Gestão pessoal

Prospere na “economia sob demanda”

Gianpiero Petriglieri, Susan Ashford e Amy Wrzesniewski
1 de Março de 2018
demanda

“Você já foi trapezista?” Foi assim que Martha, consultora independente, nos respondeu quando lhe pedimos que descrevesse seu trabalho nos cinco anos decorridos desde que deixou uma empresa de consultoria global para abrir a sua própria. A metáfora do trapézio explica muito bem o vazio sentido quando se está entre atividades: a empolgação de fechar o próximo contrato; a disciplina, a concentração e a graça necessárias para dominar o ofício. Os trapezistas correm riscos enormes, mas seu sistema de segurança — redes, equipamentos e colegas — lhes dá apoio. “Eles parecem estar sozinhos, mas não estão.”

Martha (cujo nome, assim como outros neste artigo, foi trocado) atua num segmento de mão de obra informalmente conhecido como GIG economy (economia sob demanda, em tradução livre). Ele está em expansão: aproximadamente 150 milhões de trabalhadores na América do Norte e na Europa ocidental deixaram os confortos relativamente estáveis de sua vida dentro de uma empresa — alguns por opção; outros, não —para se transformar em trabalhadores autônomos. Parte desse crescimento reflete o surgimento de plataformas de serviços específicos. Um recente relatório publicado pela McKinsey mostrou que indústrias de serviços intensivos em conhecimento e ocupações criativas são não apenas os maiores setores da economia freelance, como os que mais crescem.

Com o objetivo de aprender o que é preciso para ser bem-sucedido no trabalho independente, concluímos, há pouco, um estudo em profundidade com 65 trabalhadores sob demanda. Encontramos sentimentos impressionantemente similares entre as gerações e as ocupações: todos os que pesquisamos admitiram carregar uma série de angústias pessoais, sociais e econômicas sem a garantia e o apoio de um empregador tradicional, mas alegaram que sua independência foi uma escolha e que não abririam mão dos benefícios trazidos por ela. Embora se preocupassem com os imprevisíveis cronogramas e recursos financeiros, eles se sentiam corajosos e estavam convencidos de que a vida deles era agora melhor do que a de seus colegas do meio corporativo.

Descobrimos que os trabalhadores independentes mais efetivos enfrentavam essa tensão com estratégias comuns. Eles cultivavam quatro vínculos — com lugares, rotinas, propósitos e pessoas — que os ajudaram a enfrentar os altos e baixos emocionais do trabalho e a extrair força e inspiração de sua liberdade. Como a economia sob demanda cresce em todo o mundo, essas estratégias são altamente relevantes. Acreditamos que elas podem ser úteis para qualquer empregado corporativo que esteja trabalhando de forma mais independente, de sua casa ou de um escritório remoto, ou que acredita que um dia possa — ou precise — passar a exercer uma carreira como freelancer.
Produza ou pereça
A primeira coisa que percebemos quando começamos a entrevistar consultores independentes e artistas foi que os riscos dessa modalidade de trabalho são incrivelmente altos — não apenas do ponto de vista financeiro, mas também do existencial. Livres de gestores e de regras corporativas, as pessoas tendem a escolher serviços que façam uso de seus maiores talentos e reflitam seus verdadeiros interesses. Elas se sentem donas do que produzem e de sua vida profissional por inteiro. Um participante da pesquisa nos disse: “Posso ser eu mesmo como jamais fui em nenhum trabalho”.

No entanto, o preço de tamanha liberdade é a precariedade que parece não diminuir com o tempo. Mesmo as pessoas mais bem-sucedidas e estabelecidas que entrevistamos ainda se preocupam com dinheiro e reputação e algumas vezes sentem que sua identidade está em jogo. Você não pode continuar a se intitular um consultor, por exemplo, se os clientes param de contratar seus serviços. Um escritor amplamente publicado nos contou: “Você se transforma no seu trabalho. Se escreve um bom livro, é uma maravilha, mas quando não consegue, tem de aceitar que o fracasso pode definir quem é você para você mesmo”.

