Educação

CEOs com MBA são mais autocentrados

Nicole Torres
9 de dezembro de 2016

O estudo: Danny Miller, pesquisador da HEC Montreal, em parceria com Xiaowei Xu, professora assistente da University of Rhode Island, analisou o desempenho de 444 CEOs americanos famosos que, de 1970 a 2008, saíram na capa de Fortune, Forbes e BusinessWeek. Miller e Xu analisaram a estratégia de crescimento e desempenho das empresas e a remuneração do CEO e descobriram que CEOs com MBA tinham mais probabilidade de atuar em benefício próprio em detrimento da empresa. Especificamente, eles adotavam estratégias mais caras de crescimento e tinham menos capacidade de manter um bom desempenho que seus pares sem MBA.

O desafio: É mais provável que alguém com MBA priorize seus próprios interesses? Os conselhos devem tomar cuidado com executivos que frequentaram escolas de negócio? Professor Miller, defenda seu estudo.

Miller: Teria sido bom descobrir que os gestores com MBA são mais eficazes e responsáveis que seus pares sem o diploma. Na pior das hipóteses, esperávamos não encontrar nenhuma relação. Infelizmente, não foi o caso. Um quarto de nossa amostra era de CEOs com MBA, e, nos três anos após serem capa de revista, o valor de mercado dessas empresas caiu 20% mais do que o de empresas geridas por CEOs sem MBA. Essa diferença de desempenho manteve-se, de forma significativa, até sete anos depois da reportagem de capa.

Além disso, o gasto com aquisições dos gestores com MBA foi quase o dobro daqueles sem MBA, levando em conta todas as variáveis controladas, como tamanho da empresa e alavancagem. E, no ano anterior à reportagem de capa, as empresas de gestores com MBA tinham níveis mais baixos de fluxo de caixa e retornos inferiores sobre os ativos, o que sugere que esses gestores tendem a buscar crescimento rápido e dispendioso.

HBR: Como esses resultados sinalizam comportamento autocentrado?

Argumentamos que, nas empresas, três elementos caracterizam o comportamento autocentrado do CEO: (1) o sucesso é alcançado por meio de expedientes rápidos e perigosos, como certas aquisições; (2) o sucesso é passageiro; e (3) o executivo se beneficia do sucesso pessoalmente, por meio de aumentos de remuneração maiores que a média.

Gestores com MBA em seu estudo receberam aumentos?

Sim. Após a reportagem de capa, receberam aumentos maiores do que os que não tinham MBA, apesar do pior desempenho. Em média, gestores com MBA receberam aumentos cerca de 15% mais rápido que gestores sem MBA nos três anos após sair na capa — e cerca de US$ 1 milhão a mais por ano.

Seu estudo começa em 1970. Há mais CEOs com MBA hoje? O MBA se tornou mais importante para o sucesso nos negócios?

O MBA é muito mais comum agora do que em 1970. Hoje, a porcentagem de CEOs com o diploma ultrapassa 30%, enquanto nos anos 1970 era cerca de 12%, e nos anos 1980 e 1990 cerca de 20%.

Por que se concentrar em pessoas que foram capa de revista? Essa amostra realmente representa todos os CEOs?

Optamos por examinar os executivos que foram bem-sucedidos o suficiente para ser reconhecidos publicamente e que tiveram oportunidade de explorar esse sucesso pessoalmente. Nesse tipo de amostra há amplas possibilidades para o comportamento autocentrado.
Claro, embora essa seja uma amostra grande, ela inclui apenas grandes empresas de capital aberto e bem-sucedidas, muitas das quais são bem conhecidas. Nossas descobertas podem não se aplicar a empresas menores, menos proeminentes ou de capital fechado.

Outras pesquisas descobriram que fatores como idade, ser fundador da empresa, qualidade da educação e até mesmo gênero podem influenciar o comportamento e o desempenho do CEO. Você verificou se houve influência desses fatores?

