Talvez estejamos passando, com o surgimento das mídias sociais, por uma das mais profundas transformações na comunicação humana e, assim, na sociedade. Se analisarmos com mais profundidade, chegaremos à conclusão de que as opiniões, das mais desvairadas às mais sensatas e construtivas, adquiriram hoje um alcance nunca antes experimentado, graças aos avanços da tecnologia ou, segundo o editor Tim O´Reilly, de uma “arquitetura de participação”. O americano Clay Shirky, em seu livro Here comes Everybody, The Power of Organizing Without Organizations, confirma:

 “Estamos vivendo no meio de um aumento significativo em nossa habilidade de compartilhar, de cooperarmos uns com os outros, e de agirmos coletivamente, tudo fora da moldura das instituições e organizações tradicionais. As ferramentas sociais oferecem uma alternativa: ações tomadas por grupos frouxamente organizados, operando sem direção gerencial e fora do objetivo do lucro.”

Facebook, Twitter, inúmeros programas de comunicação instantânea pela internet e vários outros que surgem e desaparecem a cada momento são agora usados para organizar manifestações e flash mobs (em que pessoas se juntam para cantar e dançar juntos), encontrar cães perdidos e pessoas desaparecidas, construir e destruir reputações, organizar quadrilhas e movimentos. Mas as ferramentas são apenas uma maneira de canalizar a motivação já existente. Shirky nos conta: “A comunicação evoluiu do padrão ‘um para um’ – eu falo e você escuta, depois você fala e eu escuto –, para a mídia tradicional, na qual prevalece o padrão ‘um para muitos’ – eu falo e muitos escutam – -, e já atingiu para o novo padrão ‘muitos para muitos’, no qual as ferramentas permitem e favorecem a conversa grupal.”

E completa:

“Uma importante implicação desta nova forma de comunicação é a ‘falha gratuita’. Quando pensamos no resultado de uma falha, consideramos sua probabilidade de ocorrer multiplicada pelo seu custo. A maioria das organizações tenta reduzir a probabilidade das falhas ocorrerem, o que as leva a fazer escolhas mais seguras, sistematicamente impedindo com que sejam mais inovadoras. Outra solução é reduzir o custo da falha a praticamente zero. Esta reversão, em que o custo de decidir o que tentar é maior do que o custo de efetivamente tentá-lo é verdadeira para sistemas abertos em geral.”

E esta é uma das grandes mudanças oriundas das novas mídias: agora tiramos fotos em grande quantidade para depois escolher quais ficaram boas, publicamos qualquer coisa para depois sabermos quais serão lidas popularmente etc.

Esse fenômeno traz novas formas de operar: como alavancar a energia de pessoas que se coordenam e agem sem uma estrutura ou liderança formais e sem estímulos financeiros? Como se beneficiar da inteligência coletiva gerada? Como favorecer a experimentação a um custo baixo (por exemplo, usando a prototipagem)?

As organizações que souberem compreender e se conectar a este fenômeno de participação encontrarão oportunidades de prosperar nesta nova economia. As que não o fizerem, encontrarão tempos difíceis frente a essas organizações muito mais ágeis e empreendedoras.

 

Mauricio Goldstein é sócio-fundador e consultor da Corall, uma consultoria focada na transformação das organizações para uma nova economia. Ele é autor do livro “Novas organizações para uma nova economia” e co-autor de “Jogos Políticos nas Empresas”

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