Educação

6 razões pelas quais o ensino superior precisa ser disruptivo

Tomas Chamorro-Premuzic e Becky Frankiewicz
12 de fevereiro de 2020

De maneira geral, as universidades são uma boa ideia. Você entra, escolhe um assunto de que gosta, aprende com os especialistas e sai pronto para o trabalho e o futuro. Essa é a razão pela qual tantas pessoas (cerca de 40% nos países ricos) decidem fazer faculdade, mesmo que isso signifique grandes sacrifícios financeiros e pessoais. No entanto, apenas porque muitas pessoas estão fazendo isso, não significa que seja necessariamente uma coisa boa a ser seguida. Na verdade, embora exista, em geral, um custo – no que tange à perspectiva de emprego – não há vantagens competitivas claras em ter uma graduação, especialmente se quase metade da população já a tem. A realidade no primeiro mundo digital de hoje é que precisamos ensinar a cada geração como aprender, desaprender e reaprender, rapidamente, de modo a transformar o futuro do trabalho, em vez de ser transformado por ele.

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Se estiver lendo essa matéria, nosso palpite é que você provavelmente tem algum grau universitário e temos certeza que você tem ótimas lembranças dos seus anos de faculdade. Também suspeitamos que você tenha experiência em primeira mão de alguns dos desafios que os graduados enfrentam quando ingressam no mercado de trabalho e as frustrações que os empregadores expressam ao lidar com eles (por exemplo, encontrar as pessoas certas, administrá-las com suas expectativas e desenvolver suas habilidades). Por exemplo, muitos de nossos clientes do ManpowerGroup lamentam o tempo e o dinheiro que devem investir com qualificação e requalificação de recém-formados para que possam “realmente aprender as habilidades necessárias para serem bem-sucedidos no trabalho versus habilidades que os fizeram bem-sucedidos na sala de aula”. A maioria dos estudantes que tiveram aulas conosco na Columbia e University College London passou muito tempo tentando encontrar um emprego atraente, apesar de terem se formado nos melhores programas, e sempre acabaram tendo de se conformar com suas escolhas.

Ainda não surgiu uma alternativa clara para as universidades e, enquanto não houver um caminho disruptivo claro para o ensino superior, existirão pontos problemáticos que alguns de nós, no campo da educação e além, teremos de enfrentar. Em algum momento, uma alternativa viável provavelmente surgirá e vemos seis razões que justificam a necessidade de algo diferente:

Empregadores necessitam de habilidades, não apenas conhecimento ou títulos: O mundo industrializado está experimentando um boom de empregos sem precedentes. Nunca houve antes na história um melhor momento para encontrar um emprego — isso sem dúvida deve ser causa de celebração. No entanto, ainda existe um descompasso significativo entre os empregos que as pessoas querem e os cargos que realmente estão disponíveis. Por exemplo, a taxa atual de desemprego nos EUA é de apenas 3,6%, embora existam 7,4 milhões de postos de emprego em aberto. Por quê? Primeiro, alguns desses empregos não são atraentes para candidatos graduados “super qualificados”, eis porque o Walmart está oferecendo até US$ 108 mil para motoristas de caminhão, e ainda tem vagas em aberto. Segundo, alguns empregos exigem um conjunto de habilidades diferentes daquelas que os candidatos oferecem, razão pela qual 60% das organizações não conseguem encontrar analistas de cibersegurança qualificados, por exemplo. Terceiro, enquanto o número de formandos continua aumentando, há um questionamento geral de como as qualificações universitárias se traduzem em trabalho, com um número crescente de empregadores expressando dúvidas quanto ao preparo e potencial dos graduados para agregar valor imediato ao local de trabalho. Por exemplo, os empregadores geralmente reclamam que, mesmo quando os graduados chegam com incríveis credenciais acadêmicas, eles provavelmente não terão aprendido o que precisam para estarem capacitados para o cargo.

