Uma visita recente à Green School, premiada como a escola mais sustentável do mundo, me chamou a atenção para um tema que deveria ser discutido com maior frequência entre o público de idade superior a seus alunos de 4 a 17 anos: integração. A escola fica na paradisíaca ilha de Bali, na Indonésia, e tem alunos de mais de 40 nacionalidades; o que os une é um currículo acadêmico focado em desenvolver o corpus, o animus e o spiritus.

Corpo, mente e espírito, as três dimensões que nos compõem, segundo São Bernardo, e as quais devem ser cuidadas e nutridas de acordo. Da mesma forma, mas agora por uma perspectiva mais pragmática, filósofos da antiguidade enxergavam a escola, a casa e o trabalho como espaços com a função implícita de nos tornar pessoas melhores, mais sábias e mais felizes. Por isso me pergunto: o quanto dessas três dimensões que nos compõe são trabalhadas em nosso dia-a-dia? E ainda, o quanto a função acima, atribuída a nossas casas, escolas e empregos, está sendo cumprida?

No supermercado, iogurtes oferecem promessa de equilíbrio, um suco verde escuro com a imagem de um buda na embalagem faz alusão à saúde mental e espiritual; no trabalho, o site da empresa dedica uma longa página mostrando seus esforços para garantir aprendizado, equilíbrio e satisfação profissional a seus funcionários; na livraria não faltam receitas, algumas duvidosamente muito rápidas e fáceis, para encontrar felicidade plena; em casa, imagens de santos, calendários ilustrando uma nova mensagem positiva a cada dia, e a TV mostrando a novela em que o mundo é dividido simplesmente entre o bem e o mau. Está aí a resposta à minha pergunta? É tudo isso, então, o significado de integração nos tempos modernos?

Pode ser, depende de cada um e não cabe a mim julgar. No entanto, acredito que integração é um processo orgânico, que ocorre naturalmente, à medida que buscamos nos conhecer melhor e aprendemos o que nos deixa verdadeiramente felizes. Estudiosos da área, filósofos e religiosos defendem que se sentir integrado – que pode também se traduzido como estar presente, sentir-se vivo, energizado e motivado – é fruto do cultivo do que nutre a mente, o corpo e o espírito. E esse cultivo, obviamente, cabe a nós mesmos e às instituições que nos rodeiam… ou seja, a casa, a escola e o trabalho. O que pode ser na prática, então, essa tal de integração?

Mente: trabalhar a mente é aprender algo novo todos os dias. Lembre-se que o aprendizado verdadeiro ocorre quando a mensagem ecoa no logos – a lógica e a razão – e no pathos – a emoção. A razão é o o quê, e a emoção o porquê. Exemplo: integração é dedicar igual atenção a mente, ao corpo, e ao espírito (logos). Ela é importante porque sem integração não nos sentimos plenos, realizados e felizes (pathos). Aprender, e ensinar, é sentir-se mentalmente vivo e ativo. Pode ser conteúdo absolutamente técnico e relacionado ao profissional (desde que você saiba por que está aprendendo) ou de interesse pessoal, o importante é sentir que você se tornou uma pessoa, ou profissional, melhor em função daquele aprendizado.

Sugestão de assuntos para aprendizado pessoal: história, geografia política, filosofia, história da arte, finanças pessoais, cinema, viagens, botânica …

Corpo: claramente, aqui estamos falando do físico. Nutrir o corpo é não só alimentá-lo com alimentos saudáveis como também sentir que as peças que o compõe estão sendo utilizadas de acordo com o seu design original: nosso corpo não foi desenhado para passar 80% do dia útil sentado. No entanto, muitos de nós não temos opção e assim será. Sem problemas, o homem também criou mecanismos para compensar as horas sedentárias: não faltam opções para suarmos na academia, parque, praia, estrada ou piscina.

Espírito: independentemente de religião, é sentir que estamos conectados com algo maior, é despertar sensações – compaixão, vulnerabilidade, de que somos individualmente insignificantes perante a grandeza do universo – normalmente despercebidas no dia-a-dia. Religião pode ser uma alternativa, mas para os não-religiosos como eu, contemplar a natureza é o que me preenche quando a mente e o corpo já foram trabalhados (não necessariamente nessa ordem, claro). Pessoalmente, me cai bem um pôr ou nascer do sol, apreciar o infinito do horizonte através do mar, ou das estrelas, ou uma bela caminhada pela natureza. Filósofos da atualidade, como o inglês Alain de Botton, sugerem visita a museus (ou igrejas e templos) e a leitura de clássicos da filosofia como remédios para acalentar o espírito. Vale testar o que mais lhe convém.

Finalmente, um bom profissional também pode ser um bom amigo, pai e membro da comunidade. Um bom profissional, reza a filosofia acima, pode ser uma pessoa integrada. Portanto, sem integração não há solução para que indivíduos, e por consequência empresas e organizações diversas, alcancem satisfação e plenitude autênticas e duráveis.  

 

Alex Anton é MBA pela Harvard Business School e tem no seu currículo empresas como Nestlé e McKinsey & Company. Já morou e trabalhou no Canadá, Alemanha, Suíça, Indonésia, Estados Unidos e China. Além disso, é entusiasta da meditação, fotografia e corrida. Suas ideias podem ser conferidas no blog www.transforme.is

Share with your friends









Submit