Estresse

Resiliência é como você se recarrega, não o quanto resiste

Shawn Achor e Michelle Gielan
29 de junho de 2018

Como viajantes frequentes e pais de uma criança de dois anos que somos, às vezes fantasiamos sobre o quanto nosso trabalho pode ser produtivo quando um de nós embarca em um avião, sem a distração de telefones, amigos e Procurando Nemo. Corremos com a preparação básica: fazemos as malas, passamos pelo controle de imigração, fazemos uma ligação de última hora, falamos um com o outro e embarcamos. E então, quando tentamos ter aquela incrível sessão de trabalho em voo, não produzimos nada. Pior ainda, depois de colocarmos nossos e-mails em dia ou lermos os mesmos estudos repetidamente, estamos exaustos demais ao aterrissar para darmos conta dos e-mails que inevitavelmente se acumularam.

Por que voar nos deixa esgotados? Estamos apenas sentados lá sem fazer nada. Por que não conseguimos ser fortes – mais resilientes e determinados em nosso trabalho – para que possamos cumprir todas as metas que estabelecemos para nós mesmos? Com base em nossa pesquisa atual, constatamos que o problema não está em nossa agenda frenética ou na viagem de avião em si. O problema vem de um mal-entendido sobre o que significa ser resiliente e o consequente impacto do excesso de trabalho.

Costumamos adotar uma abordagem “resistente” e militarista para resiliência e perseverança. Imaginamos um fuzileiro naval em combate na lama, um boxeador indo para mais um round ou um jogador de futebol se levantando do gramado para mais uma jogada. Acreditamos que quanto mais suportamos, mais resistentes somos e, portanto, mais bem-sucedidos seremos. No entanto, toda essa concepção é cientificamente equivocada.

É exatamente a falta de um período de recuperação que está impedindo dramaticamente nossa habilidade coletiva de ser resiliente e bem-sucedido. Pesquisas comprovaram que há uma correlação direta entre falta de descanso e aumento da incidência de problemas de saúde e segurança. E a falta de descanso – seja pelo sono prejudicado com pensamentos relacionados ao trabalho ou pelo estímulo cognitivo contínuo ao mexermos em nossos telefones – está custando às empresas americanas US$ 62 bilhões por ano (bilhões, e não milhões) em perda de produtividade.

O fim do expediente de trabalho não significa que estamos em período de descanso. Normalmente, nós “paramos” de trabalhar às 17h, mas continuamos a buscar soluções para problemas de trabalho, falando sobre nosso trabalho durante o jantar e adormecendo pensando na quantidade de trabalho de amanhã. Em um estudo divulgado no mês passado, pesquisadores da Noruega descobriram que 7,8% dos noruegueses se tornaram viciados em trabalho. Os cientistas citam uma definição de “workaholism” como “estar excessivamente preocupado com o trabalho, impulsionado por uma motivação de trabalho incontrolável, e dedicar tanto tempo e esforço para o trabalho chegando a prejudicar outras áreas importantes da vida”.

Acreditamos que o número de pessoas que se enquadram nessa definição inclui a maioria dos trabalhadores americanos, inclusive aqueles que leem a HBR, o que nos levou a iniciar um estudo sobre workaholism nos EUA. Nosso estudo usará um grande conjunto de dados corporativos de uma grande empresa da área médica para examinar como a tecnologia estende nossas horas de trabalho e, assim, interfere na recuperação cognitiva necessária, resultando em enormes custos de assistência médica e custos de rotatividade para os empregadores.

O conceito equivocado de resiliência é geralmente desenvolvido desde cedo. Os pais que tentam ensinar resiliência a seus filhos podem enaltecer um estudante do ensino médio que fica até as três da manhã para concluir um projeto de feira de ciências. Que distorção de resiliência! Uma criança resiliente é uma criança bem descansada. Quando um aluno exausto dirige até a escola, ele pode causar um acidente por estar com seus sentidos prejudicados. Ele não tem recursos cognitivos para se sair bem na prova de inglês, tem menor autocontrole com os amigos e, em casa, está mal humorado com os pais. Excesso de trabalho e exaustão são o oposto da resiliência. E os maus hábitos que aprendemos quando jovens se intensificam ao entrarmos no mercado de trabalho.

Em seu excelente livro, The sleep revolution, Arianna Huffington escreveu: “Nós sacrificamos o sono em nome da produtividade, mas, ironicamente, nossa perda de sono, apesar das horas extras dedicadas ao trabalho, resulta em 11 dias de produtividade perdidos por ano por trabalhador, ou cerca de US$ 2.280”.

O segredo da resiliência é “empenhar-se bastante” e, então, pausar, recuperar-se e, em seguida, voltar a se empenhar. Esta conclusão é baseada na biologia. A homeostase é um conceito biológico fundamental que descreve a capacidade do cérebro de se restaurar e manter o bem-estar continuamente. O neurocientista da linha positiva Brent Furl, da Texas A&M University, criou o termo “valor homeostático” para descrever o valor que determinadas ações têm para criar equilíbrio e, portanto, bem-estar no corpo. Quando o corpo está fora de alinhamento devido ao excesso de trabalho, desperdiçamos uma grande quantidade de recursos mentais e físicos tentando retornar ao equilíbrio antes de podermos avançar.

