Gênero

A oportunidade de trilhões de dólares no apoio às mulheres empreendedoras

Shalini Unnikrishnan e Roy Hanna
20 de dezembro de 2019

Muito tem se discutido e debatido sobre como apoiar as mulheres empreendedoras – e com razão. Atualmente, as empresas lideradas por mulheres são menos propensas a sobreviver, apesar das evidências de que suas startups costumam ser muito bem-sucedidas. Uma nova análise da Boston Consulting Group (BCG) revela que, se mulheres e homens de todo o mundo participarem igualmente como empreendedores, o PIB mundial poderia crescer aproximadamente 3% a 6%, dando um incremento à economia global da ordem de US$ 2,5 a US$ 5 trilhões.

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Então, como apoiar as mulheres empreendedoras? Muitas vezes, o foco recai em melhorar o acesso ao crédito (capital financeiro) ou oferecer formação para ajudá-las a desenvolver novas habilidades (capital humano) – duas áreas críticas para melhorar o sucesso das empresas lideradas por mulheres. No entanto, outro fator essencial para o sucesso dessas empresas costuma ser esquecido: o acesso às redes.

Por trabalharmos com clientes dos setores público, privado e social do mundo todo, vimos por conta própria como essas redes podem ser poderosas. E também pudemos compreender que esses mecanismos de apoio são escassos.

A boa notícia é que a ação em todos os setores pode preencher esse vazio.

A lacuna de gênero no empreendedorismo

Para entender melhor a diferença entre gêneros no mundo empresarial, analisamos os dados de 2014 a 2016 da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), detalhando as taxas de empreendedorismo e sustentabilidade dos negócios, por gênero, em 100 países. Entre alguns resultados, encontramos:

  • Nas seis regiões globais, a porcentagem de homens em idade ativa que iniciam um novo negócio excede a porcentagem correspondente de mulheres em idade ativa empreendedoras em cerca de quatro a seis pontos percentuais.
  • Quatro países – Vietnã, México, Indonésia e Filipinas – conseguiram reverter a norma global; mais mulheres do que homens abriram novos negócios nesses países em 2016.
  • Em 50 dos 100 países analisados, a diferença de gênero em novas startups (a porcentagem de homens em relação a mulheres que abrem um novo negócio) diminuiu de 2014 a 2016, com os maiores progressos ocorrendo na Turquia, Coreia do Sul e Eslováquia.
  • Em 40 países, entretanto – notadamente na Suíça, no Uruguai e na África do Sul –, a diferença entre os gêneros tem aumentado.

Embora a desigualdade de gênero na atividade de startups seja bastante consistente na maioria dos países, a desigualdade no sucesso comercial de longo prazo tem uma variação mais ampla. Em todas as regiões, com exceção à América do Norte, as empresas lideradas por mulheres demonstram níveis mais baixos de sustentabilidade do que as empresas chefiadas por homens. No Oriente Médio e no Norte da África, por exemplo, as empresas lideradas por mulheres têm cerca de 50% de probabilidade, em relação às lideradas por homens, de permanecerem em operação 3,5 anos após sua criação, enquanto na América Latina, essa probabilidade aumenta para 82%.

Elementos que aumentam a disparidade entre gêneros

Nossa pesquisa indica que existem muitas razões para esses déficits, entre os quais as diferenças no acesso ao apoio financeiro. De acordo com uma análise do BCG de dados de 2018 da MassChallenge, uma rede global de aceleradores sediada nos EUA, os investimentos em empresas fundadas ou cofundadas por mulheres foram, em média, de US$ 935 mil, menos da metade da média de US$ 2,1 milhões investidos em empresas fundadas por empresários do sexo masculino. Essa disparidade existe apesar do fato de as startups fundadas e cofundadas por mulheres terem um desempenho melhor ao longo do tempo, gerando uma receita acumulada 10% maior em um período de cinco anos: US$ 730 mil para as mulheres, em comparação com US$ 662 mil para os homens.

Esse desafio de financiamento está bem documentado, mas nossa pesquisa também identificou outro desafio subestimado – o acesso relativamente limitado das mulheres ao “capital social” na forma de robustas redes de apoio.

