Responsabilidade Social

O papel das empresas na manutenção do nosso planeta

Andrew Winston
22 de novembro de 2018

Esta semana trouxe algumas notícias desanimadoras sobre o futuro de nosso planeta e das espécies que nele vivem. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC em inglês) publicou um novo e importante relatório sobre o quão terríveis as consequências das mudanças climáticas estão se tornando e quão rapidamente devemos avançar para evitar o pior.

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O relatório remonta ao ano de 2009, quando a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas resultou em um acordo, segundo o qual o mundo deveria manter o aquecimento global em no máximo 2°C (3,8°F), nível considerado politicamente viável, mas ainda suscetível a vastos danos, incluindo a morte de todos os corais, tempestades e calor ainda mais letais, elevação dos oceanos cobrindo países insulares vulneráveis e grandes zonas costeiras. Quando ocorreu a Conferência sobre Mudanças Climáticas de 2015 em Paris, resultando em um acordo global mais sólido, agora apoiado por todos os países do mundo com exceção dos Estados Unidos, ficou claro que precisávamos ter um objetivo mais ambicioso, 1,5°C (2,7°F). A ONU então solicitou que o IPCC analisasse o que era necessário para atingir esse objetivo.

Esta semana o relatório foi divulgado, e não é nada animador. Os cientistas publicaram um documento muito útil com perguntas e respostas, mas resumidamente, os principais pontos são:

  • O mundo já sofreu elevação de 1,0°C (1,8°F) em sua temperatura desde os tempos pré-industriais; assim, manter a elevação em 1,5°C (2.7°F) ainda é tecnicamente possível. Manter a elevação da temperatura da terra em 1,5 graus ainda resultará em devastação (por exemplo, a morte de 70 a 90% do coral), mas ainda é melhor para nós do que uma elevação de 2 graus (tanto em termos de bem-estar geral quanto de impactos econômicos).
  • Chegar a 1,5 graus exigirá “mudanças rápidas e abrangentes em sistemas em energia, terra, cidades, infraestrutura (incluindo transportes e edifícios) e indústrias”, e essas transições precisarão ser “sem precedentes em termos de escala… e resultarão em enormes reduções de emissões em todos os setores”.

 

O relatório diz que até 2030 precisaremos cortar as emissões de CO2 em 45% dos níveis de 2010 e zerar as emissões até 2050.

Não podemos esquecer que essas alterações devem ocorrer ao mesmo tempo em que a quantidade de pessoas no mundo aumenta em alguns bilhões, com um bilhão ou mais delas entrando para a classe média. Precisaremos produzir muito mais para alimentar, dar moradia, vestir e entreter a todos, mas com emissões drasticamente menores.

Então, o que as empresas deveriam entender com esse último aviso? O que poderiam fazer?

Antes de mais nada, as empresas deveriam acelerar os atuais esforços para eliminar a emissão de carbono de seus negócios. A lista de ações adotadas pelas empresas é bem desenvolvida e documentada, e a maioria das grandes empresas faz o seguinte:

  • Corta o uso e emissões de energia em suas operações. Isso inclui investimentos em iluminação e sistemas de climatização mais eficientes, utilização de novos softwares e de inteligência artificial para edifícios e operações mais eficazes; melhora de sua frota logística e adoção de veículos mais “ecológicos” e redução do empacotamento e peso de seus produtos.
  • Envolve empregados, por meio de premiações e incentivos, para inovar, encontrar maneiras operacionais de contenção de despesas e desenvolver produtos que também reduzam as emissões de empresas dos clientes. Adota energias renováveis. Mais de 150 grandes marcas já se comprometeram a utilizar 100% de energia renovável em sua rede elétrica. Define objetivos de redução de emissão de carbono com bases científicas para suas operações. Aproximadamente 500 empresas se comprometeram a definir metas de redução de acordo com dados científicos.
  • Trabalha com fornecedores em reduções sistêmicas por toda a cadeia de valor e também define grandes objetivos para eles.
  • Define preços internos do carbono para incentivar as reduções, de preferência com a cobrança de taxas para angariar fundos ou a utilização de preços “fictícios” para influenciar  a tomada de decisões de investimentos.

 

Essas ações estão se tornando a norma porque representam bons negócios. Mas o que esse novo relatório está nos contando alto e bom som é que isso não basta. Com raras exceções, a maioria das empresas está fazendo apenas o que gera retorno no modo tradicional de avaliar o retorno de um investimento — por exemplo, quando a energia solar e eólica se tornarem suficientemente baratas, elas a utilizarão. Entretanto, aderir de fato às últimas novidades científicas requer uma aceleração do ritmo de redução de emissões de carbono.

Portanto, deixem-me sugerir quatro medidas um pouco desconfortáveis que as empresas deveriam pôr em prática a fim de realmente mudar o status quo e acelerar a ação climática.

Fazer lobby em todos os níveis governamentais para a implementação de políticas pró-clima mais agressivas. Hoje, muitas empresas usam sua significativa influência como lobistas seja (própria ou em conjunto com grupos de negociação) para lutar contra regulamentações e neutralizar o governo. Mas isso deve mudar perante essa crise. A prioridade — que o IPCC deixa clara —, consiste em definir um preço para as emissões de carbono. As empresas devem fazer lobby para a imposição de um aumento de preços de carbono no mundo todo.