De acordo com Jim Loehr e Tony Schwartz, se você passa muito tempo na zona de empenho, precisa de mais tempo na zona de recuperação, caso contrário, corre o risco de ficar exausto. Despende-se muita energia para que uma fase de baixa motivação seja superada e que se consiga unir forças para “empenhar-se muito”. Chamado de suprarregulação, isso também exacerba o esgotamento. Desta forma, quanto maior nosso desequilíbrio causado por excesso de trabalho, mais importantes serão as atividades que nos permitem retornar a um estado de equilíbrio. A importância de um período de recuperação aumenta proporcionalmente à quantidade de trabalho que nos impõem.

Portanto, como podemos nos recuperar e criar resiliência? A maioria das pessoas presume que, ao cessar a realização de uma tarefa – como responder a e-mails ou redigir um documento, em que você dá continuidade mais tarde ou na manhã seguinte – seu cérebro se recuperará automaticamente e sua energia se reestabelecerá. Contudo, todos os que leem esse artigo, certamente tiveram momentos em que ficaram na cama por horas, sem conseguirem pegar no sono, porque o cérebro está pensando em trabalho. Se você ficar deitado na cama por oito horas, pode ter descansado, mas talvez continue se sentindo exausto no dia seguinte. Isso porque descansar e recarregar-se não são a mesma coisa. Parar não é o mesmo que recarregar-se.

Se você está tentando criar resiliência no trabalho, precisa de períodos de descanso satisfatórios, tanto internos e quanto externos. Como disseram os pesquisadores Zijlstra, Cropley e Rydstedt em um artigo de 2014: “Recuperação interna refere-se aos períodos mais curtos de relaxamento ocorridos durante o expediente de trabalho ou no ambiente de trabalho na forma de pausas curtas programadas ou não, deslocando atenção ou alternando para outras tarefas de trabalho quando os recursos mentais ou físicos necessários para a tarefa inicial estão temporariamente reduzidos ou esgotados. Recuperação externa refere-se a ações que ocorrem fora do trabalho – por exemplo, no tempo livre entre as jornadas de trabalho e nos finais de semana, feriados ou férias”. Se depois do trabalho você se deita na cama e fica irritado com comentários políticos recebidos em seu telefone ou fica estressado pensando nas decisões da reforma da casa, seu o cérebro não compreendeu a pausa da condição anterior que era de forte estímulo mental. Nosso cérebro precisa de descanso tanto quanto nosso corpo.

Se você realmente quer desenvolver resiliência, pode começar por fazer pausas estratégicas. Dê a si mesmo os recursos para resistir mais, criando períodos de recuperação internos e externos. Amy Blankson, em seu próximo livro The future of happiness, baseado em seu trabalho na Yale Business School, descreve como parar estrategicamente durante o dia usando a tecnologia para controlar o excesso de trabalho. Ela sugere o download dos aplicativos Instant ou Moment para contar quantas vezes você usa seu telefone diariamente. Em média, uma pessoa usa o telefone 150 vezes por dia. Se cada distração levasse apenas um minuto (sendo extremamente otimista), isso somaria duas horas e meia por dia.

Você pode usar aplicativos como o Offtime ou o Unplugged para criar momentos em que você não usará tecnologia, agendando estrategicamente modos de avião automáticos. Além disso, você pode fazer uma pausa cognitiva a cada 90 minutos para recarregar as baterias. Tente não almoçar em sua mesa e, em vez disso, passe tempo ao ar livre ou com seus amigos – não falando de trabalho. Aproveite todos os seus descansos remunerados, proporcionando não somente períodos de recuperação, mas também aumentando sua produtividade e probabilidade de obter uma promoção.

Quanto a nós aqui, começamos a usar nosso tempo de voo como um momento de pausa no trabalho e, portanto, um momento para imersão na fase de recuperação. Os resultados foram fantásticos. Geralmente, já estamos cansados quando embarcamos, e o espaço apertado e a conexão de internet irregular tornam o trabalho mais difícil. Agora, em vez de remar contra a corrente, relaxamos, meditamos, dormimos, assistimos a filmes, lemos jornal ou ouvimos podcasts de entretenimento. E quando saímos do avião, em vez de ficarmos esgotados, nos sentimos rejuvenescidos e prontos para retornar à zona de desempenho.
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Shawn Achor é autor dos livros The happiness advantage e Before happiness, best-sellers do New York Times. Sua palestra no TED é uma das mais populares, com mais de 11 milhões de visualizações. Ele deu palestras e fez pesquisas em mais de um terço das empresas da lista da Fortune 100 e em 50 países, bem como para a NFL, Pentágono e Casa Branca. Shawn está liderando uma série de cursos sobre “21 dias para inspirar mudanças positivas” com a Oprah Winfrey Network.
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Michelle Gielan, âncora nacional da CBS News, tornou-se pesquisadora de psicologia positiva da UPenn, e agora é autora do best-seller Broadcasting happiness. Ela juntou-se a Arianna Huffington para pesquisar histórias transformadoras que alimentam o sucesso.
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Tradutora: Sandra Polidori

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