O corpo humano de um adulto contém, em média, cerca de 40 litros de água que sustentam seus processos metabólicos. Vítimas de queimaduras podem perder aproximadamente 37 litros de água por dia devido aos danos causados à pele.

O tratamento tradicional de queimados envolve cirurgia dolorosa e, muitas vezes, uma série de intervenções subsequentes. Depois de testemunhar um procedimento num agricultor gravemente queimado, Lynn Allen-Hoffmann resolveu encontrar uma forma de ajudar esses pacientes. Ela embarcou numa década de pesquisas e realizou mais de mil experimentos. Em 1999 patenteou um substituto para a pele derivado de linhagens de células de tecidos normais.

Allen-Hoffmann atualmente é CEO e diretora executiva científica da Stratatech, uma empresa que desenvolve pele para fins terapêuticos e de pesquisa.

A empresa detém mais de 20 patentes pelo mundo todo e, em julho de 2013, recebeu um contrato de US$ 47 milhões do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos para completar o processo de aprovação, junto à Administração de Medicamento e Alimentos (FDA, na sigla em inglês), de seu produto de tecido de pele mais importante, o StrataGraft. A previsão para futuros queimados tratados com StrataGraft é promissora: num teste clínico, 19 entre 20 pacientes não precisaram de intervenções  cirúrgicas posteriores, depois de serem tratados com a nova tecnologia.

É uma bela história: o cientista faz uma descoberta e, depois, cria uma empresa para comercializar o produto criado.  Mas nem todos os esforços científicos progridem tão suavemente da descoberta ou invenção até o empreendimento comercial. Compare a experiência de Allen-Hoffmann com a de Robert Kearns, inventor do limpador de para-brisa intermitente usado na maioria dos carros atualmente. Kearns lutou durante quase 30 anos para receber o reconhecimento e a recompensa financeira de uma tecnologia que ele projetou, criou e patenteou na década de 1960.

No início, ao perceber as implicações comerciais de sua invenção, Kearns tentou vender a tecnologia para a Chrysler e a Ford. Ela foi recusada. Então, em 1969, a Ford lançou um carro com limpadores intermitentes. Outras montadoras fizeram o mesmo, logo em seguida, na década de 1970. Surpreso ao ver os limpadores até em carros estrangeiros, Kearns desmontou o sistema do limpador do Mercedes que seu filho havia comprado e descobriu que ele continha exatamente a mesma tecnologia desenvolvida e patenteada por ele. E deu inicio a um processo judicial.

Clique na imagem

Apesar da patente, Kearns teve que lutar muito para reaver algum retorno financeiro de sua invenção. A Chrysler e a Ford argumentaram que ele não tinha inventado nenhum componente novo e que qualquer especialista poderia facilmente reproduzir as melhorias que ele havia introduzido. A invenção era, portanto, “óbvia” na  opinião delas, significando que sua patente não era válida.

Os tribunais finalmente decidiram a favor de Kearns, que acabou recebendo US$ 30 milhões da Chrysler e US$ 10 milhões da Ford, mas o processo foi lento e desgastante e a indenização muito inferior ao que seria devido para uma tecnologia que é utilizada em milhões de veículos.

Neste artigo, vamos explorar sete armadilhas comuns de propriedade intelectual (PI) e fornecer estratégias para evitá-las.

Tensão inerente

As probabilidades iniciais não são favoráveis. A experiência de Kearns é muito mais comum do que parece. De acordo com o Instituto de Patentes e Marcas Registradas dos Estados Unidos e a Organização Mundial de Propriedade Intelectual, em 2013, cerca de 280 mil patentes foram emitidas só nos Estados Unidos e quase um milhão no mundo todo. Mas somente cerca de 10% produzirão vantagens comerciais. E, mesmo quando produzem, os ganhos com uma patente média em geral são menores que os custos para obtê-la.

Esta situação deplorável pode, em grande parte, ser explicada por uma tensão inerente entre desempenho comercial e esforço científico. O sucesso comercial de uma nova tecnologia normalmente depende da propriedade exclusiva de um ativo ou capacitação críticos. Avanços científicos, por outro lado, dependem da troca aberta de ideias e da capacidade de extrair conhecimento de várias fontes. A menos que essa tensão seja resolvida, uma descoberta que represente um grande avanço não conseguirá ser comercializada com sucesso e poderá não atingir seu pleno potencial.