Fica claro também que um grande número de pessoas geralmente acaba em carreiras que não estão nem mesmo alinhadas com sua formação, conforme o recente artigo da Burning Glass, que sugere que 20% de pessoas formadas ainda não estão trabalhando em cargos que exijam diploma universitário, mesmo 10 anos depois de sua graduação. As coisas ficam ainda mais complicadas quando levamos em consideração o fato de que uma proporção substancial de empregos futuros será difícil de prever, exceto pelo fato de exigirem uma gama de habilidades muito diferente da exibida pela maioria dos formandos. É por isso que o potencial futuro da força de trabalho dependerá mais da sua habilidade de cultivar a capacidade de aprender, do que exibir muitas credenciais universitárias.

Estudantes querem trabalhos, não conhecimento ou títulos: A principal razão que faz com que estudantes invistam tanto tempo e dinheiro em uma formação universitária é poder conseguir um bom emprego, com dois terços deles visando “estabilidade financeira” como meta principal. E mesmo assim, apesar das baixas taxas de desemprego, o subemprego é extremamente comum, na ordem de 40% entre graduados em universidades ocupando empregos que na verdade não necessitam de suas qualificações. É improvável também que os estudantes valorizem o processo real de aprendizado – ou de absorção de conhecimento – tanto quanto o diploma que recebem no final do curso. Por exemplo, as pessoas preferem ter uma educação Ivy League sem diploma ou um diploma Ivy League sem formação Ivy League?

Os estudantes estão pagando mais e mais para receber menos e menos: Com exceção dos planos de saúde, nada subiu tanto como os custos com educação universitária, que nos EUA aumentou cerca de 200% nos últimos 20 anos (145% acima da taxa de inflação). Na verdade, existe uma coisa que subiu muito mais: o crédito universitário, que aumentou 600%, atingindo US$ 1,4 trilhão nos Estados Unidos, a maior cifra de todos os tempos – maior que a dívida com cartão de crédito e a dívida com financiamento de carro. Acredite ou não, algumas pessoas conseguiram acumular US$ 1 milhão em débito universitário. Certamente, ainda existe um ROI (Returno sobre investimentos, em português) para a maioria dos diplomas universitários e é melhor ter um do que não ter nenhum. No entanto, para cada diploma do Ivy League que gera cerca de 12% em ROI anual, há muitas faculdades e carreiras com menos prestígio onde a balança é negativa. Também é verdade que, quanto mais pessoas formadas um país produz, menor é o valor agregado a um graduado, o que explica em parte a previsão de que as matrículas em faculdades devem se estabilizar nos próximos dois ou três anos.

Estudantes têm expectativas irreais (compreensivelmente) sobre a faculdade: Independentemente de seu ranking global, todas as universidades vendem a ideia de que são um mecanismo de crescimento, empregabilidade e sucesso, e a educação universitária ainda é uma promessa para o aprimoramento do talento de alguém. Compreensivelmente isso produz altas expectativas, mas simplesmente não é viável atender a todas elas. Nem todos conseguem ser um líder, um CEO, um gerente ou um funcionário culto altamente procurado. Considerando objetivamente, percorremos um longo caminho nos últimos 100 anos, passando de linhas de montagem monótonas e trabalhos rotineiros para carreiras flexíveis e significativas e seu próprio “startup“. No entanto, não podemos esquecer que não é possível dar a todos o emprego dos seus sonhos. Se nossas aspirações profissionais são maiores que as oportunidades disponíveis, e se nossos talentos percebidos superam nossos talentos reais, certamente estamos destinados a ser infelizes ​​no trabalho, e talvez isso explique a prevalência de baixos níveis de engajamento dos funcionários, apesar de mais e mais dinheiro ser dedicado a dar a eles uma experiência semelhante ao consumidor. O equivalente no mundo amoroso seria se todos aspirassem namorar estrelas do cinema como Brad Pitt ou Angelina Jolie: o resultado seria uma epidemia de solteiros.

