Negócios internacionais

As cadeias de suprimentos estão prestes a melhorar graças à Blockchain

Michael J. Casey e Pindar Wong
8 de fevereiro de 2019

Em 2015, quando um surto de E.coli na rede de fast food americana Chipotle Mexican Grill levou à contaminação de 55 clientes, as notícias, o fechamento de algumas unidades e as investigações arruinaram a reputação da empresa. As vendas diminuíram rapidamente, e o preço das ações da Chipotle caíram 42%, mantendo-se em baixa por três anos, situação da qual a empresa não se recuperou.

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O problema central da crise na Chipotle, sediada em Denver, é recorrente em empresas que dependem de vários fornecedores para entregar peças e ingredientes: a falta de transparência e definição de responsabilidade em uma cadeia de suprimentos complexa. Sem conseguir monitorar os fornecedores em tempo real, a Chipotle não conseguiu evitar a contaminação nem contê-la de forma objetiva depois que foi descoberta.

Atualmente, diversas startups e empresas estudam uma solução radical para o problema: usar a tecnologia blockchain para transferir titularidade, gravar permissões e registrar atividades com o intuito de rastrear o fluxo de bens e serviços entre empresas e além de fronteiras.

Com a tecnologia blockchain, sistema principal que sustenta o bitcoin, computadores de empresas diferentes seguem um protocolo criptográfico para validar constantemente atualizações em um livro-razão compartilhado. Uma vantagem fundamental desse sistema distribuído, do qual nenhuma empresa tem o controle, é que resolve problemas de divulgação de informações e definição de responsabilidade entre pessoas e instituições cujos interesses não estão necessariamente alinhados. Informações importantes para ambos os lados podem ser atualizadas em tempo real, tornando desnecessárias conciliações trabalhosas e propensas a erros entre os registros internos de cada empresa. Isso permite a cada membro da rede uma visibilidade melhor e mais rápida de toda a atividade.

Em resumo, trata-se um sistema global para mudar os atuais padrões de confiança e transparência seletiva. Segundo seus defensores, a tecnologia blockchain elevará o poder da internet. Apesar de muita atenção e dinheiro já terem sido investidos em aplicações financeiras da tecnologia, o uso desta é igualmente promissor no relacionamento de cadeias de suprimento globais, cuja complexidade e diversidade de interesses propõem exatamente os desafios que essa tecnologia procura abordar. A tecnologia pode revelar informações ocultas até o momento e permitir usuários a anexar tokens digitais — recurso digital único e negociável, baseado no bitcoin — para acompanhar as mercadorias nas várias fases de produção, transporte e entrega e também a fazer a transferência de titularidade entre elementos da cadeia de suprimentos. Isso pode proporcionar às empresas maior flexibilidade para identificar mercados e preços de risco, ao capturar o valor investido no processo em qualquer ponto ao longo da cadeia. O resultado são cadeias de demanda dinâmicas no lugar de cadeias de suprimentos rígidas, resultando no uso mais eficiente dos recursos.

Diversos esforços já estão em andamento. Provenance, uma startup do Reino Unido, explica a clientes potenciais que poderão utilizar sua tecnologia baseada na blockchain para “compartilhar a jornada de seus produtos e o impacto da empresa no meio ambiente e na sociedade.” A Walmart está trabalhando em conjunto com a IBM e a Tsinghua University, em Pequim, para acompanhar o trajeto da carne de porco pela China com o blockchain. A gigante da mineração, BHP Billiton, está usando a tecnologia para rastrear a análise de minerais feita por vendedores externos. A startup Everledger transferiu informações de identificação exclusivas de um milhão de diamantes para um sistema livro-razão em um blockchain para estabelecer garantia de qualidade e para ajudar joalheiros a cumprirem os regulamentos contra produtos com “diamantes de sangue”.progressos nas tecnologias de chips e sensores, que traduzem informações sobre o transporte automatizado de produtos físicos, devem melhorar significativamente estes sistemas de blockchain em desenvolvimento. este sistema pode ser ainda mais poderoso aliado a “smart contracts” (contratos inteligentes), nos quais direitos e obrigações contratuais, incluindo cláusulas sobre pagamento e entrega dos produtos, podem ser celebrados automaticamente por um sistema autônomo em que todos os signatários confiam.

