Estresse

Como ajudar sua equipe com burnout quando você também está esgotado

Rebecca Knight
11 de abril de 2019

Como gestor, é preciso tomar a atitude correta para com seus colaboradores e apoiá-los em ocasiões de muito trabalho, a fim de que eles não se esgotem. No entanto, isso pode ser um desafio quando você mesmo(a) está estressado. Como conseguir se cuidar e ter tempo e disposição para executar essa tarefa? Quais medidas são necessárias para reduzir o nível de estresse? O que você pode fazer para aumentar a sensação de bem-estar da sua equipe?

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O que dizem os especialistas

É muito difícil ter a energia de que você precisa para ajudar os outros se você mesmo está no seu limite. A Síndrome de Burnout – ao contrário do estresse comum – pode fazer com que você se “sinta extremamente vazio”, afirma Susan David, fundadora do the Harvard/McLean Instutute of Coaching e autora do livro Emotional Agility. Isto “pode afetar todas as atividades do seu dia a dia. Você se sente muito cansado, não faz exercícios físicos, não se importa com a alimentação ou a nutrição e está negligenciando seus relacionamentos.” Fato é que não é só você quem sofre. “Sua equipe está percebendo o seu estresse  o que piora as coisas”, afirma Whitney Johnson, autora do livro Build an A-Team: Play to Their Strengths and Lead Them Up the Learning Curve. Para o bem de sua saúde e a de seus colaboradores, você precisa agrupar todos os recursos que você puder para melhorar as coisas. E como fazer isso?

Faça da sua saúde uma prioridade

Antes de ajudar a sua equipe a lidar com o estresse, você precisa lidar com o seu. “Em vez de ficar no seu canto e se concentrar no trabalho, você precisa parar, olhar ao seu redor, e pensar numa maneira de ajudá-la a conseguir o que precisa”, afirma Johnson. Cuidar de sua saúde mental e física já é um bom começo. Faça refeições saudáveis com ingredientes integrais; faça exercícios; tenha boas noites de sono; “tente meditar e encontrar alguém que ajude você a   aliviar seu estresse” – mas não seu chefe. Cuidar de você não é uma questão de luxo, mas sim, de autopreservação. Johnson sugere que você compartilhe as técnicas de gerenciamento da tensão e rituais com sua equipe. Diga-lhes: “Vou lhes mostrar algo que venho fazendo para lidar com meu estresse. É assim que faço.”

Trabalhe em cima do problema em conjunto
Mesmo que você não tenha conseguido vencer seu estresse, mostrar que você leva o assunto a sério sempre ajuda. É até possível propor que todos comecem uma fase de cuidados pessoais em grupo – aprender a meditar em grupo ou compartilhar dicas de quais são as práticas que tem dado certo na diminuição do estresse. David também sugere que a equipe estabeleça uma meta de controle do estresse. “Diga à sua equipe que ‘mesmo com   essa mudança, como   podemos permanecer unidos?” Essa atitude é muito útil para a equipe, mas você continuará responsável por sua saúde. Não force ninguém a fazer essas atividades. Ter autonomia pode agir contra os sintomas do esgotamento e é importante que as pessoas façam suas próprias escolhas.

Mostre benevolência
Não exija muito de você ou de sua equipe. “A Síndrome de Burnout dá a sensação de uma derrota pessoal,” afirma David. Claro que isso não é verdade: Todos estamos suscetíveis a ela e, na verdade, nosso “ambiente” acelera o processo. Estamos vivendo num mundo imperfeito, mas, mesmo assim, queremos a perfeição.” Muitas empresas geram estresse. “A ambiguidade, a complexidade,” sem falar da tecnologia sempre presente nos faz sentir “um nível altíssimo de estresse.” Compreenda. Reconheça interna e verbalmente “que estamos fazendo o melhor com a ajuda dos recursos que recebemos.” Isto não quer dizer que você é preguiçoso ou que está se deixando levar.” Você está criando um “lugar.” Johnson recomenda ajudar a equipe a atravessar fases difíceis, tomando uma atitude positiva e honesta. Sim, a carga de trabalho é grande. E, sim, os projetos que envolvem grandes riscos são desafiadores. Diga para a sua equipe que “estamos juntos nessa, e sei que temos condições de entregar o projeto.”

Seja o exemplo
Você precisa “pensar nos exemplos de comportamento que está dando” à sua equipe, afirma David. “Se você está tendo reuniões uma atrás da outra e mal tem tempo de respirar”, qual é a mensagem que você está passando? Dê o exemplo e torne os períodos de inatividade algo importante. Mostre à sua equipe que você não está o tempo todo ligada nos 220 na empresa. “A humanidade tem de estar presente no ambiente”, afirma. Johnson concorda. Quando “sua equipe estiver muito sobrecarregada”, é preciso incentivá-la a fazer alguns intervalos”, destaca. A equipe precisa descansar, se revigorar e se desligar do trabalho.” É importante estabelecer limites para o trabalho realizado à noite e aos finais de semana. Independentemente do que você fizer, “não envie e-mails para a equipe à meia-noite,” afirma Johnson. “Você pensa, ‘Preciso enviar esse e-mail.’ Mas, ao mesmo tempo, você está atirando uma granada na paz dos seus colaboradores.” Em vez disso, Johnson sugere a utilização do Boomerang, ou qualquer programa parecido, que permite estabelecer o horário para enviar os e-mails.

