Viajar pode proporcionar uma experiência marcante, construindo e transformando a sua história. Cada passo, cada indagação, cada surpresa é matéria-prima original e de qualidade para mais um capítulo da sua autobiografia. E aí, hora de virar a página e começar o próximo?

Santo Agostinho já dizia “a vida é um livro, e os que não viajam leem apenas uma página”. Nesse espírito, aqui escrevo para expor a hipótese de que, sim, liderança e criatividade podem ser desenvolvidas e cultivadas através da expansão e possível rompimento irreversível das nossas microbolhas.

Este raciocínio é baseado principalmente na experiência pessoal da equipe do transforME, mas certamente se fundamenta na literatura  produzida por viajantes, poetas, filósofos e pensadores da área de liderança. Concordo que não é óbvia a associação entre viagem e liderança em livros ou artigos acadêmicos, mas veja bem, tudo o que precisamos fazer é juntar as evidências.

Para começar, é consenso entre os pensadores da área de liderança e grandes líderes que existe uma correlação direta entre liderança e características individuais como:

. inteligência

. flexibilidade e capacidade de se ajustar

. extroversão

. consciência

. abertura ao novo e à experiência

. autossuficiência

Sim, há os que tiveram a sorte de nascer com todos estes atributos, mas a ciência acredita que a maioria deles é desenvolvida durante a vida. Experiências que forcem a adaptação ao novo, a comunicação aberta com estranhos, o despertar de percepções a um mundo novo que se revela, e a sobrevivência ao caos aparente – mesmo que por pouco tempo –, trazem um aprendizado de liderança prático, visceral, e autêntico. Fora do feijão com arroz do dia-a-dia e “navegando” no desconhecido, desconfortavelmente somos pressionados a agir inteligente e eficientemente, de forma rápida e sensível à fonte desafiadora.

Você já sacou, não é? Ligando os pontos, é imperativo relacionar o desenvolvimento de todos, absolutamente todos estes atributos, com as experiências que podem ser adquiridas através de uma boa escapada independente. Geralmente, quanto mais longa e mais distante do que lhe é comum, maior o choque e melhor o resultado.

Viajar nos afasta da maneira tradicional de pensar sobre a nossa microbolha – trabalho, amigos, família, sociedade, dores e amores. Encarar o mundo – a grande bolha – através de uma outra ótica resulta no rompimento daquela microbolha, atingindo, possivelmente, esferas muito diferentes. O diferente pode ser maior, menor, pior, melhor… enfim, o foco está em experienciar o que antes era desconhecido.

Quando tropeçamos e a vida nos dá um susto, enxergar através de uma perspectiva diferente leva a um entendimento além de sua condição atual. O resultado? Você se torna mais autoconfiante ao perceber que a situação é muito menos complexa do que parece. Viajar também força você a se reconectar consigo próprio, renovando sua espiritualidade e expandindo a autoestima. Uma dose extra de autoconfiança sempre é bem-vinda para liderar mudanças indispensáveis, a nível pessoal e profissional, num mundo em constante transformação.

Convenceu-se? Longe de mim enchê-lo de teoria, então sugiro que você mesmo valide (ou reconfirme) essa hipótese. Coloque-a em prática! Afaste-se de sua zona de conforto por algumas horas, dias ou semanas, embarcando numa experiência nova onde o mais diferente é o mais atraente. Para quem de fato arrumar as trouxas e decidir partir, ir sozinho potencialmente enriquece a experiência, já que você provavelmente enfrentará surpresas incomuns a viajantes em grupo. Reserve suas passagens e as duas primeiras noites de acomodação; para todo o resto, adapte-se de acordo com a demanda. Idealmente, o choque deve ser completo: inversão de fuso-horário, língua, cultura e estação do ano. Sua grana também deverá ser limitada, forçando uma comunicação aberta com viajantes na mesma situação: qual o restaurante que oferece a melhor barbada? A melhor maneira de se mover de A a B? Tudo também lhe parece errado nesse lado do mundo?

O destino? A expansão da sua microbolha, agora talvez já uma minibolha esticada através de uma malhação intensa centrada em flexibilidade e adaptabilidade, exercícios que você fez sem nem mesmo perceber. Opa, tem mais por aí: ser o autor da sua própria história, trazendo na bagagem uma dose de coragem vitalícia para experimentar possibilidades criativas na vida que deixarão a sua autobiografia cada vez mais rica e autêntica.

Claro que viajar o tempo inteiro é irrealista, mas experiências como estas podem ser praticadas facilmente em praticamente qualquer contexto. Explorar um bairro novo, aprender a tocar violão, interessar-se pelos mistérios do fundo do mar, provar uma cozinha diferente, fazer uma aula de circo, estudar macroeconomia, sentir os prazeres e (potenciais) frustrações do vegetarianismo por uma semana: o que importa é deixar sua zona de conforto e explorar, mergulhando num mundo novo. O que acontece depois resume-se em renovação: reconexão com os seus próprios valores, objetivos, sonhos, medos, e tudo o que se relaciona a ser humano e estar vivo.

Comece pequeno: experimente aos poucos, e construa uma plataforma para objetivos maiores e mais ambiciosos. Grandes mudanças são baseadas em pequenos passos rumo a uma grandiosa ideia. Esteja preparado para se adaptar ao imprevisível e enxergar harmonia no caos.

O resumo: romper a sua microbolha, por mais assustador que pareça em princípio, pode se tornar uma ferramenta capaz de impactar positivamente todas as facetas da sua vida: trabalho, casa, comunidade e indivíduo, incluindo mente, corpo e espírito. Na sequência, proporcionalmente à dimensão da expansão da sua microbolha, inflam-se a autoconfiança e a autoestima. Para liderar – seja sua vida, um negócio, um time, ou um projeto – estes elementos são absolutamente essenciais.

Finalmente, lembre-se de que somos hoje o reflexo do ontem. O que vimos, sentimos, provamos, ouvimos, aprendemos e experienciamos no passado molda nosso comportamento e atitudes hoje. Então, está na hora de virar a página e começar a escrever o próximo capítulo?

 

Alex Anton é MBA pela Harvard Business School e tem no seu currículo empresas como Nestlé e McKinsey & Company. Já morou e trabalhou no Canadá, Alemanha, Suíça, Indonésia, Estados Unidos e China. Além disso, é fundador da TopMBA Coaching e entusiasta da meditação, fotografia e corrida. Suas ideias podem ser conferidas no blog transforME

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