O que faz com que um investimento de capital de risco tenha sucesso? Alguns dos dados mais interessantes sobre essa questão vêm de uma análise publicada no ano passado pela empresa de capital de risco  First Round Capital. O conjunto singular de dados da empresa compreende informações sobre mais de 300 empresas e quase 600 fundadores, incluindo as características do fundador, como faixa etária, gênero, educação, localização da empresa e experiência anterior de trabalho e em startups. Esse estudo constatou várias correlações desses aspectos com o sucesso – algumas encorajadoras, outras surpreendentes.

Primeiro, constatou que os investimentos de alto desempenho tendem a ter pelo menos um fundador do sexo feminino. Isso não causa surpresa, considerando outras pesquisas sobre o desempenho de equipes diversificadas; é uma indicação bastante oportuna da importância do empreendedorismo feminino crescente e da oportunidade que os investidores de risco podem estar perdendo ao continuar financiando de modo desproporcional homens brancos. Os dados também revelam que os fundadores mais jovens e fundadores com histórico educacional de prestígio ou experiência anterior em empresas grandes de tecnologia tendem a ser mais bem sucedidos. Há evidências que o sucesso em startups é um tanto diverso em termos geográficos, não se limitando ao Vale do Silício. Bons investimentos estão vindo cada vez mais de centros em expansão de tecnologia no Texas e Carolina do Norte.

É claro, vale formular algumas observações. Correlação não significa causação: o fato  de os investimentos de sucesso terem algo em comum pode ser um indício de uma relação causal, ou poderia refletir a importância de alguma variável oculta. O capital de risco é sobretudo um exercício de intuição e correspondência de padrão. Esse tipo de dados não substitui o julgamento, mas à medida que são capazes de ajudar os investidores a identificar coisas que se alinham com sucesso, os dados podem servir para informar esses julgamentos.  Conversei com a First Round sobre sua pesquisa, combinando essas percepções com a minha experiência como pesquisador de tecnologia e empreendedorismo para considerar o que essas descobertas poderiam significar para o empreendedorismo.

Startups fundadas por mulheres obtiveram melhores desempenhos do que as compostas só por homens. A questão do  gênero no empreendedorismo recentemente angariou uma atenção maior e bem merecida.   Globalmente, duas vezes mais homens se tornam empreendedores, mas o número de mulheres se tornando empreendedoras está crescendo rapidamente. Embora as empresas fundadas por mulheres representem uma maior porcentagem dos investimentos da First Round do que a média nacional— startups com pelo menos uma mulher co-fundadora respondem por aproximadamente 18% dos novos empreendimentos financiados por capital de risco nos Estados Unidos  — ainda constituíam a minoria dos investimentos.

Todavia, conforme dados da First Round, os investimentos em empresas com pelo menos uma mulher fundadora significativamente obtiveram melhores desempenhos do que investimentos em empresas só compostas por homens.  Na verdade, empresas com uma fundadora obtiveram um desempenho 63% melhor do que investimentos em empresas fundadas exclusivamente por homens. (Para essa análise, desempenho se refere a mudança na avaliação do valor real de mercado entre o primeiro investimento da First Round e  o término do ano de 2014). Três dos 10 melhores investimentos da First Round de todos os tempos, baseados em valor criado para os investidores, tinham pelo menos uma mulher fundadora, porcentagem bem maior do que aquela das fundadoras de empresas de tecnologia no conjunto de dados.   Simplificando, as mulheres são grandes empreendedoras de tecnologia, e mais delas precisam ser financiadas.

Equipes de fundadores mais jovens obtiveram desempenho melhor do que os fundadores de maior faixa etária. A pesquisa também analisou a faixa etária, educação e experiência do fundador. A idade média de um empreendedor é aproximadamente 40 anos, e existem motivos para se pensar que os empreendedores melhoram com a idade. Mas e quanto ao Facebook, Apple, Google, e Microsoft? A idade média dos fundadores dessas empresas era aproximadamente 23 anos. Um bom argumento pode ser que a tecnologia dá preferência aos  mais jovens. A carteira de investimentos da First Round torna esse argumento plausível. As equipes fundadoras cuja idade média estava abaixo de 25 anos (quando a First Round investiu) obtiveram um desempenho 30% superior do que os investimentos médios. E embora a idade média de todos os fundadores financiados pela First Round seja 34.5 anos, a idade média para os 10 melhores investimentos era 31.9. No ramo da tecnologia, empreendedores mais jovens parecem constituir um fator chave para o sucesso.

