Gestão pessoal

Como decidir se a mudança de cidade vale a pena

Rebecca Knight
28 de março de 2019

Ás vezes o emprego ideal não está logo ali, mas a quilômetros de distância – ou até mesmo do outro lado do oceano. Se você recebeu uma oferta de emprego em outra cidade, como saber se a mudança vale a pena? Quem pode te ajudar a tomar essa decisão? E como pesar na balança os aspectos favoráveis – como dinheiro e oportunidade – e os contra, como custos, os impactos na família ou a perda de uma rede de contatos profissionais?

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O que dizem os especialistas
Mudar de cidade para exercer uma nova função é uma decisão significativa, tanto no âmbito profissional como no pessoal. “Há tantos pontos a serem considerados,” afirma Jennifer Petriglieri, professora assistente no INSEAD e autora do artigo “Talent Management and the Two Career Couple.” “Qual é a oportunidade? Qual é a duração [do trabalho]? E como fica a família?” É fato que a decisão se torna um pouco mais complicada caso você seja casado(a) e tenha filhos – afirma Matthew Bidwell, professor associado na Wharton, cujo estudo se baseia nos padrões de trabalho e emprego. “Não é só o fato de ‘o quanto isso é importante para a sua carreira?’, mas ‘O quanto isso é importante para a sua família?” – afirma Bidwell. Ser transferido de cidade para trabalhar pode ser “muito bom para seu desenvolvimento pessoal e profissional”, mas é também “um risco e um salto para o desconhecido.” Abaixo listamos algumas ideias para auxiliar você a analisar se a mudança é válida.

Pense como um todo
Quando você não para de pensar na decisão que precisa tomar, “há a tentação de abrir o Excel e avaliar os prós e contras,” afirma Petriglieri. No entanto, é uma situação onde o Excel não é o suficiente. “Quando você tem duas opções para analisar, passa a ser uma escolha de identidade: Quem eu quero ser? Que tipo de família seremos? O emprego é somente uma peça do quebra-cabeça. Leve em consideração sua “satisfação e felicidade holísticas.” Reflita sobre o estilo de vida que o novo local proporcionará ou não. Você se encaixa na vida em cidade pequena, ou prefere cidades grandes? Você quer passar seus finais de semana viajando, ou prefere ficar enraizado num único lugar? As respostas para essas perguntas irão lhe ajudar a descobrir o que “essa mudança significa para você, seu companheiro(a), e seus filhos,” afirma. “Quando se trata de uma escolha difícil, é sinal que não há uma opção melhor do que a outra.” Pense além da transferência imediata,” sugere Bidwell. “Pergunte-se: O que é melhor para nós em longo prazo?”

Converse bastante com seu companheiro(a)
É a pessoa mais importante dessa equação – afirma Bidwell. “A grande questão é o que essa transferência irá refletir na carreira dele(a)?” Será que ele(a) consegue encontrar trabalhos de que goste no novo lugar? Caso negativo, qual é a extensão do retrocesso? “Há muitos estudos que mostram o sofrimento das pessoas no que tange uma pausa na carreira”, afirma. Se seu companheiro(a) não tiver um emprego na nova cidade, “a transferência acarretará em outros problemas, pois você estará o(a) tirando-o de sua rede de apoio.” Ele menciona que há uma certa infelicidade conhecida como a Síndrome de Ulisses. “Você tem um novo emprego, está num novo escritório e vai conhecer muitas pessoas; seu parceiro(a) foi levado para um lugar desconhecido no meio do nada e não conhece ninguém.” Petriglieri ressalta que aqueles que acompanham o executivo transferido são os que normalmente carregam o fardo com relação a assuntos da casa por conta da transferência. “Não é fácil”, afirma. “Independentemente da época da mudança, pelos primeiros seis meses, vocês estão enfrentando a mesma coisa.” E pagam o preço. “Um levantamento sobre por que transferências não dão certo apontou como resposta a infelicidade do parceiro(a).”

