Tomada de decisão

Você precisa parar de cancelar e remarcar compromissos

Whitney Johnson
11 de outubro de 2018
remarcar compromissos

Outro dia, um amigo percebeu que seu carro estava batido ao chegar ao local onde o havia estacionado. Agora, todas as vezes em que entra em contato com a seguradora, ouve a seguinte mensagem: “Não podemos atendê-lo no momento. Deixe sua mensagem. Responderemos todas as ligações até o final do dia”.

Desde então, ligou mais de dez vezes e em apenas duas recebeu resposta.

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Por que a mensagem automática de uma seguradora garante resposta para “todas as ligações até o final do dia” quando apenas 20% delas são de fato respondidas? Pelos mesmos motivos que supostamente a maioria de nós promete “responder um e-mail na segunda-feira” ou “enviar aquele relatório até sexta-feira”, mas não o faz.

Por que todos nós nos comprometemos a fazer coisas que não seremos capazes de cumprir?

Assumimos compromissos demais. Como não gostamos de decepcionar as pessoas, dizemos o que achamos que elas querem ouvir. Nós nos sentimos pressionados nesse momento e não avaliamos o quanto nos sentiremos pressionados depois. Não refletimos sobre o tempo que as coisas levam para ser feitas — e não reservamos o suficiente em nossos dias para lidar com as (inevitáveis) emergências e atrasos.

Há alguns anos, eu vivia desmarcando e remarcando reuniões. Aceitava o compromisso (muito mais fácil do que recusar) e, com a aproximação da data, sentia-me sobrecarregada e com vontade de cancelar. E, muitas vezes, cancelava.

Foi então que li o livro O poder da confiança, de Stephen M.R. Covey, sobre ser uma pessoa confiável. Sempre achei que fosse, mas o autor explica que quando marcamos e desmarcamos compromissos, não somos confiáveis. Quando não conseguimos cumprir o prometido por livre e espontânea vontade, não inspiramos confiança.

Desde então, percebi que a tentação de não cumprir compromissos é agravada pela facilidade. Nunca foi tão fácil e quase indolor desmarcar compromissos em tempos de mensagens de texto. É possível fazer isso sem nem mesmo falarmos, e muito menos nos encontrarmos, com a pessoa. Podemos desistir cinco minutos antes, sem necessidade de dar explicações. Basta incluir um emoticon na mensagem e estamos convencidos de que nossa obrigação foi cumprida.

Mas o processo interno ainda não é tão simples. Sentimos culpa. Remoemos sobre o que deveria ser feito e somos consumidos pela indecisão. Quando finalmente desfazemos o compromisso, a nossa autoconfiança fica destruída. Isso reforça a convicção de que não somos capazes de dar conta de tudo, de que não temos domínio sobre nossas agendas e nem mesmo sobre nossos esforços.

Há consequências para a vida pessoal e certamente também para o ambiente de trabalho. Honrar compromissos é sinal de maturidade. Empregados que não concluem tarefas, que entregam trabalhos fora do prazo ou malfeitos, que estão sempre atrasados, perdendo reuniões e cancelando compromissos, são um fardo para outros membros da equipe e um prejuízo aos empregadores.

Ao assumirmos papéis de liderança, esses maus hábitos quase onipresentes tomam proporções ainda maiores em um ambiente de trabalho já contaminado. É difícil exigir responsabilidade dos subordinados quando nós mesmos não cumprimos nossas obrigações. É complicado contar com os outros quando sabemos que eles não podem contar conosco. Como inspirar comprometimento naqueles que lideramos quando eles sabem que, para nós, esse princípio é discutível? É impossível ser um bom líder se não temos controle sobre nós mesmos.

No ano passado, decidi parar de remarcar meus compromissos e passei a enxergá-los tal como são: compromissos. E o que descobri foi que, quando me comprometia a cumprir o que havia assumido, sentia-me bem menos pressionada. E quanto mais honrava minhas obrigações, mais confiança sentia em mim mesma. Compreendi quanto tempo realmente as coisas levam para ser feitas e fui aperfeiçoando minha capacidade de estipular prazos.

Se o seu sim na verdade quer dizer não, então diga não logo de cara. Estamos todos no mesmo barco – nosso tempo é limitado e, aparentemente, temos infinitas coisas importantes a fazer. Não sabe dizer não? Procure no Google “como dizer não a uma solicitação” e pratique. Diga sim apenas se for capaz de cumprir — caso contrário, comprometa-se consigo mesmo a dizer não. Peça tempo para pensar se estiver inseguro. Não se comprometa além do que pode. Se você estiver realmente sobrecarregado, peça um tempo para organizar suas prioridades. Uma vez dito sim, leve-o a sério. Se o compromisso pareceu ser uma boa ideia naquele momento, ele ainda o é — mesmo que o valor esteja apenas em ser considerado confiável e correto.


Whitney Johnson é coach executiva, palestrante, pensadora de inovação. Recentemente, foi nomeada como uma das mais influentes pensadoras de gestão pela Thinkers50. É autora dos livros Build an A-team, da Harvard Business Press, e Disrupt yourself, aclamado pela crítica.

Tradução: Sandra Polidori

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