Todavia, os potenciais benefícios de rastreamento e automação desta tecnologia não se limitam a produtos, também pode ser usada para controlar pessoas. Funcionários e supervisores de diferentes empresas podem receber permissões especiais protegidas por criptografia, que, dentro do blockchain, aparecem como identificadores rastreáveis e únicos – de preferência criptografados para proteger as informações pessoais do funcionário. Isto permitiria a todos os membros da comunidade da cadeia de suprimentos monitorar as atividades de cada funcionário credenciado. A Chipotle, por exemplo, poderia ver em tempo real se um funcionário credenciado de um de seus fornecedores de carne está realizando os procedimentos apropriados de esterilização e desinfecção.
Este tipo de credenciamento transparente e comprovável será importante principalmente para a prototipagem rápida, que é o núcleo do modelo de produção dinâmico e por demanda da chamada Indústria 4.0. Uma equipe da fabricante de peças de precisão Moog Inc. lançou um serviço chamado Veripart, cujo objetivo é superar um desafio que o diretor da unidade de prototipagem rápida e inovação, James Regenor, assim descreveu: “Como a equipe de manutenção de um porta-aviões norte-americano poderá confiar totalmente que o arquivo baixado para imprimir uma peça nova em 3D para um avião de caça não foi hackeado por um adversário estrangeiro?” Essa pergunta reforça um dos argumentos mais convincentes a favor da tecnologia blockchain: sem sua solução para a questão da confiança, a concretização da economia sofisticada, descentralizada, movida pela internet das coisas que muitos estão projetando pode acabar sendo impossível.

Essas potenciais melhoras de eficiência, possibilitadas por informações não disponíveis até o momento, sugerem que a tecnologia blockchain pode gerar economias enormes para as empresas de todo o mundo. Antes, porém, existem enormes obstáculos a ser superados.

Um dos desafios reside no desenvolvimento e na administração da tecnologia. Em termos ideais, para estimular o livre acesso, a concorrência e a inovação, as cadeias de suprimento globais teriam a opção de se firmar em um blockchain público, do qual nenhuma entidade detém o controle. Em outras palavras, informações extraídas da produção e atividade comercial seriam criptografadas e registradas em livros-razão de livre acesso. No entanto, inevitavelmente, também vão surgir os livros-razão particulares e de acesso restrito, gerenciados por consórcios de empresas, cujos membros buscarão proteger informações sobre market share e lucro. Ambos são inevitáveis e apresentam outros desafios. O primeiro, atingir a capacidade econômica global para os mais significativos blockchains públicos, serviço de moeda digital bitcoin e plataforma Ethereum de smart contracts, é restringido pelas divisões das comunidades open-source, dificultando um acordo sobre atualização de protocolos. O segundo, a necessidade de haver interoperabilidade entre os blockchains públicos e privados, o que exigirá a criação de padrões e acordos.

A lei é outro grande obstáculo. Uma complexa variedade de regulamentos, leis marítimas e códigos comerciais regem os direitos de propriedade e posse pelas rotas de transporte mundiais e suas múltiplas jurisdições. Será difícil conseguir unir as leis do velho mundo e as empresas comandadas por pessoas que as regem à natureza digital, desmaterializada, automatizada e desnacionalizada dos blockchains e smart contracts.

Antes de convencer os governos a apoiar essa iniciativa, e de forma global e coordenada, a indústria deve chegar a um acordo sobre melhores práticas, padrões de tecnologia e estrutura de contratos através das fronteiras e jurisdições internacionais. Em Hong Kong, o consórcio de blockchain recentemente formado, Belt and Road, busca organizar esse processo com a adoção de abordagens de governança da internet, idealizada e testada pela ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers), empresa gestora de domínios. Na condição de organização internacional e liderada pelo setor privado, ICANN já se mostrou ser uma administradora e juíza global eficaz.

Estes desafios devem ser medidos em relação às demandas de uma economia global que ainda não se recuperou completamente da crise financeira de 2008 e está potencializando forças de desintegração e isolacionismo nos EUA e na Europa. Qualquer sistema que prometa combater essas tendências ao remover os atritos intercomerciais que freiam os negócios e ao mesmo tempo aumentar a transparência e o controle para as empresas e seus clientes vale a pena ser explorado. É por esse motivo que um número crescente de investidores, empresas, acadêmicos e até governos está começando a ver a blockchain como uma tecnologia extremamente necessária para a renovação econômica.


Michael J. Casey é autor de The Age of Cryptocurrency: How Bitcoin and the Blockchain Are Challenging the Global Economic Order. É conselheiro sênior do Media Lab’s Digital Currency Initiative do MIT e sócio do Agentic Group.


Pindar Wong é presidente da VeriFi Ltd, empresa de consultoria de infraestrutura financeira na internet e fundador do OBOR.IO, precursor do ‘Belt and Road Blockchain’. Ele é um entusiasta do Bitcoin e preside o ScalingBitcoin.org.

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