Converse um pouco com seus filhos
“Fazer a transferência com os filhos a qualquer hora é possível, mas em certas idades, o processo se torna um pouco mais difícil do que em outras,” afirma Petriglieri. Muitas pessoas, por exemplo, resistem a mudanças quando os filhos são adolescentes; quando eles têm menos de oito anos, a expectativa de mudança assusta menos. Petriglieri afirma que, da mesma forma que, obviamente, é necessário conversar com os filhos sobre uma grande mudança – ela alerta – “há o perigo em consultá-los em demasia, pois pode gerar muita ansiedade sem necessidade.” Os filhos “têm mais dificuldade em imaginar como será a vida” num novo lugar, afirma. Eles podem ter resistências à mudança, o que dificultará muito mais para você. Bidwell concorda: “Os filhos podem vir a reclamar, mas eles vão se adaptar.” Tenha foco no valor disso tudo. A transferência “é uma experiência enriquecedora e estimulante.”

Reflita sobre seu desenvolvimento
Mudar para um emprego numa outra cidade é o tiro certo para “refinar” suas habilidades e experiência, destaca Bidwell. “Você conhecerá pessoas de vários departamentos da empresa, será exposto a novas ideias e conseguirá ampliar seu network.” Caso você esteja sendo transferido para o exterior, terá a oportunidade de entender uma cultura diferente.” É fato que, em algumas organizações, é preciso ter “alguma vivência no exterior para conseguir o emprego desejado.” Porém, é importante reconhecer que a transferência requer algumas “trocas” em curto e em longo prazo para o seu desenvolvimento. Por exemplo, “a bagagem cultural que você está adquirindo lhe custa a perda do seu network na cidade onde você estava.” Para evitar que isso aconteça, não se desconecte do escritório de onde veio, através de conversas frequentes com as pessoas certas,” Bidwell aconselha.

O que vem depois…
É preciso pensar na oportunidade dentro do contexto profissional em longo prazo. “A maioria das empresas não pretende te transferir a menos que haja algum atrativo para você, envolvendo uma grande promoção e um aumento de salário,” afirma Petriglieri. No entanto, a grande pergunta que é preciso fazer é, “Qual será o grande passo depois disso?” Caso você seja um americano pensando num período de três anos em Londres ou Paris, a questão é muito menos complicada. “É óbvio que você voltará para os Estados Unidos.” Porém, se pedirem que você chefie as operações em Denver ou em Cleveland,” a análise se torna um pouco mais delicada. Ainda assim, ao mesmo tempo que é importante pensar nos próximos passos, é preciso ter expectativas razoáveis. “Há um pouco de tensão neste quesito,” afirma. Por um lado, você quer saber “para onde vou depois dessa etapa?” No entanto, de modo realista, a empresa não tem como dar uma resposta definitiva.” Além disso, a carreira não transcorre de maneira organizada para muitas pessoas.”

….e se há uma saída de emergência
O pior dos mundos: você e sua família não estão felizes. O que fazer? “É preciso pensar numa saída de emergência caso você não esteja satisfeito ou sua família não tenha se adaptado”, afirma Petriglieri. O local pode ser o problema. “Se você se muda para uma cidade central e não dá certo, normalmente há outras opções, mas caso mude para uma cidade mais afastada, é mais complicado.” As características da função que você tem em mente também são importantes. Tenha a certeza de que você não está se estereotipando ao assumir uma função de especialista. Outro ponto perigoso é permanecer na cidade por muito tempo”, afirma. “Se você ficar no mesmo cargo por muito tempo, há o risco de se tornar especialista para aquela região”, completa Bidwell. Por essa razão é que Bidwell recomenda “conversar com seu companheiro(a) sobre a duração dessa transferência para chegarem a um acordo quanto ao plano de saída.”

