Com que frequência nos deparamos com opiniões sobre gênero como as defendidas no memorando por cuja distribuição o ex-engenheiro da Google, James Damore, foi recentemente demitido? O alvoroço fez com que mulheres e homens da área da tecnologia — e de outras — se perguntassem o que seus colegas realmente pensam sobre diversidade. As pesquisas que realizamos mostram que, apesar de a maioria das pessoas não partilhar das opiniões de Damore, engenheiros do sexo masculino em geral partilham.

Ensina-se a eles que “a engenharia pode e deve ser desatrelada de questões ‘sociais’ e ‘políticas’ porque tais considerações podem prejudicar a prática da engenharia ‘pura'”, para citar um estudo de 2013 feito por Erin A. Cech. Esse ponto de vista — vamos chamá-lo de a pureza da engenharia — significa que os engenheiros acreditam que devem proteger a pureza de sua profissão de considerações alheias que ameaçam sua racionalidade e rigor. O memorando de Damore é um exemplo desse tipo de pensamento. “Não enfatize a empatia”, aconselha. “Descomprometer-se emocionalmente nos ajuda a raciocinar melhor sobre os fatos”. Enquanto os estudantes aprendem sobre a pureza da engenharia, seu comprometimento com o bem-estar social cai significativamente no decorrer de sua formação, descobriu Cech.

Em um estudo nacional com engenheiros americanos, copatrocinado pela SWE — Society of Women Engineers (Sociedade de Mulheres Engenheiras), encontramos significativos níveis de preconceito de gênero e raça. Para citar apenas um exemplo, 61% das engenheiras afirmaram que já tiveram de provar sua competência repetidas vezes para obter o mesmo nível de respeito e reconhecimento que o dos colegas. Apenas 35% dos homens brancos passaram por esse tipo de situação.

Nossa descoberta mais interessante, no entanto, diz respeito à pureza da engenharia. “Mérito é muito mais importante que gênero ou raça, e esforços para tentar ‘equilibrá-los’ diminuem a qualidade geral de uma empresa por reduzir o mérito coletivo da equipe”, observou um engenheiro do sexo masculino na pesquisa. Atente-se para a suposição de que lançar mão de toda a variedade de talentos da equipe de engenheiros em vez de restringir as contratações a um subgrupo (homens brancos) fará com que a qualidade dos engenheiros contratados caia. O memorando de Damore faz eco a essa visão, descreditando “práticas de contratação que de fato podem tornar as coisas mais fáceis para ‘candidatos diversificados'”.

O dinheiro da Google e dos contribuintes, opina Damore, “é utilizado para regar apenas um lado do gramado”. Muitos engenheiros em nossa pesquisa concordaram que as engenheiras são injustamente favorecidas. “No que diz respeito ao preconceito de gênero, meu local de trabalho oferece mais incentivo e apoio financeiro às mulheres que aos homens” observou um engenheiro. Disse outro: “[as mulheres] estarão sempre a salvo da redução da força de trabalho”. Além disso, algumas empresas proporcionam a suas engenheiras maiores aumentos salariais.

Em nossas pesquisas, os engenheiros se mostraram aproximadamente quatro vezes mais propensos a emitir opiniões similares a essas do que os advogados. Cabe lembrar que as profissões na área jurídica não são nenhum mar de rosas para as mulheres: a quantidade de sócias de escritórios de advocacia aumentou apenas dois pontos percentuais nos últimos dez anos, de 16% em 2006 para 18% em 2016. Assim como os engenheiros, os advogados também se vangloriam de suas capacidades altamente analíticas. Ainda assim, advogados se mostraram aproximadamente quatro vezes menos propensos a acreditar que as mulheres são injustamente favorecidas ou que a busca por diversidade afetará sua profissão. (Não obstante, o dobro deles se dispôs a participar da pesquisa em relação aos engenheiros, que tendiam a ignorá-la ou atacá-la). Essa é a influência da pureza da engenharia.