Por essa razão, produtividade é uma preocupação intensa para todos que entrevistamos — e um antídoto contra a precariedade. Eles sabem que produtividade requer disciplina para gerar produtos ou serviços para os quais existe mercado, o que, por sua vez, demanda completa dedicação e aplicação.

Sustentar a produtividade é luta constante. Dificuldades e distrações podem surgir, e esses dois impedimentos são abundantes na vida profissional. Um coach de executivo ofereceu uma descrição bastante pessoal de um dia improdutivo: “A falta de produtividade ocorre justamente quando há tanta coisa a ser feita que estou desorganizado e não consigo ajeitar o que preciso. Os mesmos e-mails abertos de manhã continuam abertos à noite. Os documentos que quero terminar não estão prontos. Eu me distraio e sinto que perdi tempo. Um dia como esse me deixa cheio de dúvidas sobre mim mesmo”.

Quando perguntamos aos entrevistados o segredo para superar dias como esse e ainda assim manter a produtividade, descobrimos um paradoxo no cerne de suas respostas. Todos querem manter a independência e, em muitos casos, também a instabilidade (descrita por um consultor como o segredo para seguir aprendendo e “manter o apetite”), mas querem igualmente criar um “ambiente holding” — um espaço físico, social e psicológico seguro e saudável para seu trabalho.

O conceito “holding” foi criado pelo pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott. Trata-se da função de sustentação, exercida pela mãe da criança ou seu cuidador para prover-lhe um ambiente que a proteja corporal e psiquicamente. Vem sendo empregado no campo do desenvolvimento de adultos para designar as condições que lhes permitam dar o melhor de si e progredir. Funcionários corporativos, claro, podem encontrá-las na figura do chefe ou numa empresa sólida. Mas para trabalhadores independentes, um ambiente holding é menos um presente que uma conquista; deve ser cultivado e pode ser perdido.

Por isso essas pessoas criam tais ambientes para si mesmas. Para tanto estabelecem e mantêm o que chamamos de “vínculos libertadores”, que tanto as libertam para que sejam criativas individualmente como as vinculam ao trabalho para que a produtividade não esmoreça.
Os quatro vínculos
Lugar. Afastadas do escritório corporativo, as pessoas que entrevistamos buscam lugares para trabalhar que as protejam de distrações externas e pressões e as auxiliem a evitar que se sintam desarraigadas. Embora muitos tenham declarado que podem levar seu trabalho consigo para onde forem, todos ainda parecem ter um refúgio. Um escritor nos disse: “As pessoas fracassam porque não criam tempo e espaço para fazer o que precisam”.

Visitamos muitos desses lugares pessoalmente e observamos semelhanças entre eles; parecem limitados: quase desconfortáveis, no caso de alguns artistas; permitem fácil acesso às ferramentas próprias do negócio do proprietário, mas praticamente só isso; e são destinados ao trabalho. As pessoas em geral os abandonam assim que a tarefa do dia foi completada. Um engenheiro de software cuja casa tem todas essas características a descreveu como um “cockpit de um piloto de caças”, onde tudo que ele precisa está ao alcance das mãos. “Às vezes é claustrofóbico”, ele explicou, mas “quando estou lá, o espaço aberto está na minha mente.”

Apesar dessas semelhanças, cada espaço de trabalho é singular, com localização, mobília, suprimento e decoração que refletem as idiossincrasias do dono. Esses lugares não são apenas casulos protetores do trabalhador — eles evocam o trabalho. Karla, consultora independente, disse-nos inicialmente: “Posso trabalhar onde quer que eu esteja, e sei que o que estou fazendo tem impacto positivo no mundo”. Por fim, admitiu que o escritório em sua casa é o local aonde vai para evitar distrações e buscar inspiração e onde está cercada, literalmente, por seus projetos atuais e em potencial, organizados em pilhas visíveis e acessíveis. “Quando passo por aquela porta, entro num lugar que abarca todos os diferentes aspectos do meu ser. Aqui eu me sinto em casa.” Karla nos explicou que sem esse lugar e sem o espaço que ele lhe oferece ela provavelmente ficaria sensível demais às exigências externas, além de menos livre e menos concentrada.

