Liderança

Como os CEOs sem diploma universitário chegaram ao topo

Kim Rosenkoetter Powell, Elena Lytkina Botelho e Vamsi Tetali
30 de maio de 2018

Cada vez mais, os empregadores apostam em credenciais acadêmicas. Quase um terço dos empregos que antes exigia apenas um diploma de ensino médio, agora exige um diploma universitário de quatro anos, enquanto um em cada quatro empregos que exigia um diploma de bacharel, agora exige um de mestrado. Ao mesmo tempo, 75% dos americanos acreditam que o ensino superior é muito caro e inacessível.

Frequentemente, os empregadores supervalorizam o pedigree porque querem se proteger — mas ainda há muitos erros de contratação. Enquanto isso, um grande número de superstars em potencial está sendo negligenciado.

Por mais de 20 anos temos ajudado conselhos e CEOs a evitar erros dolorosos quando selecionam e preparam CEOs e líderes do C-level. Ao longo desse trabalho, levantamos um conjunto de dados de mais de 17 mil avaliações executivas desse nível e nosso CEO Genome Project estudou 2.600 deles em profundidade, para analisar quem chega ao topo e como. Vimos em primeira mão que um diploma de alto nível não garante que alguém seja bom no cargo, mas, mesmo assim, ficamos surpresos ao descobrir que 8% dos CEOs da nossa amostra não concluíram a faculdade.

Chegar ao topo nunca é fácil, mas é especialmente difícil quando você não tem as marcas de prestígio que podem impressionar os potenciais empregadores. Então, como os 8% de nossa amostra de CEOs chegaram ao topo sem um diploma universitário? Os CEOs que superaram as probabilidades fizeram-se parecer como uma aposta segura, destacando-se de três maneiras.

Prove que você está por dentro: na ausência da credibilidade conferida pelas credenciais acadêmicas, você pode estabelecer sua boa-fé adquirindo um conhecimento profundo e específico do setor e da empresa. Dos CEOs sem diplomas universitários, 89% “cresceram” no mesmo setor em que se tornaram CEO e passaram 40% mais tempo nele, comparado a seus pares com diploma universitário. Os empregadores muitas vezes se sentem mais seguros contratando pessoas de dentro do setor e da empresa. O profundo conhecimento e os relacionamentos desses CEOs deram a eles uma plataforma de sucesso que mais do que compensou a falta de educação formal.

Os CEOs sem diploma também ficaram, em média, 25% mais tempo nos cargos e ocuparam 13% menos cargos que seus pares CEOs. Normalmente, eles demoraram 15% a mais para se tornarem CEO.

Em 1970, Bob iniciou a carreira como decifrador de códigos durante a Guerra do Vietnã. Em seu primeiro emprego fora do exército, trabalhou para uma empresa de alarmes. Ocupando vários cargos em duas empresas e trabalhando com quatro CEOs diferentes, Bob conquistou confiança e credibilidade suficientes para eliminar qualquer preocupação com suas credenciais. Sua maior conquista foi levantar e vender uma empresa de segurança que tinha apenas alguns milhares de dólares no banco, e que havia sido registrada como um investimento pelos donos quando ele assumiu o controle. A empresa foi vendida por quase US$ 50 milhões. Seu conhecimento profundo do setor o ajudou a liderar a empresa ao longo de uma transformação de nove anos, na qual consolidou operações, adquiriu 24 empresas e reduziu a inadimplência em 88%, dobrando a receita.

Se você não tem um histórico forte em uma única empresa ou setor, provavelmente terá mais sorte em empresas menores do que grandes. Descobrimos que as pequenas empresas estão abertas a uma gama muito mais ampla de históricos e pedigrees educacionais, em parte porque o banco de talentos disponíveis é geralmente mais rarefeito. Finalmente, há sempre a opção de iniciar sua própria empresa. Os CEOs que não têm diploma universitário têm duas vezes mais probabilidade de serem fundadores de empresas do que os CEOs.