Paralelamente, a forma pela qual as empresas abordam toda a regulamentação deve mudar. Considere o exemplo da indústria automotiva norte-americana. Assim que as eleições de 2016 terminaram, um grupo da indústria automobilística pediu à nova administração que desse mais espaço para manobra em padrões agressivos de eficiência de combustível estabelecidos pela administração Obama. A administração vigente à época deu bem mais do que a indústria automobilística havia solicitado e congelou os níveis de eficiência de combustível.  Isso coloca as empresas em uma estranha posição na qual querem fazer melhorias, mas não tem pressão regulatória que mova o setor para cima.

Mas imagine que as empresas automotivas abordem a questão não sob a ótica de “como podemos estruturar a regulamentação para que ela nos ajude”, mas sob a ótica do reconhecimento de uma crise climática global urgente. Elas poderiam dizer ao governo, “precisamos de uma frota muito mais eficiente para ajudar o mundo a conter o aquecimento global em até 1,5 graus. Mas temos problemas na venda do mix de produtos que nos ajudarão a alcançar essa meta (as pessoas estão comprando um número excessivo de carros enormes). Que políticas podemos implementar para que carros menores ou elétricos sejam mais atrativos para os consumidores? O governo pode ajudar a construir a infraestrutura necessária para o reabastecimento desses veículos? Pode conceder benefícios fiscais agressivos para carros elétricos e bons incentivos para a negociação de carros velhos? Podemos investir em pesquisa e desenvolvimento nos setores público/privado para reduzir com rapidez ainda maior o preço de baterias? O governo pode se comprometer a comprar apenas carros elétricos para toda a sua frota? Ou, sendo até mais radical, como podemos trabalhar juntos para aumentar consideravelmente a disponibilidade de mobilidade pública e transporte?”

Mas mesmo que as empresas se apresentem à mesa com uma abordagem com foco nas alterações climáticas para seus objetivos, com uma visão de fora para dentro, a conversa necessita de dois interlocutores. Assim, para ir mais além, as empresas precisam também considerar quem apoiam em termos políticos. Os candidatos que não lutam em prol de ações climáticas não são aliados, não importa que outros temas apoiem.

 

Apoiar publicamente a verdade, a ciência e os cientistas. Na era de queixas sobre “fake news” e ataques à ciência, as empresas devem ajudar a apoiar um pilar fundamental em uma democracia e economia em funcionamento. Muitas empresas deixam muito claro que racismo ou sexismo não são comportamentos aceitáveis —  por que não enviar uma mensagem semelhante a seus empregados e fornecedores sobre comportamentos anticientíficos? Eles podem até mesmo apoiar iniciativas como Let Science Speak e denuncias o governo ou qualquer instituição que reduza o papel da ciência na política e na tomada de decisões.

Utilizar todas as plataformas disponíveis para engajar os consumidores. Dentro das empresas, o nível de conversas sobre sustentabilidade e mudanças climáticas está aumentando. Mas quantas das grandes marcas utilizam seus comerciais, mídias sociais ou embalagens para falar diretamente com consumidores sobre as alterações climáticas? Não muitas, com exceção de poucas mensagens quando se aproxima o Dia da Terra. É hora de quebrar alguns tabus sobre como as empresas dominantes podem abordar o tema. Elas podem mostrar e devem incentivar seus consumidores a fazer escolhas melhores no dia a dia que reduzam sua pegada de carbono.

Repensar as decisões de investimento e encará-las com forte viés para redução de emissão de carbono. Isso pode significar várias coisas dependendo do negócio em questão, mas temos que nos libertar dos indicadores arbitrários de dois anos e taxas de retorno de capital que paralisam as ações mais agressivas. Energias solar e eólica estão se tornando investimentos fáceis, mas são sempre tecnologias que ainda não estão “dentro do preço”, como estoque de energia no local. E se as empresas e governos aposentassem alguns monopólios antes que seu ciclo de vida estivesse terminado?

No fim, empresas e governos tem uma escolha básica: 1) decidir rapidamente sobre investimentos em grande escala fazendo enormes transições por todos os setores da economia, investindo trilhões para reduzir os custos energéticos, melhorar a saúde e evitar muitos outros riscos. Ou 2) ignorar esses avisos, e descarbonizar a economia no ritmo permitido pelos indicadores de retorno sem aposentar qualquer ativo precocemente e repor tecnologias no ritmo em que elas seriam  repostas naturalmente, em condições normais de mercado.

O segundo caminho é o que estamos trilhando agora, e parece mais tranquilo e baseado no mercado. Mas, tem uma enorme desvantagem:  exigirá um gasto futuro indeterminado e, em breve, níveis mais altos de adaptação, de realocação de pessoas que hoje vivem em áreas costeiras, de diminuição da saúde e de gerenciamento de impactos climáticos extremos em nossas comunidades e cadeias de suprimentos. O segundo caminho também nos leva além da marca de 2,0°C, o que representa a grande possibilidade de que o mundo se torne inabitável para os seres humanos.

Nada disso é fácil, mas o relatório do IPCC nos mostra que agora estamos realmente sem tempo. Não estamos falando sobre modelos teóricos em um computador, mas sim, de versões maiores de horrores climáticos que já presenciamos em todo o mundo. As empresas podem tomar a dianteira neste caso, pois têm as ferramentas, os recursos e a responsabilidade de ajudar a fazer essa transição rapidamente. A melhora econômica de longo prazo e de bem–estar humano mais do que justifica todo o esforço.


Andrew Winston é autor de The Big Pivot.  É também coautor do best seller Green to Gold e de Green Recovery. Atua como consultor para algumas empresas que são líderes mundiais sobre como podem navegar e gerar lucros diante de desafios sociais e ambientais.


Tradução por Cecilia Pinheiro

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