Rotinas. Nas empresas, as rotinas são frequentemente associadas com segurança ou burocracia maçante. Porém um grande volume de pesquisas demonstrou que atletas de elite, gênios da ciência, artistas populares e mesmo trabalhadores comuns usam a rotina para melhorar sua concentração e desempenho. Os profissionais com quem conversamos tendem a confiar nesse expediente da mesma maneira.

Algumas rotinas aumentam o fluxo de trabalho das pessoas: manter um horário; seguir uma lista de afazeres; começar o dia com a tarefa mais difícil ou com um telefonema para um cliente; deixar uma frase incompleta em um manuscrito inacabado para facilitar o início no dia seguinte; varrer o chão enquanto pensa em uma nova composição. Outras atividades cotidianas, como uma boa noite de sono, meditação, nutrição ou exercício, incorporam cuidados pessoais à vida profissional. Ambas têm um elemento ritual que aprimora o sentido de organização e controle em circunstâncias instáveis.

Uma consultora entrevistada toma um banho de banheira todas as manhãs enquanto visualiza o que quer executar. Outro consultor, Matthew, especialista em ajudar diretorias a se concentrar em inovação, mantém uma rotina diária rígida: “Levanto-me às 6 horas e me exercito. Embrulho o almoço da minha mulher. Rezamos. Ela sai por volta das 8. Estou no meu escritório às 8h30 e faço o trabalho que exige mais concentração — elaborar um projeto ou escrever. No período da manhã eu trabalho melhor. Deixo a tarde para ligações e assuntos mais comerciais ou financeiros”. Essa disciplina envolve até seu guarda-roupa: “Sempre me visto para trabalhar. Na maioria dos dias de verão uso shorts quando não estou na rua, mas ainda assim tomo banho e faço a barba, como se eu estivesse indo para um lugar de trabalho longe de casa”.

Isso pode parecer rigoroso, mas ajuda Matthew a se dedicar ao seu trabalho. Ele e outros trabalhadores independentes parecem seguir o conselho do escritor francês Gustave Flaubert: “Seja metódico e organizado em sua vida como um burguês para ser violento e original em sua obra”.

Propósito. Para a maior parte das pessoas que participaram de nosso estudo, seguir seu próprio rumo envolve, no começo, fazer qualquer trabalho que permita encontrar espaço no mercado. Mas elas são taxativas de que para alcançar o sucesso é preciso aceitar somente trabalhos associados a um propósito maior. Todas explicam por que seu trabalho, ou ao menos seu melhor trabalho — seja empoderar mulheres por meio de um filme, expor práticas nocivas de marketing, manter a tradição da música folk americana ou ajudar líderes corporativos a ser bem-sucedidos com integridade —, é mais do que um meio de sobrevivência. O propósito cria uma ponte entre os interesses pessoais e motivações e determinada necessidade no mundo. Matthew, por exemplo, disse que, embora a princípio sentisse “certo desespero para conseguir clientes e gerar receitas”, com o tempo sua visão do sucesso passou a ser “levar uma vida a serviço dos outros e fazer do planeta um lugar melhor”.

Uma coach de executivos que entrevistamos nos contou que o propósito mantém sua constância, inspiração e capacidade de inspirar os outros. “Uma grande distinção entre trabalhadores independentes de sucesso e trabalhadores que não o são ou que retornam ao trabalho corporativo é a liberdade de recusar qualquer tarefa não alinhada com seu propósito. Isso dá resiliência para enfrentar os altos e baixos e um sentido de autenticidade e confiança que atrai os clientes. E ajuda a construir ou manter o negócio e a servir as pessoas.”

Pessoas. Seres humanos são criaturas sociais. Estudos em ambientes corporativos há muito provaram que as outras pessoas são importantes para a nossa carreira — como modelos que nos mostram quem podemos nos tornar, e como colegas que nos ajudam a progredir. Outros estudos alertaram acerca da “epidemia da solidão” que atinge os locais de trabalho e à qual inúmeros trabalhadores independentes são bastante suscetíveis.