Para entender como gerenciar a tensão, realizamos uma análise abrangente de mais de mil invenções da Fundação de Pesquisa Alumni de Wisconsin — escritório de transferência de tecnologia (TTO, na sigla em inglês) da University of Wisconsin. Trabalhando com Carl Gulbrandsen e Michael Falk, executivos seniores da universidade, entrevistamos a liderança sênior do TTO, executivos da propriedade intelectual, executivos de licenciamento, assessores jurídicos, administradores de contratos e outros funcionários. Participamos de reuniões para aprender, diretamente da fonte, como avaliar o potencial comercial das invenções.

A partir da pesquisa identificamos sete armadilhas comuns de PI nas quais inventores incautos (pessoas físicas e jurídicas) costumam cair. Estas armadilhas são particularmente preocupantes do ponto de vista social: elas geralmente impedem a divulgação de invenções promissoras que poderiam melhorar o bem-estar das pessoas no mundo todo. Nas próximas páginas, descreveremos essas armadilhas e apresentaremos estratégias comprovadas para evitá-las. As estratégias são, obviamente, mais relevantes para os cientistas, mas todos os inovadores serão beneficiados se entenderam melhor como gerenciar a PI e melhorar suas perspectivas de converter descobertas em lucros.

Divulgação pública

A maioria dos inventores não pode esperar para anunciar suas descobertas ao mundo. Outros são praticamente obrigados a fazê-lo — para os acadêmicos, a publicação é fundamental para o processo de pesquisa. Infelizmente, a divulgação pública, muitas vezes, impede que os inventores patenteiem suas invenções, como Robert Perneczky, professor do Imperial College of London, aprendeu da forma mais difícil.

Em 2010, Perneczky isolou uma proteína do líquido cefalorraquidiano que podia ser usada como biomarcador para a doença de Alzheimer. A proteína de Perneczky prometia melhorar substancialmente a precisão de diagnósticos precoces da doença. Quando ele abordou seu TTO com o intuito de comercializar a descoberta, se surpreendeu ao saber que não havia interesse. Ele já tinha detalhado exatamente o que pretendia patentear num artigo publicado numa revista acadêmica de prestígio. A descoberta era agora de domínio público, informou-lhe o TTO.

Obviamente, sigilo absoluto não é uma opção para cientistas academicamente qualificados que valorizam e confiam nas opiniões e sugestões de seus pares. É por isso que a conduta comum para administrar PI somente através de segredos comerciais não é uma estratégia viável para e
les.

Para evitar essa armadilha, os inventores devem limitar a divulgação aos principais resultados ou a uma descrição do problema, abstendo-se de revelar detalhes dos passos envolvidos na solução. Mesmo revelações parciais podem impedir a proteção de PI em países em que as exigências de divulgação (como período de carência, que detalhes divulgar e o que constitui um “passo decisivo”) são mais rigorosas que nos Estados Unidos.

De qualquer modo, recomendamos solicitar um registro provisório de patente, antes de qualquer tipo de divulgação. Para que o registro ocorra de forma segura, algumas empresas submetem pedidos de registro provisório de patente por alguns dias (ou até horas) antes de qualquer divulgação pública parcial. Um registro provisório de patente assegura ao inventor o direito de se beneficiar de ter sido o primeiro a ter a ideia, enquanto ganha tempo para desenvolver melhor o conceito, obter mais resultados e criar um protótipo que funcione — informações que podem ser adicionadas ao registro definitivo. Se ocorrer divulgação inadvertida, tomar providências para submeter imediatamente o registro provisório da patente pode ajudar a proteger a propriedade intelectual. Lembre-se de que é preciso apresentar um registro definitivo no prazo de 12 meses para que a patente seja emitida.

Cientistas que trabalham em P&D corporativo estão menos propensos a cometer os erros de Perneczky. Pelo menos as grandes empresas dispõem de procedimentos-padrão para submeter registros de patente: parecer de assessores jurídicos, aprovação de executivos de PI, processos formais para a liberação de informações sobre novas invenções e orientação aos funcionários relacionada à PI. Mas, mesmo assim, a probabilidade de divulgação inadvertida permanece, porque as empresas, muitas vezes, apresentam ou demonstram seus produtos em primeira mão para potenciais investidores, clientes e fornecedores. A patente crucial que a Nestlé usou para proteger sua máquina popular Nespresso foi invalidada no Reino Unido, em parte porque a empresa tinha enviado 40 máquinas de teste para clientes exclusivos na Bélgica e na Suíça sem que eles tivessem assinado qualquer acordo de confidencialidade. Este descuido abriu as portas para que imitações baratas da cafeteira expressa entrassem no mercado.