Sim, nossa análise controlou todos esses fatores, e muitos outros. Depois de sair na capa, os únicos fatores que pareciam relacionados às mudanças no desempenho do CEO foram qualidade das escolas frequentadas e desempenho anterior da empresa. Para todos os CEOs, a qualidade do ensino estava relacionada com melhor desempenho da empresa depois da capa; e o melhor desempenho da empresa antes da capa estava relacionado com pior desempenho depois dela — é difícil permanecer no topo. Mas as empresas de gestores sem MBA caíram bem mais lentamente. Descobrimos também que fundadores e gestores com MBA fizeram mais aquisições e que CEOs que frequentaram as melhores escolas fizeram menos.

Não descobrimos diferenças de gênero, talvez porque houvesse poucas mulheres em nossa amostra. No entanto, não conseguimos medir traços de personalidade, que talvez desempenhem um papel importante.

As escolas de negócios promovem comportamento autocentrado?

Talvez isso aconteça. Muitos programas de MBA enfatizam resultados, indicadores financeiros e contábeis, alavancagem, preço de ações, concorrência e sucesso econômico pessoal. Menos ênfase é dada nas habilidades criativas e científicas, satisfação intrínseca no trabalho, contribuição social e ética nas relações de negócio. Por outro lado, talvez nossos achados não se expliquem pelo currículo, mas pela autosseleção. Talvez pessoas mais autocentradas tenham maior propensão de entrar em programas de negócios do que, digamos, em artes ou ciências.
Além disso, nossos resultados podem ser influenciados, em parte, pelo modo como os outros reagem ao comportamento dos CEOs. Pesquisas sugerem que fazer aquisições é uma estratégia mais perigosa do que crescer organicamente, e pode ser que investidores, frequentemente, penalizem empresas que crescem comprando outras empresas.
Acima de tudo, não afirmamos que um programa de MBA faz CEOs se comportar de forma negativa. Nossa análise estabelece apenas associação,
não causalidade. Procuramos deixar isso claro no artigo.

Como as organizações podem combater o comportamento autocentrado?

A cultura adequada pode reduzi-lo. Valores refletidos nos objetivos da empresa, práticas de RH, rituais de socialização e a forma como a empresa lida com os acionistas podem garantir que o tipo certo de CEO — com ou sem MBA — seja nomeado. A cultura também determina os critérios pelos quais os CEOs são avaliados. Isabelle Le Breton-Miller e eu estudamos “culturas densas” de empresas familiares longevas. Nelas é improvável que um diploma de MBA tenha qualquer influência sobre a conduta estratégica do CEO e sua gerência de longo prazo.

Sistemas de incentivo são também importantes. Recompensas desproporcionais do CEO por desempenho a curto prazo reforçam exatamente o tipo de comportamento que encontramos. Vincular o pagamento a resultados de longo prazo, financeiros ou não, é provavelmente a melhor opção.

Quais os planos de pesquisa para o futuro?

Agora, Xiaowei Xu e eu estamos tentando expandir a pesquisa para uma amostra maior de empresas. Também seria útil verificar até que ponto o conteúdo de programas de MBA específicos pode mitigar os efeitos que encontramos. Por exemplo, será que um maior foco na sustentabilidade, no serviço aos acionistas e na responsabilidade social corporativa atenuaria os instintos autocentrados? Por fim, todos temos diferenças de personalidade. Como a interação entre essas diferenças e a educação influencia o comportamento gerencial?
Portanto, é muito cedo para dizer: “Não escolha um CEO com MBA para gerir sua empresa”?

Muito já foi escrito sobre a natureza autocentrada dos gestores com MBA, e Xiaowei e eu queríamos descobrir se a acusação se justificava ou não. Afinal, nós trabalhamos para escolas de negócios. Eu tenho um MBA, e muitos dos nossos colegas também, e somos pessoas capazes e éticas. Portanto, não é uma boa ideia usar nosso estudo para depreciar os gestores com MBA. Mas é uma boa ideia ficar alerta para evidência dos tipos de comportamento oportunista que descrevemos, independentemente de quem seja o CEO.

Entrevistado por Nicole Torres

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