Mas aqueles que entrevistamos estão profundamente cientes dos perigos do isolamento social e lutam para evitá-lo. Embora muitos sejam ambivalentes sobre grupos formais de colegas, que eles frequentemente veem como substitutos insípidos de colegialidade, todos disseram ter pessoas a quem recorrer para dar-lhe confiança e coragem. Algumas vezes são modelos diretos ou colaboradores que os apoiam; em outros casos são familiares, amigos ou contatos em áreas afins, que nem sempre podem oferecer conselhos profissionais específicos, mas, ainda assim, ajudam os participantes de nosso estudo a superar momentos difíceis e os incentivam a enfrentar os riscos próprios de seu trabalho.

Matthew, por exemplo, observou que procurar pessoas em seu círculo íntimo diminui sua ansiedade: “Se simplesmente me deixassem aqui sozinho, eu talvez me sentasse neste escritório e me enfiasse num buraco. Você fica a sós consigo mesmo, desce por uma espiral e começa a ruminar”. Karla nos contou que frequentemente recorre a alguns colegas com quem tem intimidade. “Todo o trabalho que realizo nesta economia independente advém desses vínculos. Mas a ajuda dessas pessoas vai além de meras indicações. Minha capacidade de processar, desenvolver e crescer como ser humano e entender quem sou vem das conversas que tenho com elas. São essas pessoas que me mostram que sei o que devo realizar.”
Redefina sucesso
Em histórias populares sobre administração, o sucesso na carreira geralmente vem acompanhado de segurança e equanimidade. No entanto, para trabalhadores independentes ambas são, no fim das contas, fugidias. Mesmo assim, a maior parte daqueles que estudamos nos declarou sentir-se bem-sucedidos.

Concluímos que as pessoas na economia sob demanda devem buscar um tipo diferente de sucesso — advindo do equilíbrio entre previsibilidade e possibilidade, entre viabilidade (a promessa de trabalho contínuo) e vitalidade (sentir-se presente, autêntico e vivo no trabalho). Aqueles que entrevistamos fazem isso por meio da criação do ambiente holding winnicottiano em seu ambiente de trabalho, não apenas no local, como também nas rotinas, propósitos e relacionamentos. Isso as ajuda a manter a produtividade e a enfrentar as ansiedades, e até a transformar esses sentimentos em fontes de criatividade e crescimento. “Existe uma sensação de confiança que vem com a carreira como autônomo”, nos contou um consultor. “A gente sente que, por pior que as coisas fiquem, é possível superá-las. Podemos mudar a situação. Trabalho melhor em lugar pelo qual optei do que em lugar do qual preciso.”

Muitos com os quais conversamos acreditam que não seriam capazes de encontrar o mesmo espaço ou a mesma força mental em ambiente de trabalho tradicional. Martha, a consultora que se comparou a um trapezista, recorda que se tornou muito mais bem-sucedida profissionalmente e confortável consigo mesma quando uma consultora em quem ela confiava a ajudou a reestruturar — e dominar — suas dificuldades, em vez de buscar maneiras de fugir delas. “Ela me ajudou a entender que eu podia pensar em mim como pioneira em relação ao que faço atualmente. Não me encaixo em nenhuma das categorias existentes nas empresas, e para mim é mais eficaz ser independente.” Visto dessa forma, desconforto e incerteza não eram coisas apenas toleráveis, mas sim compensadoras — sinal de que ela estava exatamente onde devia estar.

Quando conversamos, ela descreveu o emprego não mais como uma âncora da qual sentia falta, mas como uma corrente da qual teve a sorte de se livrar. “Não sei se ainda descreveria minha nova vida como precária. Diria que agora estou vivendo de verdade”, conclui.
——————————————————————————
Gianpiero Petriglieri é professor de comportamento empresarial do Insead.
——————————————————————————
Susan Ashford é professora de administração e estruturação da Michael and Susan Jandernoa, da University of Michigan.
——————————————————————————
Amy Wrzesniewski é professora de comportamento empresarial da Yale School of Management.

Compartilhe nas redes sociais!