A Apple também caiu nessa armadilha, quando o falecido Steve Jobs demonstrou como recuperar rapidamente a galeria de fotos do iPhone na apresentação de lançamento do produto em 2007. A Apple solicitou patente para essa tecnologia na Europa cinco meses depois da apresentação de Jobs e, por isso, os tribunais alemães invalidaram a patente em 2013.

Despreocupação com a fiscalização 

É difícil proteger inovações de processos e métodos. Como as operações de produção na maioria das empresas ocorre a portas fechadas, muitas vezes é impossível afirmar se um produto foi fabricado usando um determinado processo tecnológico. Isso dá às empresas tempo suficiente para copiar impunemente o novo método ou tecnologia e evitar o pagamento de taxas de licenciamento. Este foi o problema enfrentado por Robert Kearns e sua tecnologia do limpador de para-brisa. Se Kearns tivesse requerido o cumprimento de sua PI mais cedo, provavelmente o resultado teria sido muito diferente.

Idealmente, o inventor deve criar marcadores no próprio produto para uma tecnologia ou método de produção. Um exemplo envolve um novo processo para extrair flavonoides (composto encontrado no vinho tinto, no suco de uva escura e em outros compostos que protegem seres humanos e animais contra ataques cardíacos) de produtos residuais descartados por vinicultores. Os inventores do processo encontraram uma forma de atribuir aos flavonoides extraídos uma impressão digital química única. Se alguém utilizasse o processo desenvolvido por eles, um simples teste do composto final poderia revelá-la.

Outra forma de proteger a PI de uma inovação de processo é transformar o processo em produto. A equipe de um inventor ligada à nossa TTO apresentou um método para estudar células-tronco in vitro, enquanto simulava condições similares in vivo. Embora as aplicações comerciais para pesquisadores e empresas de biotecnologia fossem imediatamente perceptíveis, era óbvio que seria difícil fiscalizar o uso não autorizado da tecnologia. A solução dos inventores foi transformar o método num kit que podia ser vendido como um produto. Com o kit de diagnóstico facilmente disponível, os usuários seriam pouco estimulados a produzir seus próprios dispositivos.

Se marcar os produtos e transformar os processos em produtos não forem opções viáveis​​, os inventores também podem abordar o produtor de um sistema maior, para saber se seus novos processos podem ser incorporados, sob licença, numa ferramenta ou plataforma já existente. Isso transfere a responsabilidade de fiscalização a produtores que estão numa posição mais alta na hierarquia empresarial e provavelmente estão mais bem equipados para monitorar o uso da tecnologia.

Esta foi a abordagem adotada por Charles Mistretta e sua equipe de pesquisa, que em 2003 descobriram uma tecnologia de imageamento 3-D que captura múltiplas imagens em tempo real de uma área afetada do corpo e as exibe dinamicamente. A nova tecnologia permite que médicos visualizem obstruções vasculares até nos vasos sanguíneos mais finos. Para comercializar este avanço, Mistretta licenciou a tecnologia para a GE Healthcare, que a incorporou em seus imageadores de ressonância magnética.

Dificuldade em demonstrar originalidade

Inventores frequentemente dependem de ferramentas comercialmente disponíveis e técnicas existentes para gerar inovações muito mais eficientes, com boa relação custo-benefício e que atendam melhor às necessidades do usuário final que os produtos atuais.  Mas essa abordagem pode limitar a capacidade dos inventores de lucrar com seu trabalho, uma vez que uma inovação precisa ser “nova”, parecer “não óbvia” para os especialistas da área e conter um significativo “passo decisivo” para conseguir uma patente. Em 2010, Philip Wyers enfrentou esse problema quando suas esperanças de receber um prêmio de US$ 9 milhões da Master Lock foram frustradas por uma decisão judicial declarando que sua invenção de um mecanismo de travamento (usando uma simples reconfiguração de projetos existentes) era óbvia. Sua patente foi invalidada com base no princípio do “bom senso”.

Inventores podem evitar esse destino criando inovações com aspectos proprietários adicionais.