Fundadores vindos de escolas de ponta obtiveram melhor desempenho. Alguns empreendedores e investidores proeminentes  como Peter Thiel, questionam o valor do ensino superior no ramo do empreendedorismo. Além disso, muitos fundadores célebres, incluindo Bill Gates e Mark Zuckerberg, abandonaram a faculdade. First Round analisou o impacto  da formação acadêmica no desempenho de empresas. Equipes com pelo menos um fundador que tinha cursado uma faculdade de elite (definida pela First Round como as oito universidades da Ivy League, Stanford, ou MIT) tendiam a ter um melhor desempenho.

Na carteira de investimentos da First Round, 38% das empresas tinham um fundador que havia cursado uma dessas faculdades; o estudo constatou que essas empresas obtiveram um desempenho cerca de  220% superior às outras equipes. Embora dispendiosa e de difícil ingresso, uma educação de ponta pode constituir um ingrediente para o sucesso da startup. O desafio é convencer todos esses indivíduos talentosos que buscam financiamento e posições de consultoria a assumir o risco de começar um novo empreendimento.

Experiência em empresas famosas de tecnologia é prenúncio de sucesso como fundador. Antes de se atirarem na batalha da start-up , os recém graduados devem considerar uma temporada em uma empresa de tecnologia famosa. A First Round constatou que as equipes com pelo menos um fundador vindo da  Amazon, Apple, Facebook, Google, Microsoft, ou Twitter obtiveram um desempenho 160% melhor do que as outras empresas. As equipes fundadoras com experiência em qualquer dessas empresas de tecnologia também eram avaliadas num valor quase 50% superior às outras, antes da rodada de investimento. Isso é um sinal de que os investidores consideram esses indivíduos como já tendo sido “previamente triados”, já que é muito difícil conseguir um emprego nessas empresas. (É interessante observar que embora o fato de cursar uma escola de elite se correlacionar a rendimentos financeiros mais elevados, não se correlacionava a uma avaliação de valor superior, antes da rodada de investimentos,  talvez sugerindo que os investidores não considerem a educação como sendo uma medida de pré-triagem tão eficiente ) .

As Amazons do mundo têm uma expectativa bem grande em relação a seus funcionários, desde a habilidade técnica até o tempo dispendido no escritório.  Os funcionários nessas empresas aprendem hard skills (“habilidades duras”), como gestão de projeto, mas também soft skills (“habilidades suaves”) como política e networking.  Uma vez refinadas, essas habilidades podem ser vitais para se navegar de modo eficiente na montanha russa caótica das start-ups em fase inicial.

Nem todas as start-ups vêm do Vale do Silício. De onde vêm os melhores novos empreendimentos? O local de sua fundação não pareceu fazer uma diferença radical em desempenho em nosso conjunto de dados. As empresas da First Round que  começaram fora da cidade de Nova York e da área da Baía de San Francisco obtiveram um desempenho tão bom quanto aquelas fundadas nos núcleos tradicionais de novos empreendimentos. Vinte e cinco por cento dos investimentos no conjunto de dados se situavam fora dessas cidades e, na média, obtiveram um desempenho ligeiramente melhor do que as demais. Isso é uma boa notícia para todos os núcleos mais jovens de startup de tecnologia que se propagam em todos os Estados Unidos, de Austin no Texas, à Raleigh na Carolina do Norte.

Isso também coincide com o fato de que encontrar bons investimentos está se tornando mais fácil. Investidores anjo e investidores de risco historicamente obtêm indicações de investimentos por meio de suas próprias networks, mas isso está mudando.  A First Round tomou conhecimento de investimentos com alto potencial a partir de uma ampla variedade de fontes, incluindo  Twitter e apresentações breves (pitch) para demonstrar e validar um modelo de negócio para potenciais investidores como “Demo Days.” Essas fontes não tradicionais lhe renderam empresas que obtiveram um desempenho 58,4% superior às empresas indicadas.  E o desempenho de fundadores que vieram diretamente à First Round foi 23% superior.

O investimento semente amadureceu, e constitui uma fonte principal de financiamento para a próxima geração de tecnologias e serviços disruptivos. Em mais de 300 investimentos observamos alguns padrões: a importância de empreendedores mulheres em um setor tradicionalmente dominado por homens e os benefícios de uma boa educação e experiência antes de iniciar uma start-up são evidentes.  O nivelamento do campo de ação geográfico torna plausível o desenvolvimento de áreas favoráveis  a start-ups em cidades em todo o âmbito nacional.  E embora qualificações, intuição e avaliações detalhadas sejam sempre cruciais, esse estudo aponta para o valor dos dados ao se tomar decisões de aporte de capital. As empresas bem sucedidas e suas carteiras se beneficiariam ao entender seus investimentos mais profundamente por meio da coleta de dados e análise longitudinais.    As empresas inteligentes utilizarão isso para criar vantagem competitiva para si mesmas e para as start-ups em que investem.

 

Agradecimentos: Agradeço à First Round Capital por sua assistência em desenvolver esse artigo.

Tucker J. Marion é professor associado na Northeastern University.

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