Entretanto, é importante notar que apenas 17% dos engenheiros do sexo masculino que fizeram comentários no estudo manifestaram essa visão de mundo. Muitos outros, sem dúvida, discordariam e aproximadamente metade dos engenheiros que participou da pesquisa demonstrou apoiar iniciativas pró-diversidade: “Trabalhei por 36 anos e me aposentarei em breve. Durante minha carreira, meu local de trabalho se tornou muito mais receptivo às mulheres, mas ainda há algumas questões remanescentes (sobretudo inconscientes) que surgem — trazidas à baila por homens e mulheres que trabalham aqui”.

Como no memorando de Damore, os comentários na pesquisa da Sociedade de Engenheiras por vezes também associavam a pureza da engenharia a estereótipos femininos. Um comentário típico: “É muito mais difícil trabalhar com mulheres e para elas… É como atirar em um alvo em movimento: as orientações, que já não são objetivas, mudam o tempo todo”. O memorando de Damore descreve as mulheres como mais neuróticas, afáveis e cooperativas; mas menos assertivas e competitivas que os homens, porém, não reconhece que uma das principais razões para entrar em conformidade com esses estereótipos prescritivos é que as mulheres que não apresentam comportamento comedido, prestativo e agradável frequentemente se deparam com reações hostis na forma de comentários acerca de seus “problemas de personalidade”. Esse tipo de hostilização é frequente no campo da tecnologia: um estudo informal descobriu que 66% das avaliações de desempenho de mulheres incluíam reclamações sobre sua personalidade, ao passo que apenas 1% das masculinas incluíam o mesmo tipo de queixa.

A pureza da engenharia é uma relíquia do século 19 que o século 21 não pode mais conceber. Uma ilustração de seu perigo é o caso da professora de ciência da computação que inventou uma maneira de criar vídeos de pessoas dizendo coisas que não disseram para que ela pudesse ter um holograma falante de sua mãe, que vive em Israel, da qual sentia falta. Quando os repórteres da Radiolab perguntaram à professora se ela já havia considerado que sua invenção poderia ser usada para criar vídeos de líderes mundiais dizendo coisas que nunca disseram, ela ficou literalmente sem palavras e depois conseguiu balbuciar que seu papel como cientista da computação era inventar coisas e deixar que os outros lidassem com as consequências. Isso é o que acontece quando você usa uma teoria de pureza obsoleta do século 19 para inventar tecnologia no século 21.

A pureza da engenharia exime engenheiros que são fracos em inteligência social ou emocional de suas responsabilidades. Espera-se de outros funcionários — especialmente de funcionárias — que reflitam se suas palavras e ações vão afetar os demais. Mas não de engenheiros “puros”. Eles têm passe livre. Quando Damore fazia sua graduação em Harvard, em certa ocasião, ele ofendeu tanto seus colegas com uma sátira que dois professores acharam necessário escrever uma carta aberta de desculpas. Damore não percebeu que sua sátira sobre um professor usando frases sugestivas para agradecer a mulheres que o ajudaram com seu microtúbulo havia ultrapassado os limites da decência. Pedir desculpas por esse comportamento — ou mesmo demitir alguém por comportamento similar — não é abusar do politicamente correto. É uma maneira extremamente embaraçosa de limpar a sujeira deixada por alguém que não percebeu que o memorando pecava em normas básicas de discurso social e mitigar o risco de ser demitido por permitir que seu local de trabalho se tornasse hostil.

Em uma entrevista no YouTube, Damore faz lembrar um dos personagens de Richard Hendricks em Silicon Valley da HBO: sem a mais remota ideia de como agir socialmente, mas longe de ser perverso. Recentemente ninguém fez mais nada para ressaltar que ser capaz de interagir com os colegas sem ofendê-los profundamente é uma qualidade no trabalho. Se os departamentos de engenharia não querem que seus graduandos sejam demitidos sumariamente, talvez devessem adicionar esse tipo de exigência ao currículo.
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Joan C. Williams é Professora Honorária de Direito e Diretora Fundadora do Center of WorkLife Law na University of California, Hastings College of the Law. Seu livro mais recente é White Working Class: Overcoming Class Cluelessness in America.
Marina Multhaup é Pesquisadora para o Center for WorkLife Law na University of California, Hastings College of the Law.
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Tradução: Adriana Garcia Sabbag

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