Tenha resultados acima do normal. Os CEOs que chegam ao topo sem diploma universitário deixam seus resultados descomunais falarem por si mesmos. Como compartilhamos em “What sets successful CEOs apart” (“O que diferencia os CEOs de sucesso”, em tradução livre), a confiabilidade é um dos quatro comportamentos do Genoma do CEO que diferencia os CEOs de sucesso — e o único que também duplica suas chances de ser contratado para o cargo.

“Mark”, um dos CEOs que estudamos, estava acostumado a ser subestimado e prosperou superando as expectativas das pessoas. Quando começou a carreira de motorista de caminhão, um concorrente percebeu que entregava três caminhões por dia, em vez da carga diária esperada. “Isso era inédito”, disse Mark. “Então, ele me pediu para ir trabalhar para ele.” Em seu primeiro trabalho de vendas, apresentou de novo os mesmos resultados descomunais. Embora esperava-se de seus colegas que aumentassem as vendas de suas divisões em 5% a 10%, seu chefe o desafiou a aumentar sua divisão em 30% e prometeu que qualquer coisa acima de 10% seria devolvida como bônus. Destemido, Mark aumentou sua divisão em 60% e expandiu o alcance da empresa de uma única cidade para 13 estados. Com foco de laser nos resultados, Mark passou de motorista de caminhão para CEO de uma empresa de US$ 50 milhões em menos de duas décadas.

O sucesso de Mark derivou do fato de que ele entregava resultados — e era notado por isso. A maioria (56%) dos CEOs sem diplomas universitários em nossa pesquisa ascendeu por meio de vendas e marketing. Os números falam mais alto do que as credenciais, e é mais fácil ser notado em cargos que geram resultados de alto nível mensuráveis para a empresa.

Curiosamente, os CEOs sem diplomas universitários tinham quase o dobro do índice de experiência militar do que o conjunto geral de CEOs que analisamos. Na falta de um diploma universitário, a experiência militar pode oferecer oportunidades para aprender habilidades importantes e demonstrar a capacidade de obter resultados em experiências iniciais de liderança.

Seja um ímã de talento. Os CEOs sem diplomas que analisamos eram mais propensos do que seus colegas a se cercar proativamente de grandes talentos e se apoiar na equipe para contribuir com expertise. Eles eram humildes e mais abertos a solicitar contribuições de todos os tipos de pessoas, independentemente de status ou posição.

Conhecemos Brian quando ele se tornou CEO de uma empresa de recrutamento de US$ 350 milhões. Sua receita para o sucesso? Apoiar-se nas pessoas com forte desempenho e buscar grandes ideias — em todos os níveis da empresa. Logo depois que ele contratou uma nova assistente administrativa, ela sugeriu uma ideia que resultou no maior contrato da história do setor. No início de sua carreira em uma outra empresa, Brian começou a pedir a seus clientes para citar as pessoas mais talentosas que conheciam no setor. Embora um cliente tenha citado alguém que era bem mais antigo e fazia muito mais dinheiro do que Brian, ele convenceu essa pessoa a se juntar à sua equipe. “Até hoje, ele administra uma de suas filiais mais lucrativas.”

Esse tipo de foco na construção de uma equipe forte vai longe. Por outro lado, ficamos intrigados ao descobrir que os CEOs que viam a “independência” como seu traço de caráter fundamental tinham chance duas vezes maior de apresentar desempenho abaixo dos outros CEOs.

Cada um de nós enfrenta obstáculos formidáveis no caminho para o topo. Embora os CEOs que estudamos superem o obstáculo adicional de não ter feito faculdade, acreditamos que suas carreiras podem fornecer lições a outros líderes, independentemente de seu nível de instrução. Todos nós faremos um melhor trabalho se aprendermos profundamente sobre o nosso negócio, nos concentrarmos na entrega de resultados e aprendermos a nos apoiar nos outros.
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Kim Rosenkoetter Powell é diretor da ghSMART e colíder do CEO Genome Project. Também é coautora do livro The CEO next door (Crown Publishing, 2018, no prelo).
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Elena Lytkina Botelho é sócia da ghSMART, uma empresa de consultoria de liderança. Também é fundadora do CEO Genome Project e coautora do livro The CEO next door (Crown Publishing, 2018, no prelo).
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Vamsi Tetali é consultor de liderança na ghSMART. Ele trabalhou na McKinsey & Company.

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