Foco no motivo
Um sintoma e a causa comuns da Síndrome de Burnout é a “não-conectividade entre os valores pessoais e o trabalho a ser feito” diz David. “Você se sente cansado e estressado e, mesmo assim, continua trabalhando,” sempre se esquecendo daquilo que te levou a escolher essa carreira e a empresa. “Isso pode ser prejudicial.” Como líder, “é preciso propor a pergunta “por que”, como, por exemplo, “Por que temos que cumprir essa missão?” Como chefe, é sua função incentivar sua equipe. Relembre-os de por que os objetivos são importantes para a empresa e seus clientes. Ao compartilhar valores e estabelecer conexões, as pessoas tendem a sentir otimismo no trabalho.

Responda pela sua equipe
Caso você e sua equipe estejam atolados de trabalho, e se ressentindo disso, talvez seja o momento para pedir ao seu chefe um prazo mais extenso. “Responder e apoiar sua equipe é de sua responsabilidade, considerando as metas a serem atingidas na empresa”, afirma Johnson, que recomenda conversar com seu chefe sobre os efeitos que o estresse pode causar no desempenho e no espírito da equipe. Diga que “minha equipe está totalmente empenhada no projeto, mas as pessoas estão cansadas; e conhecemos bem a lei do baixo retorno.” Explique as consequências da Síndrome de Burnout e como é importante que seu chefe tome alguma atitude a respeito. “Alguns deslizes e erros podem acontecer, e custarão caro para consertar.” Mostre que a situação é preocupante, que você pode perder bons profissionais que são de grande valor para a organização. Em seguida, pergunte “podemos estender esse prazo? Ou então, será que a tarefa pode ser reduzida? Pense, também, no que você pode acrescentar ao grupo que possa ser útil,” destaca David. Talvez algumas reuniões possam ser desconsideradas, ou até mesmo, terem duração menor. É “essencial que os líderes deem apoio” aos seus colaboradores.

Seja a fonte do otimismo
Sempre que o trabalho for acelerado, faça um esforço significativo a fim de criar positividade, algo difícil de fazer quando se está estressado, ainda que “focando no lado positivo, “afirma Johnson. “Sorria para as pessoas. E mostre empatia.” Não se esqueça de sempre reconhecer e agradecer os esforços feitos pelos seus colaboradores. “Diga, “Estou vendo seu esforço para conseguir isso. Muito obrigada.” Alimente o sentimento de união e apoio entre as pessoas. Sempre que sua equipe vencer um obstáculo ou tiver passado por um período de enorme pressão, comemore. Reconheça as realizações, tanto as suas como as da equipe.

Princípios a serem lembrados

O que fazer:

Incentive sua equipe a fazer intervalos com frequência e aproveitar as oportunidades para se revigorar.

Dê apoio à equipe com palavras que causem inspiração. Como, “Estamos juntos nessa empreitada”. Se a carga de trabalho for muito intensa, peça ao seu chefe que prazos sejam estendidos ou que as tarefas sejam redistribuídas.

O que não fazer:

Negligenciar sua saúde e seu bem-estar. Cuidar de você mesmo e falar de suas estratégias preferidas para minimizar o estresse com sua equipe.

Achar que a Síndrome de Burnout é uma derrota pessoal. Reconheça interna e externamente que a equipe está fazendo o melhor com a ajuda dos recursos que ela tem.

Deixar-se levar pela negatividade.  Seja uma fonte de otimismo e tente cultivar a positividade em cada etapa.

 Estudo de caso nº 1Seja o exemplo para a sua equipe – e comemore as realizações

Alguns anos atrás, Peter Sena, CEO e Diretor de Criação da Digital Surgeons, empresa de marketing e design, tinha pouco tempo para cumprir um determinado prazo.

“Estávamos crescendo de todos os lados,” afirma Sena. “A equipe estava dobrando de tamanho, estávamos com clientes novos e abrindo outros escritórios. O ritmo era maluco. E a equipe de liderança estava chegando ao esgotamento.”

O estresse estava afetando seus subordinados diretos também. “Eu podia notar que minha equipe estava cansada,” – afirma ele – “As pessoas estavam ansiosas e eufóricas.”

Outro sinal importante de que a Síndrome de Burnout estava batendo à porta: os colaboradores estavam fazendo coisas erradas – estavam pisando na bola.”