Muitas universidades de elite priorizam a pesquisa, geralmente em detrimento do ensino: Qualquer pessoa que frequenta uma universidade sabe que a qualidade delas, pelo menos conforme avaliado por tabelas de excelência, está predominantemente baseada em pesquisa e não, no ensino. Em muitas instituições de renome, ensinar pode ser visto como uma distração da publicação e obtenção de bolsas de pesquisa. Importantes professores são atraídos não apenas por salários mais altos, mas também por terem mais liberdade e menor carga em sala de aula. Em troca, eles publicarão pesquisas de maneira prolífica e terão uma boa receita financeira enquanto aproveitam os estudantes de pós-graduação para fazer os seus trabalhos docentes.  As revistas especializadas nas quais publicam essas pesquisas se baseiam em um modelo de negócio questionável – elas pertencem a impérios de publicação lucrativos, que arrecadam bilhões em receita.

Em nossa opinião, até que todo o sistema de ensino superior priorize a sala de aula em detrimento do laboratório de pesquisa, será um desafio mudar essa dinâmica. O processo de análise usado pelas principais revistas acadêmicas – processo cego de revisão por especialistas independentes – é uma maneira eficaz de promover a ciência, mas em uma era de conhecimento distribuído e informações de código aberto, há um claro benefício em democratizar as ideias baseadas na ciência para aqueles que realmente as financiam. Embora a pesquisa seja o motor do crescimento e da inovação, o que explica a forte ênfase que as principais universidades acadêmicas colocam nela, ela não deve ser uma desculpa para negligenciar a educação oferecida aos alunos, incluindo a questão crítica de prepará-los para o mundo real. Enquanto isso, caberá aos departamentos próprios de cada uma encontrar o equilíbrio certo entre ênfase e incentivos ao ensino e à pesquisa.

Em vez de fomentar a meritocracia, as universidades reforçam a desigualdade. O valor agregado de um diploma universitário está inversamente relacionado ao status socioeconômico de um estudante, pois a maioria dos graduados de nível superior teria desfrutado de altos níveis de sucesso na carreira de qualquer maneira, devido à sua riqueza inicial, privilégio e contatos. Isso é o que torna o recente escândalo das inscrições em faculdades nos EUA tão irônico: as pessoas que podiam pagar subornos altos eram as que menos precisavam fazer isso – sua riqueza, privilégio e contatos praticamente garantiriam que chegassem a uma boa posição na vida, independentemente de terem frequentado ou não uma faculdade.

Ao mesmo tempo, as universidades tendem a aumentar em vez de diminuir as desigualdades. Conforme os relatórios de pesquisa observaram, as pessoas ricas não são apenas mais propensas a comprar uma educação mais cara, mas também a se casarem com pessoas igualmente ricas e instruídas, o que por sua vez produzirá filhos mais ricos e privilegiados. E, como Anthony Jack observou em um livro recente, mesmo quando as universidades de elite se concentram na inscrição de minorias, elas tendem a priorizar o que ele chama de “pobres privilegiados”, como negros ou hispânicos de status socioeconômico mais alto. A questão fundamental que vemos aqui é: se uma universidade alega ser uma instituição de ensino superior, não deveria admitir pessoas com as notas mais baixas nos testes e transformá-las nos líderes de amanhã (em vez de admitir as pessoas com as notas mais altas e maior renda, que provavelmente governariam o mundo no futuro, independentemente dos três ou quatro anos de faculdade)?

Resumindo, há muito a ser repensado sobre o modelo atual de educação universitária. O amanhã pertence às empresas e indivíduos que estão abordando a educação paralelamente ao  trabalho, com ciclos contínuos de aprendizado. O sucesso no futuro não será definido por um diploma, mas pelo potencial e capacidade de aprender, aplicar e adaptar-se.


Tomas Chamorro-Premuzic é Cientista Chefe de Talentos no ManpowerGroup, professor de psicologia de negócios na University College London e na Columbia University, e professor adjunto do Entrepreneurial Finance Lab de Harvard. É autor de Why do so many incompetent men become leaders? (and how to fix it), em cujo livro sua TEDx talk  foi baseada. Encontre-o no Twitter: @drtcp ou no www.drtomas.com


Becky Frankiewicz é Presidente do ManpowerGroup North America e especialista em mercado de trabalho. Antes de entrar para o ManpowerGroup, ela liderou uma das maiores subsidiárias da PepsiCo, a Quaker Foods North America e foi apontada pela Fast Company como uma das pessoas mais criativas do setor. Encontre-a no Twitter: @beckyfrankly

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