Busque aconselhamento
Buscar informações com outras pessoas sempre ajuda – porém, aqui vai um conselho. “Converse com pessoas que não têm conhecimento do problema.Seu chefe, por exemplo – pode tentar te convencer a se mudar”, afirma Petriglieri.  Afinal de contas, presumidamente há uma “necessidade para com os negócios” e uma razão pela qual você foi selecionado para a transferência. Não só isso, amigos e parentes têm um grande interesse na sua escolha. “Ninguém é neutro, e tais conversas podem se tornar acaloradas.” O ideal seria conversar com “um grupo de amigos de confiança” que “têm problemas parecidos em família, bem como aspirações na carreira parecidas.” Essas pessoas podem ser bons ouvintes à medida que você avalia as opções. Bidwell concorda. Ele sugere procurar aconselhamento com colegas que já passaram por isso e com outras pessoas no seu ramo de atuação. “É preciso ter opiniões unilaterais sobre as expectativas.”

Peça um ‘teste’
Se você não tem certeza, talvez valha a pena perguntar à empresa se é possível permanecer na cidade por um período temporário ou fazer uma troca com alguém antes de tomar a grande decisão, afirma Petriglieri. “Transferências custam caro,” afirma. “Ainda piores são as transferências que não dão certo.” Petriglieri afirma que as empresas estão dispostas a transferirem ou substituírem os colaboradores por pouco tempo” a fim de maximizar a probabilidade de um bom resultado. Em princípio, a empresa está te dando a oportunidade de “experimente antes de comprar.”  Mesmo que a sua empresa não ofereça tal possibilidade, “nada impede de perguntar,” destaca Bidwell.

Não analise em excesso
Mudar de cidade é uma decisão grande – mas tome cuidado com a paralisia pela análise – pensar demais numa situação e nunca chegar a uma decisão, ou a uma decisão que seja padrão. Procure ter perspectiva. “À medida que envelhecemos, há poucas decisões na vida para as quais não há ambivalência,” afirma Petriglieri. “Uma carreira é longa,” – acrescenta Petriglieri – “e é possível fazer algumas aventuras; temos muito tempo para experimentar e explorar.” Entretanto, não pense que esta seja sua única e exclusiva chance de experimentar algo novo. Lembre-se: Nada é para sempre. Se você está infeliz, é possível corrigir isto – diz Bidwell. “É preciso correr riscos ao longo da carreira,” afirma. “Quando não der certo, é preciso pensar no que fazer em seguida.”

Princípios para Recordar

O que fazer:

  • Reflita sobre as decisões como uma escolha de identidade. Pergunte-se: Quem você quer ser? Qual tipo de família você quer constituir?
  • A felicidade do seu companheiro(a) é prioridade.
  • Proponha ficar por pouco tempo ou fazer uma troca de cargos na nova cidade.

O que não fazer:

  • Manter o foco nas consequências imediatas da transferência. Pense no impacto que será gerado em você, em seu companheiro(a) e filhos em longo prazo.
  • Avalie a questão sem ajuda de terceiros. Peça aconselhamento de colegas em quem você confia.
  • Reflita sobrea decisão. Caso você realmente der andamento e não estiver feliz, volte para a cidade onde você estava.  Caso você não aceite a transferência, acredite que possa haver uma outra oportunidade no futuro.

Estudo de Caso #1: Reflita sobre a próxima etapa de sua carreira
Anne Chow passou os primeiros quinze anos de sua carreira na AT&T, ganhando promoção atrás de promoção na matriz da empresa em Nova Jersey. “Era muito fácil mudar de lugar na empresa sem ter que mudar a minha família,” destaca.

Em 2005, depois de a AT&T ser comprada pela SBC, Anne foi transferida pra o Texas, sede da empresa. Naquela época, Anne tinha filhos pequenos e estava receosa em mudar para um lugar longe de seus pais. Além disso, ela tinha dúvidas para com o Texas em si. “Meu lugar é em Jersey e Costa Leste, de ponta a ponta,” diz ela.

