Durante a maior parte do século 20, houve uma ligação simbiótica entre a geração de valor e a geração de emprego. Quando a atividade empresarial vicejava, o emprego expandia e a comunidade prosperava. Esse círculo virtuoso era bom para a empresa e bom para a sociedade.
Hoje, no entanto, a relação entre geração de valor e geração de emprego é mais tênue. Nos Estados Unidos, por exemplo, a atividade empresarial — a julgar pela demonstração de resultados da maioria das empresas — vai bem, mas ainda assim a população pena para achar trabalho. Pode até ser que a criação de emprego alcance a criação de valor à medida que a confiança no futuro da economia vá aumentando. Mas e se esse for o sintoma de um problema estrutural mais profundo?
Dois fatores que em certo momento ajudaram a vincular a expansão empresarial à expansão do emprego sofreram uma mudança radical. No século 20, a atividade empresarial era a um só tempo mais industrial e mais local do que hoje. Para crescer, uma indústria tinha de aumentar a produção em massa e a distribuição em massa. Um aumento na demanda de bens — fossem automóveis, fossem máquinas de lavar roupa, fossem televisores — acabava abrindo mais postos de trabalho na linha de montagem e nas cadeias de suprimento e distribuição.
Eram empregos locais — e que, com o tempo, passaram a ser postos de trabalho bem remunerados para a classe média. O resultado, nos EUA, foi que na maior parte do século 20 a ascensão da atividade empresarial coincidiu com a ascensão da classe média, criando confiança no sistema e instaurando o Século Americano.
Pulemos para os dias de hoje. Quando dobram de tamanho, Google, Facebook ou qualquer outro maravilhoso símbolo da nova economia americana não multiplicam empregos do jeito que uma indústria em rápido crescimento multiplicava antes. Um fundo de hedge que negocia bilhões de dólares precisa de muito menos gente do que um banco tradicional para lidar com somas semelhantes. E, em geral, o emprego novo vai para um punhado de trabalhadores do conhecimento altamente qualificados — e não para muitos trabalhadores da classe média.
Para piorar, a atividade empresarial deixou de ser local. Uma capacidade decente de produção está distribuída de forma mais ampla pelo mundo e pode ser desenvolvida mais rapidamente, enfraquecendo ainda mais o elo entre crescimento empresarial e expansão do emprego local. Esse é o Século Global, no qual o emprego ignora fronteiras e muda rapidamente para onde o custo é menor.

 

É verdade que as duas mudanças beneficiam a sociedade de modo geral, levando prosperidade para muito mais gente ao redor do mundo. O surgimento de uma classe média na Índia e na China cria, em última análise, muitos clientes para empresas como Google e Facebook. Mas esses benefícios se materializarão a longo prazo. Para quem está preocupado em achar emprego hoje, o curto prazo é tudo o que importa — e políticos que quiserem ser eleitos não têm saída a não ser responder a essa preocupação de curto prazo.
Há muito em jogo. Não sei qual a saída, embora políticas públicas e práticas empresariais que promovam a inovação, o empreendedorismo e a formação de capital humano qualificado pareçam essenciais. Executivos e políticos devem achar novas maneiras de unir a geração de valor à geração de emprego. Caso contrário, dirigentes empresariais continuarão a perder legitimidade na sociedade, sobretudo se continuarem prosperando enquanto aqueles a sua volta se debatem. Em vez de um círculo virtuoso, a relação entre empresas e sociedade virará um círculo vicioso.
Quando a sociedade está revoltada com a iniciativa privada, o risco de que o poder público aplique uma regulamentação excessiva é real. Além disso, a fúria afasta o cidadão da fonte de respostas para muitas de nossas questões mais prementes. Nenhum dos grandes problemas que o mundo enfrenta hoje — sustentabilidade, saúde, pobreza, ajuste do sistema financeiro — pode ser resolvido sem que a iniciativa privada exerça um papel importante. Mas, para isso, a empresa precisa reconquistar seu prestígio e ajudar a enfrentar a ansiedade quanto à criação de empregos.
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Nitin Nohria é reitor da Harvard Business School.

 

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