Se as modificações levarem a melhoria de desempenho para o usuário final, os inventores estarão mais aptos a defender uma tese mais convincente de que suas inovações não são óbvias. Quando uma inovação é desenvolvida na área de P&D corporativo, a empresa pode reforçar a proteção de PI, combinando ferramentas e técnicas-padrão com artefatos proprietários, algoritmos ou conhecimento. Se a combinação levar a um desemp
enho superior ao de ferramentas e técnicas comercialmente disponíveis, a empresa pode defender seus direitos de propriedade sobre sua versão da inovação. Ao tratar essa armadilha de originalidade proativamente, inventores e empresas pavimentam a estrada de forte estratégia de fiscalização que outros poderão percorrer nos desafios de PI.

Considere a abordagem adotada por Jeffrey Percival e seus colegas, que desenvolveram o Star Tracker 5000 — um dispositivo preso à ogiva de foguetes que ajusta a altitude do foguete durante o voo mantendo uma estrela em seu campo de visão. Como o rastreador se baseava em componentes fora de prateleira e utilizava técnicas de produção-padrão, o dispositivo era muito mais barato que a única alternativa comparável do mercado — quase um centésimo do preço. Mas o uso de componentes padronizados também o tornou suscetível a acusações de que a invenção

pecava por falta de originalidade. Para resolver o problema, a equipe de Percival também embutiu no dispositivo um algoritmo proprietário para transmissão rápida das imagens digitalizadas capturadas. Uma vez garantida a patente da invenção, o TTO da equipe licenciou com sucesso o produto completo para a Nasa, que usou o Star Tracker 5000 em pelo menos 30 missões espaciais e voos de balão de alta altitude.

Obviamente, combinar componentes comercialmente disponíveis e componentes proprietários é mais fácil para as grandes empresas, que geralmente têm mais opções de escolha. Pequenas empresas e universidades não dispõem dessa facilidade e são, portanto, aconselhadas a procurar um parceiro de porte para licenciamentos com quem possam trabalhar na adaptação de produtos.

Confiança excessiva na ciência conhecida

Poucas invenções dependem de avanço da ciência básica. A maioria aproveita-se de relações causais bem conhecidas entre um determinado conjunto de entradas e saídas. Isso geralmente leva a acusações de que falta um “passo decisivo” numa determinada invenção. Se as reivindicações de PI não forem rechaçadas logo no início, os concorrentes provavelmente questionarão a validade da patente e o inventor terá de enfrentar uma batalha de execuções legais onerosa e demorada.

Inventores poderão responder a essas acusações de forma convincente se conseguirem demonstrar que a invenção é uma nova aplicação de ciência conhecida. A invenção de um professor de veterinária — uma faca para cortar e aparar cascos de cavalo — ilustra bem o exemplo. A invenção não apresentava nenhuma novidade da ciência, mas resolvia um problema — fadiga do túnel do carpo de ferradores de cavalo — que nenhuma outra faca do mercado tinha sido explicitamente projetada para resolver.

Os cientistas também podem rebater questionamentos de originalidade demonstrando que uma invenção envolve uma nova aplicação de materiais. Veja o trabalho focado em dessalinização realizado por uma inventora que estudamos. Os princípios gerais de dessalinização que utilizam processos de osmose e tecnologia de nanofiltragem são bem conhecidos. Mas, combinando esses processos com um material específico — uma membrana de sílica modificada com ferro —, a inventora foi capaz defender legalmente que sua inovação constituía um salto quântico em termos de eficiência na dessalinização.

Num outro exemplo, particularmente extraordinário, uma equipe de cientistas desenvolveu uma ferramenta para melhorar manipulações dentro de um dispositivo microfluídico. A ferramenta, baseada em técnicas tradicionais de pipetagem, utiliza um interruptor de microválvula para regular o fluxo de fluido, permitindo aos usuários extrair células individuais ou mover pequenas quantidades de líquido de forma mais eficiente. O interruptor da válvula em si não é um mecanismo novo, mas a ideia de colocar o interruptor num dispositivo microfluídico, que ninguém tinha tido antes, agregou valor considerável à ferramenta.

Dificuldade de garantir o melhor território

Quando inventores resolvem grandes problemas, surge uma infinidade de novas aplicações idealizadas a partir da invenção central. Concorrentes potenciais costumam usar informação publicamente disponível (como artigos em revistas científicas ou formulários de registros de patentes) para criar suas próprias aplicações. Em alguns casos, os concorrentes erguem cercas de patentes em torno das aplicações mais atraentes de uma ideia revolucionária, mesmo que não tenham nada a ver com a P&D envolvida.

