Psicologia

A reação adversa à felicidade

Alison Beard
3 de julho de 2018

Nada me deixa mais deprimida do que ler sobre felicidade. Por quê? Porque existem conselhos demais por aí sobre como alcançá-la. Como Frédéric Lenoir ressalta em Sobre a felicidade: uma viagem filosófica, grandes pensadores discutem esse assunto há mais de 2 mil anos. Mas há opiniões diversas até hoje. Basta procurar um dos 14.700 títulos listados na subcategoria “Felicidade” na seção de autoajuda da Amazon, ou assistir a uma das 55 TED Talks da mesma categoria. O que nos faz feliz? Saúde, dinheiro, conexão social, propósito, fluidez, generosidade, gratidão, paz interior, pensamento positivo… Pesquisas mostram que qualquer uma das respostas acima (ou todas?) estão corretas. Cientistas sociais nos mostram que até os truques mais simples – contar nossas bênçãos, meditar por dez minutos todos os dias, forçar sorrisos — podem nos levar a um estado de felicidade.

E, mesmo assim, para mim e para muitos outros, a felicidade ainda é inatingível. Claro que muitas vezes me sinto alegre e satisfeita — lendo histórias para meus filhos dormirem, entrevistando alguém que admiro muito, finalizando um artigo difícil. Mas apesar de ter uma boa saúde, apoio familiar, amigos e um trabalho instigante e flexível, frequentemente me sinto inundada por emoções negativas: preocupação, raiva, decepção, culpa, inveja, arrependimento. Meu estado de espírito padrão é o descontentamento.

A grande e crescente literatura sobre a felicidade promete me livrar desses sentimentos. Porém, o resultado é que acabo me sentindo ainda mais derrubada do que já estou. Eu sei que deveria ser feliz. Sei que tenho boas razões para isso e que estou melhor do que muita gente. Sei que pessoas mais felizes são mais bem-sucedidas. Sei que alguns poucos exercícios mentais poderiam ajudar. Mesmo assim, quando estou mal-humorada, é difícil sair desse estado. E, tenho que admitir, uma pequena parte de mim considera a falta de felicidade não como negatividade improdutiva, mas como realismo altamente produtivo. Não consigo imaginar alguém sendo feliz o tempo todo, tenho muitas suspeitas das pessoas que dizem se sentir assim.

Concordei em escrever este artigo porque, nos últimos anos, notei um apoio maior a esse ponto de vista. Barbara Ehrenreich lançou em 2009 o livro Bright-sided (Sorria), sobre a “divulgação sem fim” e os efeitos prejudiciais do pensamento positivo. Na mesma linha, foram lançados no ano passado Rethinking positive thinking (Repensando o pensamento positivo, em tradução livre), de Gabriele Oettingen, professora de psicologia da NYU e The upside of your dark side (A força boa do lado obscuro), de Todd Kashdan e Robert Biswas-Diener, dois especialistas em psicologia positiva. Neste ano, tivemos o fantástico artigo de Matthew Hutson publicado na revista Psychology Today com o título “Beyond happiness: the upside of feeling down” (Além da felicidade: as vantagens da tristeza), The upside of stress (O lado bom do stress), de Kelly McGonigal da Stanford, Beyond happiness (Além da felicidade, em tradução livre), do historiador e comentarista britânico Anthony Seldon, e The happiness industry: how the government and big business sold us well being (A Indústria da felicidade: como o governo e grandes corporações nos vendem bem-estar, em tradução livre), de William Davies, outro britânico, professor de política da Goldmiths.

Estamos, enfim, enxergando uma reação adversa à felicidade? Mais ou menos. Muitos desses recentes lançamentos se opõem à nossa obsessão moderna pelo sentir-se feliz e pensar positivamente. Oettingen explica a importância de reprimirmos nossos sonhos felizes com análises sóbrias dos obstáculos encontrados pelo caminho. O livro de Kashdan e Biswas-Diene e o artigo de Hutson detalham os benefícios que derivam de todas as emoções negativas que citei acima; esses sentimentos juntos nos encorajam a melhorar nossa realidade e nós mesmos. (Susan David, psicóloga de Harvard, coautora do artigo da HBR “Emotional Agility,” também escreveu ponderadamente sobre esse assunto.)

McGonigal nos mostra como enxergar a situação de infelicidade de uma forma mais gentil para assim transformar a situação em algo positivo e não em algo que deteriore nossa saúde. Aqueles que aceitam o stress como uma reação natural do corpo a um desafio são mais resilientes e vivem mais do que aqueles que tentam lutar contra o sentimento.

Seldon descreveu seu próprio crescimento, da simples procura pelo prazer à busca por atividades mais relevantes que lhe propiciam (como devem propiciar) prazer. Infelizmente, ele banaliza o conselho ao criar uma lista: aceitarmos como somos; pertencer a um grupo; ter bom caráter, disciplina, empatia, foco, generosidade e saúde; questionar; embarcar em uma jornada interna; aceitar o karma e aderir tanto à religião quanto à meditação (alguns se perguntam o que mais ele pode inventar).

Davies analisa a questão sob um ângulo diferente. Ele está cansado das tentativas organizacionais de explorar o que é simplesmente “um processo dentro de nosso cérebro”. Em sua opinião, existe algo sombrio na maneira como publicitários, gerentes de recursos humanos, governos e empresas farmacêuticas estão mensurando, manipulando e ganhando dinheiro em cima da nossa sede insaciável por sermos mais felizes.

Mas nenhum desses autores está questionando a ambição individual de ter uma vida feliz. Chamamos isso de busca pela “felicidade”, mas o que queremos dizer, na verdade, é “realização de longo prazo”. Martin Seligman, o pai da psicologia positiva, chama isso de “florescimento”, e disse, anos atrás, que emoção positiva (ou seja, sentir-se feliz) é apenas um elemento da felicidade, junto com engajamento, relacionamentos, importância e realização. Arianna Huffington utiliza a terminologia “prosperar” em seu novo livro e Lenoir, cuja história da filosofia da felicidade é provavelmente a mais esclarecedora e divertida do grupo, descreve simplesmente como “amor pela vida”. Quem pode argumentar contra qualquer uma dessas definições?

O ponto em que a maioria dos gurus da felicidade erra é ao insistir que felicidade diária, se não constante, é o caminho para a satisfação de longo prazo. Para os otimistas que sempre enxergam o copo meio cheio, isso pode até ser verdade. Eles podem “trombar com a felicidade” como sugere Dan Gilbert, o pesquisador mais proeminente desse campo de estudo, ou ganhar a “vantagem da felicidade”, como recomenda Michelle Gielan, esposa e parceira de Achor na empresa GoodThink, em seu novo livro. Como eu disse, aparentemente precisamos de apenas alguns truques básicos.

Mas, para o resto de nós, essa felicidade parece forçada, e é muito improvável que nos ajude a cultivar relacionamentos mais significativos, ou desenvolver a carreira perfeita. Certamente não pode ser prolongada por nossos empregadores nem por outras forças externas. Buscamos realização de diferentes maneiras, dispensando a leitura de livros de autoajuda. E desconfio que no longo prazo estaremos todos bem, talvez até mais felizes.
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Alison Beard é editora-sênior da Harvard Business Review.
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Tradução: Cecilia Pinheiro

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