Sustentabilidade

As cidades costeiras estão cada vez mais vulneráveis, assim como a economia que depende delas

Gregory Unruh
2 de fevereiro de 2018
climáticas

Há uma ou duas décadas, a sociedade poderia ter optado por liquidar o investimento maciço em uma economia baseada em combustíveis fósseis e começar uma mudança promovida por políticas públicas em direção a uma infraestrutura renovável mais limpa, que poderia ter prevenido os piores efeitos das mudanças climáticas. Mas os desafios da ação coletiva, a falta de coragem política, e os interesses econômicos capazes de capturar as alavancas do poder impediram essa medida. A hora de pagar esta conta está próxima.

Isso significa que muitas das nossas grandes cidades litorâneas são o que chamamos de “ativos encalhados”. O fundador da GreenBiz, Joel Makower, define um ativo encalhado como “um termo financeiro que descreve um empréstimo vencido ou algo que se tornou obsoleto bem antes do fim da sua vida útil, e deve ser registrado no balanço de uma empresa como perda. ” Makower falava sobre a Exxon e outras empresas que construíram seus negócios na combustão de combustíveis fósseis que mudam o clima, e não sobre as cidades. Mas o conceito pode ser facilmente transferido de empresas baseadas no carbono para cidades ameaçadas pelo impacto do carbono.

Considere Miami. Uma joia cultural inestimável e insubstituível que será encalhada, tanto no sentido figurativo quanto no literal, pelas mudanças climáticas.

Como uma metrópole inteira que engloba a vida, a cultura e o bem estar de milhões de pessoas pode ser consideradas “não lucrativa”? As instalações físicas, a infraestrutura e a arquitetura nas quais Miami foi fundada foram construídas sobre o que agora podemos entender como um pressuposto equivocado. Uma premissa de permanência. Que a superfície do mar permaneceria a mesma durante a totalidade da experiência humana. Que a temporada de furacões do Atlântico enviaria tempestades pouco frequentes e de magnitude conhecida, para as quais poderíamos nos preparar e suportar. Essa percepção de permanência e previsibilidade foi a base do planejamento urbano e moldou dezenas de milhares de decisões de investimento que fomentaram bilhões de dólares de riqueza em Miami. Enquanto essa percepção não for alterada, o valor continuará subindo no papel. Mas se a percepção de permanência subjacente a essas expectativas for reduzida, o valor de mercado desaparecerá. O valor está nos olhos do comprador… até não estar mais.

As mudanças climáticas em geral, e o aumento do nível do mar em particular, são difíceis de perceber. As marés que cercam Miami elevam-se a uma taxa de centímetros por ano. É um acidente de trem em câmera lenta que será medido em décadas, e não em segundos. Por enquanto, os compradores de imóveis de Miami não percebem isso. Uma pesquisa de 2017 descobriu que a maioria dos compradores de imóveis (mais de dois terços) não perguntam aos seus corretores sobre as implicações das mudanças climáticas e o aumento do nível do mar sobre as propriedades que estão comprando.

Mas para os que estão dispostos a olhar, os impactos do aumento do nível do mar já são evidentes. As chamadas “inundações de dia ensolarado” (ou seja, inundações de maré ou inundações que ocorrem sem chuva) já estão ocorrendo de forma previsível em muitas partes de Miami, inundando ruas, bloqueando o trânsito, matando gramados, corroendo a infraestrutura e os carros, contaminando as águas subterrâneas e revertendo o sistema de esgoto. À medida que o aumento do nível do mar acelera, a conclusão inescapável é que algum ponto em Miami será inundado e ficará inabitável. A não ser que aconteça um milagre de engenharia civil, toda a cidade se tornará um ativo encalhado no qual a sociedade terá que dar baixa. E ela não está sozinha: a Reuters estima que propriedades no valor de pelo menos US$ 1,4 trilhão situam-se a menos de 700 metros da linha costeira dos EUA, mas o número real provavelmente é maior.

Quando a exuberância irracional do valor dos imóveis costeiros estourar e milhares de compradores abaixarem coletivamente o preço desses ativos, a bolha imobiliária de dez anos atrás parecerá insignificante.

As consequências reverberarão pela economia, da sociedade e do universo político. Já vimos a devastação causada pelo furacão Harvey em Houston, uma cidade que também foi construída sobre a falsa premissa fundacional da permanência. Os planejadores e as empresas de Houston também ignoram, desde 1996, advertências de que as mudanças climáticas trariam exatamente o tipo de desastre que assola a cidade hoje. Mas não podemos culpá-los. Todo mundo ignora advertências.

Agora não dá mais. Líderes empresariais e políticos precisam assimilar a grande ideia de que as mudanças climáticas podem significar grandes perdas financeiras nas grandes metrópoles costeiras do mundo.
————————————————————————————————————————————
Gregory Unruh é professor da cátedra Arison Professor na George Mason University. Ele é coautor, com Ángel Cabrera, do livro a ser lançado “Being Global: How to Think, Act and Lead in a Transformed World“.

Compartilhe nas redes sociais!