E Peter sabia que precisava fazer alguma coisa. Então, ele começou a aprimorar seus próprios costumes. “Eu queria dar um bom exemplo para a minha equipe,” destaca. “Quando você está estressado, normalmente você está com trabalho em excesso e sem dormir, e também não se alimenta direito.” Isso precisava mudar. Além de fazer exercícios e tirar algumas sonecas revigorantes, Peter começou a fazer meditação. “Isso me fez ficar mais concentrado e atuante,” afirma.

Na verdade, Peter achou que a meditação lhe foi tão útil que decidiu apresentá-la para a sua equipe. “Trouxemos um especialista em meditação para ensinar como fazer exercícios com duração de 10 a quinze minutos,” afirma Peter. “Isso permitia a todos uma pausa no meio do dia.”

Peter também se certificou de que sua equipe não se sentia obrigada a estar online. “Como utilizamos o Slack, eu incentivei as pessoas a usarem a opção “não perturbe” à noite, o que nos ajudou a usar o e-mail de forma mais eficiente.” – afirma Peter.

Por fim, Peter exigiu que sua equipe fizesse intervalos, com certa frequência, sempre que achassem necessário. Um de seus colaboradores, por exemplo, gostaria de sair da empresa mais cedo uma vez por semana para fazer aula de yoga. Ele apoiou de imediato.” Quando as pessoas estão estressadas, é importante dar-lhes um nível de controle,” diz. “Quanto mais liberdade e flexibilidade você dá para que seus colaboradores possam trilhar seu caminho, mais engajados eles estarão para com as metas (da empresa).”

Peter está bastante satisfeito com a maneira que ele e sua equipe lidaram – e ainda lidam – com o estresse e a Síndrome de Burnout. “Na nossa área de atuação, é muito comum trabalhar até depois das oito horas da noite, e todo o fim de semana, mas eu queria estabelecer uma cultura empresarial mais tranquila.” – destaca Peter.

Recentemente, a Digital Surgeons atravessou outro trimestre bem agitado, mas de alto crescimento. Para comemorar, uma de suas equipes saiu para jogar laser tag (jogo de tiro a laser) numa sexta-feira à tarde. “A mensagem era:  trabalhamos muito neste último mês. Vamos fazer uma pausa para nos divertir.” – destaca. “Essas pequenas ações fazem toda a diferença.”

Estudo de caso nº 2 Cuide de você e tenha as grandes metas da empresa como foco

Magdalena Mook, CEO da International Coach Federation (ICF), a maior empresa sem fins lucrativos do mundo de coaches treinados por profissionais, afirma que logo que percebe os sinais claros da Síndrome de Burnout, ela relembra que “está sendo vigiada” pelos seus colaboradores.

“A equipe segue o caminho do líder, e percebem (minha) onda de energia, o que impacta na habilidade de desenvolvimento da equipe”, diz Mook.

Mook disse que aprendeu a “desenvolver o autoconhecimento”, de modo que ela não demostra estar tensa nem ansiosa. “Os líderes são exemplo,” diz.

Ainda assim, há momentos de estresse intenso no trabalho quando tudo se torna difícil.” Por exemplo, a ICF realiza um evento anual para seus líderes de divisão. O evento do ano passado em Vancouver contou com um planejamento logístico bastante complexo.

“Precisamos de horas extras porque trabalhamos com pessoas localizadas no mundo inteiro,” afirma Magdalena. “Temos uma reunião de Conselho com o Conselho de Administração uma semana antes de cada evento, o que contribui para mais estresse.”

Não é preciso dizer que a preparação para o evento faz as emoções aflorarem entre as pessoas da equipe – acrescenta.

Para saber lidar com isso, Magdalena começou a fazer exercícios físicos todos os dias. O que a ajudou a aliviar o estresse. “O exercício limpa a minha mente e me dá tempo para refletir.”

Ela também estipulou que seus relatórios focassem nas metas como um todo em vez de focar em cada item da sua lista de tarefas. “Estávamos todos sobrecarregados por conta da grande responsabilidade que sentíamos” – afirma. “Juntamos nossos líderes para este evento e queríamos que o tempo dele não fosse em vão “.”

Magdalena disse ter lembrado à sua equipe da missão da empresa. Ela queria que sua equipe sentisse que era “parte de algo bem maior” do que somente a equipe em si.

“Nossa visão é de que o coaching é uma fatia importantíssima da sociedade.” diz ela. “Precisamos lembrar disso quando estamos num momento difícil; a carga, as horas e a frustração pontual fazem com que tudo valha a pena.”

Assim que acabou o evento, Magdalena arranjou tempo para comemorar as realizações da equipe. Ela sabia e reconheceu junto à equipe o quanto ela tinha trabalhado. “Nós descansamos um pouco e fizemos um brinde com champanhe ao trabalho bem executado,” afirma Magdalena. “[Agradecer] vale muito.”


Knight é jornalista autônoma em Boston e palestrante na Wesleyan University.  Seu trabalho foi publicado no The New York Times, USA Today e no The Financial Times.

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