Para evitar que isso aconteça, encorajamos inventores a demarcar antecipadamente o melhor território de PI. Se identificarem cuidadosamente as potenciais aplicações mais lucrativas de uma invenção e concentrarem recursos para desenvolvê-las, eles podem melhorar o retorno sobre o investimento em P&D da empresa. Eles também devem solicitar um registro provisório de patente para proteger o desenvolvimento do trabalho. Isso concede à empresa o prazo de um ano para completar a pesquisa e explorar as aplicações mais lucrativas da invenção. O registro provisório, no entanto, é uma faca de dois gumes: se a empresa não conseguir completar a pesquisa dentro de um ano, então o conhecimento envolvido torna-se publicamente disponível. Por isso a estratégia deve ser usada com cautela — quando os resultados puderem ser previstos com precisão, por exemplo, e o registro for para um mercado suficientemente grande em que o risco vale a pena.

Ao pensar em qual território marcar, inventores precisam enxergar além de suas próprias áreas de expertise direta. O ornitólogo Mark Cook e o microbiólogo Michael Pariza são um bom exemplo. Embora Cook estude aves domésticas e Pariza, anticancerígenos, ambos estavam pesquisando o ácido linoleico conjugado (CLA, na sigla em inglês) — um ácido graxo com uma variedade de propriedades nutricionais favoráveis –, cuja aplicação comercial mais promissora estava fora das áreas de expertise dos dois pesquisadores.

Cook e Pariza descobriram que o CLA pode agir como anticancerígeno, tratar certas doenças autoimunes e aumentar a musculatura magra e ao mesmo tempo reduzir a gordura corporal. Potencialmente ele era, portanto, um produto extremamente útil para emagrecimento. Os inventores entraram em acordos de licenciamento iniciais com a EAS — produtor líder de suplementos nutricionais e treinamento desportivo — e ao mesmo tempo entraram com o pedido de registro provisório de patente. Logo depois outro fabricante de suplementos nutricionais procurou licenciar a tecnologia com direitos exclusivos para perda de peso.

Incapacidade de administrar contribuições

A pesquisa avança por meio de conversas com especialistas e aproveitando o feedback q
ue eles fornecem numa grande variedade de áreas.  É por isso que cientistas assistem a conferências e visitam exposições comerciais onde o estado da arte da pesquisa é apresentado. Nesses ambientes, especialistas se informam sobre novas ideias e pesquisas com estudiosos de diferentes disciplinas. Plataformas de código aberto oferecem as mesmas oportunidades de compartilhamento de ideias e obtenção de feedback.

Mas nesse processo parcialmente terceirizado pode ser difícil descobrir a quem atribuir os créditos. Para complicar ainda mais, os cientistas geralmente são generosos demais ao compartilhar créditos. Um inventor nosso conhecido, que trabalhava com animais resistentes à insulina, incluiu sua assistente técnica como coinventora, afirmando que sem ela o trabalho não teria sido realizado. Além disso, ele havia escolhido essa linha de pesquisa por sugestão de um professor numa conferência e, segundo ele, o professor também deveria receber uma parcela dos créditos. O problema é que investir no desenvolvimento de aplicações comerciais torna-se menos atraente para as empresas quando os créditos pela invenção são muito diversificados.

Aconselhamos inventores a fazer uma distinção clara entre passos decisivos — proposição de uma ideia original — e trabalho realizado sob supervisão. Embora técnicos dedicados mereçam recompensa financeira por seu trabalho, uma invenção não pode ser creditada a eles, a menos que tenham sido fundamentais nos passos decisivos.

Obviamente, é essencial atribuir os devidos créditos a quem os merece. Vejamos o caso de InBae Yoon, que projetou um trocarte seguro —  um dispositivo para reduzir lesões internas de órgãos durante procedimentos endoscópicos. Em 1985, ele recebeu a patente americana como único inventor do dispositivo e, posteriormente, licenciou a tecnologia exclusivamente para a Ethicon. Em 1989, a Ethicon descobriu que uma concorrente, a U.S. Surgical, tinha desrespeitado a patente e entrado com uma ação judicial. Ciência revolucionária raramente se deve a um esforço isolado e o trocarte não era exceção. Para desenvolvê-lo, Yoon havia contado com a colaboração de Young Jae Choi, técnico em eletrônica. Embora Choi tivesse contribuído para o desenvolvimento do produto, Yoon não o pagou pelo seu esforço, e a relação de trabalho entre eles terminou antes da conclusão do projeto. Yoon solicitou o registro da patente como o único inventor, sem reconhecer a participação do Choi.

