Economia e sociedade

A função do capital privado na elevação dos preços na área da saúde

Lovisa Gustafsson, Shanoor Seervai e David Blumenthal
17 de dezembro de 2019

Investimentos privados na área da saúde nos Estados Unidos cresceram consideravelmente nos últimos dez anos, graças a investidores que têm se interessado em adentrar um mercado grande, de rápido crescimento , protegido de recessões e com retornos historicamente altos. Empresas do setor privado e de capital de risco estão investindo em tudo – desde startups em tecnologia na saúde, clínicas para tratamento contra vícios e até práticas médicas. Em 2018, o número de acordos com a iniciativa privada, por si só, atingiu quase 800, totalizando um valor superior a US$100 bilhões.

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Enquanto o capital privado traz inovações para a área da saúde por meio de serviços, tecnologias e eficiência operacional, há um outro lado da moeda para os investidores que adentram essa área. O modelo usual de negócio – comprar, crescer por meio de aquisições ou “roll-up” e vender para obter retornos acima da média – é preocupante.

Vejamos o fenômeno das cobranças surpresa: faturas de honorários médicos que um paciente recebe inesperadamente por ter sido atendido por um profissional não-credenciado num hospital da rede credenciada. Essas práticas chamam muita atenção e são lideradas – pelo menos de maneira parcial – por empresas de investidores que se mantêm fora da rede credenciada (sem contratos com seguradoras) e podem, assim, cobrar altos valores por serviços emergenciais ou de urgência solicitados pelos pacientes. As empresas do setor privado estão adquirindo e aumentando a gama de especialidades, o que gera uma fatia desproporcional de cobranças surpresa: médicos do pronto atendimento, médicos hospitalares, anestesistas e radiologistas.

Em outros setores da economia, os consumidores encontram o preço de um produto ou serviço e podem escolher não comprar se acham que o produto não vale o investimento. No caso de cobranças surpresa, isso é impossível. Os pacientes não sabem de antemão que precisarão de certos serviços à parte e dispõem de poucas opções na escolha de médicos quando precisam deles.

A fim de amortecer o apoio político bipartidário para salvaguardar pacientes de cobranças surpresa, vários grupos têm pressionado a legislação que limitaria tal prática, como a Doctor Patient Unity, que gastou mais de US$ 28 milhões em comerciais e é subsidiada essencialmente por grandes empresas do setor privado que possuem consultórios e equipes de pronto atendimento em prontos-socorros por todo o país. O trabalho parece ter causado um impacto: esforços para promulgar a proteção estão parados no Congresso, aguardando sua aprovação.

As clínicas médicas têm sido um investimento comum para as empresas do setor privado há anos. Segundo uma análise publicada na Bloomberg Law, 45 transações de clínicas médicas foram denunciadas ou fechadas no primeiro trimestre de 2019. No ritmo atual, o número de negócios concretizados para a aquisição de planos de saúde e planos odontológicos ultrapassará a marca de 250 neste ano, excedendo o total do ano de 2018. Sim, esses investimentos fornecem aos médicos independentes e às clínicas menores uma alternativa para sua venda pessoal aos hospitais e os ajuda a lidar com as questões administrativas que os tira da função para a qual foram treinados: a de cuidar das pessoas. No entanto, pelo menos em alguns casos, a estratégia do investidor aparenta ser a de aumentar a receita, explorando os pacientes quando eles estão mais vulneráveis.

Cobranças surpresa provenientes de clínicas médicas subsidiadas por investidores não são o único problema. As salas de Pronto Atendimento (PAs) independentes do setor privado estão recebendo inspeções por conta de sua proliferação e altas cobranças. A maioria das consultas em PAs independentes é para cuidados não emergenciais, e o tratamento pode ser até 22 vezes mais caro do que em um consultório.

Embora possa ser lucrativo em curto prazo, as empresas com investimentos privados que prejudicam os consumidores têm menos probabilidade de ter um bom desempenho em longo prazo. Diferentemente de outros mercados, a área da saúde é altamente controlada e sensível à realidade ou à aparência de que vitimizam as pessoas doentes e mais vulneráveis. A indignação do consumidor exige uma intervenção urgente por parte do governo.

Os investidores irão se beneficiar mais ao resolverem a grande quantidade de problemas do sistema de saúde e ao agregarem a ele o seu valor real – oferecendo serviços de alta qualidade com preços acessíveis e eliminando o desperdício. Aqueles que tentam maximizar os lucros em curto prazo aumentando os preços sem agregar quaisquer benefícios verdadeiros na área da saúde tendem a achar que essas estratégias são insustentáveis. Legisladores e reguladores não deixarão essas pessoas escaparem ilesas por muito tempo por conta dessas práticas.


Lovisa Gustafsson é assistente da vice-presidência da Commonwealth Fund. Anteriormente, ela prestou consultoria para investidores e clientes do ramo em matérias sobre políticas da saúde e estratégia.


Shanoor Seervai é assistente em pesquisas e em comunicação na Commonwealth Fund.


David Blumenthal, médico, é presidente da the Commonwealth Fund. Anteriormente, trabalhou como Coordenador Nacional de Tecnologia da Informação em Saúde durante o governo Obama.

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