Ela recusou a transferência. Porém, em 2014, suas perspectiva havia mudado. A carreira ia bem e seus filhos já haviam crescido – estavam no ensino fundamental e no ensino médio, e seu marido estava aposentado. “Eu me perguntava o que gostaria de fazer e o que desejava para a próxima fase da minha carreira,” afirma.

Por um instante, ela até pensou em oportunidades fora da AT&T, mas depois de 24 anos lá, ela queria dobrar seu compromisso com a empresa.” Então, Anne abordou o assunto da mudança com a família. “Meu marido me apoiou e meus filhos aceitaram,” lembra. “Tornei-me, então, disponível para mudar para o Texas.”

Pouco tempo depois, o CEO a escalou para assumir um novo trabalho no comando de operações e soluções em vendas. Quando a transferência se tornou um fato, os filhos foram contra. “Quando informamos às crianças, elas disseram que poderíamos ir sem elas,” conta.

Ela teve longas conversas com a família. “Falamos sobre quem gostaríamos de ser. Meu marido tinha 51% dos votos. Eu estava preocupada com a infraestrutura social dele, pois era a vida dele que iria sofrer as grandes mudanças. As crianças iriam se adaptar.”

Passados três anos em Dallas, Anne já tinha tido três cargos diferentes. Atualmente ela é presidente nacional da empresa.

Apesar do sucesso na carreira, Anne confessa que o primeiro ano foi difícil para o marido e para os filhos. “Isto nos tornou uma família mais forte,” afirma. “Mas não sei se algum dia chamaremos o lugar de lar.”

Estudo de Caso #2: Procure aconselhamento e informações com terceiros
Oliver Cooke estava há alguns anos em seu emprego em Londres na Selby Jennings como o recrutador financeiro, quando pediram sua transferência para Nova York.

“Meu diretor estava de mudança para lá para encabeçar os negócios, e pediu que alguns nós fôssemos com ele,” afirma. “Sempre tive interesse em viajar e eu sempre quis morar e trabalhar em outro país.”

Ainda assim, era uma decisão muito grande para Oliver, um londrino nativo. Ele já tinha passado alguns dias em Nova York e, embora tivesse vinte e poucos anos na época e fosse solteiro, a transferência envolvia deixar família e amigos para trás.

Oliver procurou aconselhamento sobre o que fazer. Falou com amigos e colegas que já tinham tido essa experiência . “Conduzi a minha diligência prévia,” conta ele. Queria ter uma ideia do tipo de transferência que seria e quais tipos de oportunidades havia.”

Oliver conta que não se preocupou muito em aber onde chegar na carreira, mas tinha certeza de que a oportunidade era boa.“Era uma chance de fazer algo empreendedor e montar um novo negócio,” destaca.

Ele também sabia que poderia deixar o negócio caso não desse certo. “Pensei que, na pior das hipóteses, eu poderia retornar e arrumar um emprego internamente,” afirma.

Por fim, ele decidiu ir. “Pensei que ficaria por lá , trabalhar duro e ver como seria por um ou dois anos. Pensei que iria aguentar um ano por vez.”

Hoje, quase seis anos depois, Oliver é diretor-executivo e responsável pela empresa na América do Norte. Ele conta que já fixou raízes aqui e que não tem planos de voltar para a Inglaterra. Também afirma que mudar para Nova York “foi a melhor decisão que já tomou na vida.”

“O meu negócio é estabelecer relacionamentos e fazer networking. Eu me vejo como uma pessoa que descobriu o nicho nessa parte do mundo. Agora eu acho muito difícil voltar para Londres. Adoro isso aqui.”


Rebecca Knight é jornalista autônoma em Boston e palestrante na Wesleyan University.  Ela já teve publicações no The New York Times, USA TODAY e no The Financial Times.

 

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