Colaboração

Como colaborar com pessoas de que você não gosta

Mark Nevins
22 de março de 2019

Alguns meses atrás, uma antiga cliente – vamos chamá-la de Kacie – entrou em contato comigo. Eu a havia apoiado em sua transição quando ela foi trabalhar numa renomada empresa global de serviços financeiros alguns meses antes. Dada a forma prudente e cautelosa com que ela atravessou esse processo, eu esperava que nossa conversa fosse sobre suas primeiras conquistas.

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Em vez disso, Kacie confessou que tinha um problema simples, mas sério: ela não estava se dando bem com uma executiva de mesmo nível – vamos chamá-la de Marta. As duas não tinham se dado bem desde o início, e o tempo passava, mas as coisas não melhoravam. Kacie me disse que estava ficando dolorosamente claro que sua incapacidade de conviver com Marta impediria seu sucesso e possivelmente inviabilizaria sua carreira na empresa.

À medida que Kacie e eu analisávamos a situação, ela me disse que Marta era vista como uma executiva extremamente talentosa, experiente e popular – não era tóxica ou difícil. Contudo, Kacie admitiu que não gostava muito de Marta. Elas tinham estilos diferentes, e Marta a aborrecia.

Ao longo de muitas conversas, Kacie e eu trabalhamos a situação. Ela reavaliou o mapa de stakeholders que havia criado em suas primeiras semanas no cargo, mostrando claramente que a colaboração e a parceria de Marta eram essenciais para obter os resultados no trabalho desejado por Kacie. Ao avaliar o relacionamento mais aprofundadamente, Kacie percebeu que sua comunicação com Marta estava falha. Ela não havia feito com que sua nova colega sentisse que suas opiniões e perspectivas eram relevantes, havia gerado uma falha de comunicação com Marta e sua equipe e vinha tentando evitá-la.

Kacie desenvolveu algumas estratégias úteis para trabalhar melhor com Marta. Embora nenhuma fosse particularmente fácil ou confortável, eram ideias e perspectivas que quase todos podem usar quando precisarem trabalhar com alguém de quem simplesmente não gostam.

Reflita sobre a causa da tensão e como você está respondendo a ela. O primeiro passo envolve aceitação e reflexão. Tenha em mente que você não terá um bom relacionamento com todo mundo, mas há valor potencial em cada interação com as pessoas. Você pode e deve aprender com quase todos que conhece, e a responsabilidade de fazer isso acontecer é sua, mesmo que o relacionamento não seja fácil. Analise honestamente o que tem causado a tensão e que papel você desempenha nessa relação. É possível que sua reação à situação esteja no cerne do problema (e você não pode controlar nada além de sua reação). Kacie teve de reconhecer que o fato de Marta parecer ser desagradável pode ter se originado na sua própria percepção.

Esforce-se mais para entender a perspectiva da outra pessoa. Poucas pessoas acordam de manhã com o objetivo de fazer de sua vida algo desagradável. Tire um tempo para refletir sobre o ponto de vista da outra pessoa, especialmente se essa pessoa é essencial para o seu sucesso. Pergunte-se: Por que essa pessoa está agindo dessa maneira? Qual seria sua motivação? Como será que ela me vê? O que ela pode querer e precisar de mim? Kacie começou a pensar de maneira diferente a respeito de Marta ao perceber que ela tinha objetivos e motivações tão válidos quanto os seus, e que os objetivos de ambas não estavam inerentemente em conflito.

Torne-se um solucionador de problemas em vez de um crítico ou concorrente. Para trabalhar melhor em conjunto, é importante mudar de uma postura competitiva para uma atitude colaborativa. Uma tática é “transmitir” o problema à outra pessoa. Em vez de tentar circundar ou evitar a outra pessoa, envolva-a diretamente. Kacie convidou Marta para almoçar e se abriu com ela: “Sinto que não estamos trabalhando juntas de forma tão eficiente quanto poderíamos. O que você acha? Você tem alguma ideia de como podemos trabalhar melhor juntas?” Se você pedir para as pessoas abrirem o jogo, e demonstrar vulnerabilidade nesse processo, elas provavelmente serão sinceras de livre e espontânea vontade.

Faça mais perguntas. Em situações tensas, muitos de nós tentamos lidar com a situação por meio de afirmações. Podemos acabar sendo excessivamente assertivos, o que costuma piorar a situação. Em vez disso, tente fazer perguntas – de preferência abertas – para iniciar uma conversa. Deixe de lado suas pautas individuais, faça boas perguntas e tenha paciência para realmente ouvir as respostas da outra parte.

Melhore a percepção do seu estilo interpessoal. É fácil atribuir a existência de conflitos a uma “química” fraca com a outra pessoa, mas todo mundo tem estilos diferentes e, muitas vezes, ter consciência dessas diferenças pode ajudar. Durante o almoço, Marta e Kacie descobriram que haviam realizado o teste de Myers-Briggs no início de carreira, e trocaram ideias sobre seus respectivos perfis. Kacie é tanto introvertida como sensata: ela prefere ter tempo para resolver os problemas sozinha e com calma, e tirar conclusões a partir de uma ampla base de dados. Marta, por outro lado, tem perfil extrovertido, com grande intuição, sente-se à vontade em reagir de imediato e tende a se concentrar na visão global, resolvendo problemas através do diálogo. Dadas essas diferenças de estilo e preferência, Kacie e Marta estavam fadadas a sentir certo desconforto ao interagir. Porém, assim que identificaram suas diferenças, perceberam que seus estilos poderiam ser complementares se elas adaptassem e conciliassem suas posturas.

Peça ajuda. Pedir ajuda pode revigorar um relacionamento difícil, pois demonstra que você valoriza a inteligência e a experiência da outra pessoa. Durante o almoço, Kacie ganhou confiança suficiente para dizer a Marta: “Você está na empresa há mais tempo do que eu. Sinto que estou começando a entender as coisas, mas adoraria ter sua ajuda.” Sendo assim, ela perguntou: “O que eu deveria fazer mais e o que eu poderia fazer menos? Estou deixando de detectar alguma coisa ou não estou conseguindo me conectar com alguém realmente importante? O que você gostaria que tivessem lhe contado quando você começou a trabalhar aqui?”

O relacionamento de Kacie e Marta melhorou expressivamente. Na última vez em que nos falamos, Kacie contou que Marta e ela se comunicam com frequência pessoalmente, por mensagens de texto e por Slack, e participam regularmente das reuniões de suas respectivas equipes. Todo trimestre elas reúnem toda a equipe para avaliar o progresso e buscar oportunidades para aprender e melhorar seus processos. Embora Marta e Kacie não sejam necessariamente amigas e não passem muito tempo juntas fora do escritório, a relação como colegas de trabalho melhorou muito, e elas se gostam mais do que acreditavam no início.

O sucesso que Kacie obteve ao mudar sua relação com Marta se deveu em parte por ela ter tomado uma iniciativa enquanto “o cimento ainda estava fresco”. Sua dinâmica negativa com Marta ainda não havia solidificado, por isso Kacie foi capaz de aumentar sua autoconsciência, adaptar seu estilo e se comunicar. É realmente possível colaborar de forma eficaz com pessoas de quem você não gosta, mas você precisa assumir a liderança.


Mark Nevins é presidente da Nevins Consulting e oferece assessoria em liderança, mudança e organização eficiente a altos executivos e suas equipes. Juntamente com John Hillen, Nevins escreveu What happens now: reinvent yourself as a leader before your business outruns you (Select Books, 2018)

 

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