.

Como uma das mulheres negras de cargo mais alto na área de finanças, o que a ajudou a alcançar sua própria posição de poder e influência?
Para mim, a ruptura veio por meio do INROADS, um programa de estágio que proporciona às minorias um caminho para os negócios. Se não fosse o INROADS, eu não saberia que poderia ter acesso à América corporativa.

Como podemos garantir que outras pessoas tenham oportunidades e rupturas semelhantes?
Temos que entender que o talento é criado igualmente, mas as oportunidades não. Precisamos escalar essas oportunidades para aumentar a exposição, seja por meio de programas, estágios ou seminários. Temos que tornar as posições de poder e influência mais próximas das mulheres, mais próximas das pessoas negras, para que elas possam ver que existem possibilidades para elas. Nosso foco não deve ser o que temos de fazer para dar às mulheres e minorias uma vantagem, mas o que fazer para que elas saiam na mesma linha de partida. É isso aí.

Você se lembra do momento em que percebeu o quão difíceis as coisas são para a mulher, ainda mais para a mulher negra? Quando seu senso de poder mudou?
Sim, na gravidez. Estava grávida de seis meses quando me pediram para fazer o P&L, que era meu objetivo. Não havia mulheres suficientes e, definitivamente, não havia pessoas negras fazendo o P&L. E a primeira coisa que me veio à mente foi dar uma desculpa, como se fosse dar a eles permissão para pegar a tarefa de volta. Eu pensei, você sabe que estou grávida, certo? Você sabe que vou ficar fora por três meses, por causa disso? Eu analisava todas as razões pelas quais eu não poderia permanecer no trabalho, que claramente eu poderia fazer bem e claramente era meu objetivo. Tive esse momento de dúvida e medo, quando estava grávida e ia sair de licença, sobre liderar algo que é realmente importante para os negócios. Eu quase dei permissão à empresa para dizer, “oh, você está certa, talvez este não seja um bom momento para você”.

Reconhecer esse momento mudou as coisas para mim. Toda a dúvida e medo, a sensação de que não somos suficientes ou que não cumprimos os requisitos — eu precisava estar ciente disso. Não é uma boa ideia permitir que as pessoas respondam a essa dúvida, o melhor é superar isso e reconhecer que você é o suficiente.

Como você vê seu papel como líder?
Quando penso sobre ser uma mulher negra e líder no setor bancário, mesmo reconhecendo que ainda há muito trabalho a ser feito para diminuir a desigualdade de gênero e raça, penso todos os dias nos ombros das gigantes sobre os quais repouso, as cozinheiras, zeladoras e secretárias que entraram primeiro na América corporativa como mulheres e como minorias, cujo trabalho ao longo do tempo me permitiu estar aqui.

Foi só a partir dos anos 1970, após a Lei dos Direitos Civis, que tínhamos leis que permitiam a existência do meu talento. Acho que é um privilégio sentar nesta cadeira e causar impacto, e não sentir culpa pelo que isso pode significar para a sociedade, o que pode significar para as mulheres, o que pode significar para pessoas negras. Eu acho que é isso que este cargo significa. 


Nicole Torres é editora associada sênior da Harvard Business Review.

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