Observamos com frequência que as redes são um fator essencial para o sucesso de pequenas empresas. Em países de baixa e média renda, por exemplo, identificamos que conhecer pelo menos um outro empreendedor (um análogo das redes de empreendedores) teve um reflexo nas empresas lideradas por mulheres. Observamos que redes mais fortes e mais amplas estão ligadas a menores desigualdades de gênero na sustentabilidade empresarial e ao melhor acesso a uma variedade de fontes de financiamento. Pesquisas de outros grupos, incluindo a Asia Foundation, demonstraram que as redes par-a-par incentivam as mulheres a estabelecer ambições mais elevadas para suas empresas, planejar o crescimento e adotar inovações.

Construindo uma rede melhor

As grandes corporações podem desempenhar um papel central no desenvolvimento de redes. Em muitas partes do mundo, pequenas empresas lideradas por mulheres são um elemento significativo nas cadeias de suprimentos globais, seja como distribuidoras, varejistas ou fornecedores. As empresas podem promover redes que ajudem essas empresárias a obter informações e conselhos sobre todos os aspectos, do financiamento das operações à gestão do inventário. Fabricantes de produtos ao consumidor, por exemplo, podem estabelecer parcerias com organizações sem fins lucrativos, associações comerciais ou câmaras de comércio locais, a fim de reunir proprietárias de pequenas lojas que distribuem seus produtos.

Apoiar empresas lideradas por mulheres dessa maneira é um bom negócio. E, se feito da maneira certa, as empresas poderão construir uma cadeia de suprimentos mais diversificada e confiável. Uma pesquisa da BCG apontou que essa é uma das muitas oportunidades que as empresas têm para promover metas societais e, ao mesmo tempo, aumentar os rendimentos dos acionistas.

Todas as empresas que apoiam mulheres empreendedoras – incluindo empresas, grupos internacionais de doadores e governos – podem ampliar seu alcance criando e mantendo redes para mulheres. Em nossa experiência, as melhores redes são construídas com base nos princípios de intenção, inclusão e interação:

Intenção: Desde o início, uma rede deve ter um objetivo claramente definido. As redes devem ser muito mais que uma agenda de contatos supervalorizada. O que as mulheres podem ganhar ao ingressar na rede? Elas terão acesso ao capital humano e financeiro, bem como ao capital social? Como a rede pode ajudá-las a alcançar objetivos comerciais concretos? A Endeavor, por exemplo, tem uma missão clara com sua rede de mentores e investidores, para selecionar e orientar empreendedores de alto impacto do mundo todo e acelerar o crescimento de seus empreendimentos, prestando consultoria empresarial e melhor acesso ao capital financeiro. (Esclarecimento: a BCG apoiou e é parceira da Endeavor.)

Inclusão: Em seguida, seja diligente na escolha dos participantes. As melhores redes têm um fundador seriamente dedicado, seja um indivíduo, uma ONG, uma corporação ou outra organização com interesse e presença de longo prazo na comunidade. Elas também possuem uma base de integrantes ativa e diversificada, contando com uma mistura de novos empreendedores e empresários já estabelecidos, preferivelmente com origens culturais variadas. Para impulsionar o envolvimento e o compromisso, os fundadores de redes podem considerar cobrar taxas de associação, instituir requisitos obrigatórios de participação e exigir entrevistas ou referências para novos membros.

Interação: Estruture a rede para facilitar tanto as interações formais quanto as informais. O treinamento formal tem seu lugar, mas as interações informais entre pares são cruciais para criar confiança e garantir que a rede permaneça relevante ao longo do tempo. As plataformas on-line podem ser primordiais para o sucesso nesse campo. A Cherie Blair Foundation for Women, na Nigéria, por exemplo, possui programas formais de mentoria, mas também incentiva relações informais, trocas de ideias e colaborações por meio de um fórum on-line que membros e ex-alunos podem acessar sob demanda, sempre que tiverem uma conexão à internet.

Não é exagero afirmar que as empreendedoras têm o poder de mudar o mundo. Diminuir a desigualdade de gênero no empreendedorismo e fomentar o crescimento de empresas lideradas por mulheres desencadeará novas ideias, serviços e produtos nos mercados do mundo inteiro. E, para que isso aconteça, precisamos garantir que as mulheres tenham acesso a todas as formas de capital, especialmente o capital social, na forma de redes vigorosas.


Shalini Unnikrishnan é Líder Global da Boston Consulting Group em Práticas de Impacto Societal no Consumidor e de Impacto Social.


Roy Hanna é diretor do escritório da Boston Consulting Group na Filadélfia e especialista em mudanças e impacto social em grande escala.

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