À medida que o processo judicial tramitava, a U.S. Surgical soube da participação anterior de Choi, entrou em contato com ele e, em 1992, tomou as medidas necessárias para incluí-lo na patente original solicitada por Yoon. Tendo garantido propriedade parcial da tecnologia a Choi, a U.S. Surgical propôs a ele um acordo separado e exclusivo para licenciamento. Posteriormente, em 1998 o tribunal decidiu que a U.S. Surgical tinha utilizado retroativamente a patente legalmente. A Ethicon perdeu a disputa e o recurso foi negado.

Em geral as empresas tendem a atribuir menos créditos que mais, porque elas partem de uma posição de poder: empregados inventores não são automaticamente beneficiados com a comercialização de suas invenções. Mas isso não significa que a empresa deva ignorar a questão da atribuição de créditos, mesmo para invenções produzidas internamente, porque normalmente os pesquisadores se inspiram numa ampla rede de colegas, que muitas vezes ultrapassa o âmbito da empresa. Companhias que promovem a rotatividade de cientistas com alianças e empreendimentos conjuntos precisam ser particularmente prudentes ao atribuir créditos nos passos decisivos e devem compartilhar recompensas com todos os envolvidos.

Que medidas podem ser tomadas para evitar problemas na atribuição de créditos? Em primeiro lugar, devem ser formalizados acordos sobre a PI antes de iniciar seu desenvolvimento comercial. Tenha em mente que as leis diferem de país para país. Por isso a estrutura, detalhes e itens dos acordos devem seguir leis próprias. Em países europeus, por exemplo, as empresas são obrigadas por lei a recompensar funcionários pelas invenções que produzem como parte de seu trabalho. É fundamental documentar como a invenção foi criada e quem participou dela, com os registros diários de laboratório ou arquivos contendo registros de dados. No caso da Ethicon, nos documentos apresentados por Yoon ao solicitar o registro de patente, foram encontradas anotações feitas de próprio punho por Choi, o que confirmou sua participação como coinventor. Medidas de precaução como estas podem evitar complicações quando outros inventores questionarem uma descoberta promissora.

Caindo nas garras de financiadores

Embora alguns conceitos possam ser desenvolvidos com um orçamento apertado, outros exigem um investimento substancial para serem completamente legalizados e disponibilizados para comercialização. Quando é necessário um financiamento externo, os inovadores tornam-se altamente dependentes de provedores de recursos.

Captar financiadores — quando os investidores fazem reivindicações sobre a PI — é um problema principalmente para empresas com pequena P&D que fazem alianças e parcerias com grandes corporações. Um grupo de pesquisa que encontramos desenvolveu um novo método de craqueamento de gasolina e diesel inline antes da injeção do combustível para obter mais eficiência de queima. Os inventores precisavam de recursos para testar a tecnologia. Uma grande empresa automotiva interessou-se pela tecnologia, mas o investimento ficava vinculado aos desdobramentos de PI.

Nesse tipo de situação, o inventor deve protocolar um registro provisório de patente antes de começar a levantar fundos, pois isso definirá suas reivindicações sobre a invenção, e deixar claro que qualquer financiamento será para gerar dados e resultados e desenvolver protótipos descritos no registro provisório. Isso fortalece a posição do inventor em subsequentes decisões de comercialização e é particularmente pertinente devido às recentes mudanças na lei de patentes dos Estados Unidos. Obviamente, qualquer negociação requer uma relação de troca (dar e receber). Pode-se oferecer aos financiadores, por exemplo, vantagens como acesso livre de royalties à tecnologia e uma pequena participação na renda derivada de seu licenciamento. Estruturado desta forma, o acordo reconhece implicitamente os direitos anteriores dos inventores.

DE CÉLULAS-TRONCO à produção de energia alternativa, vivemos numa era de inovação tecnológica. Mas, com muita frequência, os pioneiros da ciência não colhem os frutos financeiros de suas descobertas e, às vezes, fracassam em comercializar com sucesso inovações potencialmente vantajosas para a sociedade. Usando as estratégias descritas, empreendedores da ciência poderão controlar melhor o desenvolvimento e a comercialização de suas ideias.

Share with your friends









Submit