O início de 2012 foi marcado por um contra-exemplo de liderança que chocou o mundo todo e atingiu especialmente aqueles que, como eu, ocupam qualquer tipo de cargo de chefia de uma equipe. Quase um arquétipo de inconsciente coletivo, o capitão que abandonou o navio virou notícia internacional e vergonha nacional italiana. Schettino negou as acusações de ter largado os passageiros não resgatados à própria sorte, embora ligações telefônicas entre ele e o comando em terra confirmem essa triste constatação.

O que leva um líder a deixar suas responsabilidades? Qual deve ser a sua principal preocupação, se não o bem estar e segurança do grupo que comanda? Em prisão domiciliar, Schettino aguarda sua sentença enquanto outros 17 corpos desaparecidos são procurados, fora os 15 já encontrados sem vida até o fechamento deste post. A empresa Costa Crociere ofereceu 25 mil reais de indenização a cada passageiro que não se feriu, além de 30% de desconto em viagens futuras. Só pode ser uma piada de mau gosto.

O jantar regado à vinho com uma passageira no momento do acidente, o atraso no aviso do comando em terra por “medo de um alarme falso”, as suspeitas de que ele tenha pego um táxi e ido direto para um hotel enquanto pessoas morriam dentro do navio que estava sob o seu comando, tudo isso são notícias chocantes. Um verdadeiro cabeça de equipe lidera seu grupo até a sua própria morte. Se não estiver disposto a isso, que abandone (ou nem tome o leme, vaza antes!) muito antes o navio – antes justamente de provocar uma tragédia e não estar disposto a arcar com suas consequências.

A história está recheada de mentores que honraram seus cargos de chefia, estudo que deveria fazer parte da formação de qualquer aspirante a líder antes de aceitar os encargos que vêm com esta posição. Um dos mais célebres foi Ernest Shackleton, comandante do navio Endurance, que tinha o objetivo de sair da Geórgia do Sul e cruzar pela primeira vez a Antártida de ponta a ponta em 1914. Depois de 11 meses parada após bater num banco de gelo, a embarcação naufragou e os 28 homens que estavam a bordo passaram mais cinco meses encalhados em um iceberg.

 

A equipe, portanto, nunca chegou a por os pés na Antártida. Naufragaram antes de chegar ao destino e depois disso a rotina foi de luta diária para se manterem vivos. Foram dois anos com temperaturas na média de 30 graus negativos, frio suficiente para congelar até as roupas. Quando o “calor” do verão começou a derreter as calotas onde eles estavam, foi hora de entrar nos três botes salva-vidas e começar a remar até chegar em terra firme, a inóspita região da Ilha Elephant. Shackleton escolheu cinco homens e juntos remaram mais 800 milhas até a Geórgia do Sul. Imediatamente depois da chegada, voltou para buscar os companheiros que haviam ficado para trás. Em uma situação como esta, que beira a ficção, não houve sequer uma perda graças a esse grande líder.

Em uma situação não menos dramática, mas talvez não tão radical, podemos também citar o modelo dos mineiros chilenos que passaram 69 dias trancafiados em uma mina a 700 metros do solo. Era claro, o grupo precisaria de um líder para sobreviver àquela provação. Foi assim que o topógrafo Luis Urzúa assumiu esta responsabilidade: estabeleceu regras duras para a distribuição de comida e água, para a manutenção da limpeza no local e também conseguiu ser uma importante fonte de equilíbrio coletivo para a equipe. Como um bom líder, foi o último dos 33 a ser resgatado: deixou seus companheiros passarem na frente.

É impressionante ver como, mesmo após quase cem anos, a história e a lição deixadas por Shackleton se repetem em outras versões. Só o exemplo qualifica o líder a ter o respeito de seus subordinados. A postura de calma nas situações adversas e o instante exato de questionar os rumos do time. Se a equipe – a tripulação do mesmo navio – não vê nos olhos, nas atitudes e no coração de seu comandante o comportamento que eles mesmos deveriam ter, o líder terá falhado. Existem preceitos ancestrais que não podem ser relativizados, pois vêm da natureza, do reino animal, da vida na Terra: um líder não abandona seu grupo. Um comandante não abdica de seu posto. Um chefe não deixa o bem-estar de seus funcionários em segundo plano. 

Talvez o alerta tenha servido para despertar consciências e também para destacar a importância de uma atitude íntegra. Fora dos holofotes, recusando-se a vestir a capa de herói, o comandante em terra Gregorio de Falco foi o responsável por gritar por telefone, em uma tentativa desesperada de trazer à luz o capitão do navio: “vada a bordo, cazzo!” – volte a bordo, caramba! Naufrague junto, se for preciso, mas não abandone o barco naufragado enquanto houver nele alguém além de você mesmo.


 

*Jimmy Cygler é Empresário, Presidente da Proxis, foi professor do MBA da ESPM por 13 anos, lutou em quatro guerras em Israel e publicou pela editora Elsevier o livro Quem Mexeu na Minha Vida.

 

 

 

NOTA DA REDAÇÂO: Os textos postados no Blog da HBR Brasil são escritos por autores independentes e não expressam, necessariamente, a opinião da revista e seus editores.

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